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14/05/2005

A revista Veja chega às bancas de jornal. Traz a reportagem “O homem-chave do PTB”. Transcreve trechos de uma fita de 114 minutos de duração, filmada e gravada por dois homens. O interlocutor deles, Maurício Marinho, chefe do departamento de contratação e administração de materiais da ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos), não sabe que uma câmara oculta registrava todas as suas palavras.

O repórter Policarpo Júnior, em Veja, descreve a cena em que Marinho pega de um suposto empresário a propina – um maço de R$ 3.000,00 – e, sem conferi-lo, coloca-o no bolso esquerdo do paletó. É uma “aula de corrupção”, afirma o repórter, que em outro trecho se refere aos “políticos desonestos que querem cargos apenas para fazer negócios escusos – cobrar comissões, beneficiar amigos, embolsar propinas, fazer caixa 2, enriquecer ilicitamente. Quem tem intimidade com o poder de Brasília sabe que esses casos não são a exceção – e em alguns bolsões de corrupção são até mesmo a regra”.

O flagrante vai para o noticiário dos telejornais. As imagens chocam. Mostram Marinho, inspirado, que desanda a conversar. Conta detalhes dos bastidores políticos do governo do presidente Lula. O funcionário acha que está trocando idéias com dois empresários interessados em vender equipamentos de informática à estatal federal. Marinho vai logo dizendo: é preciso fazer “um acerto” para se tornar fornecedor dos Correios. De várias formas:

– Dólares, euros, tem esquema de entrega em hotéis. Se for em reais, tem gente que faz ordem de pagamento, abre conta.

Marinho tranqüiliza os interlocutores quanto ao perigo:

– A gente procura agora ter muito cuidado com telefone, falar o mínimo possível.

E mais o seguinte:

– Uns têm escritório, a gente vai direto no escritório. Para evitar conversa, para evitar problema.

Acena: “os acertos” variam de 3% a 10% do total. Depende do negócio. E podem ser feitos no final do dia, ali mesmo, nos Correios:

– Vamos conversar mais ou menos às 18, depois das 18, que acabou o expediente e o pessoal vai embora. Fica só a secretária, depois vai embora também e acabou.

Agora, o mais grave: o alto funcionário explica estar ali em defesa dos interesses do PTB. O partido, da base aliada do governo Lula, tem o deputado Roberto Jefferson (RJ) como presidente. Trechos da gravação:

– Nós somos três e trabalhamos fechado. Os três são designados pelo PTB, pelo Roberto Jefferson.

Mais um trecho:

– É uma composição com o governo. Nomeamos o diretor, um assessor e um departamento-chave. Eu sou o departamento-chave. Tudo que nós fechamos o partido fica sabendo.

A explicação:

– O novo diretor é da nossa agremiação. Quem vai cobrir a diretoria de tecnologia é o Fernando Bezerra, líder do PTB no Senado, com o apoio do Roberto Jefferson.

Sobre Jefferson:

– Ele me dá cobertura, fala comigo, não manda recado.

E mais, sobre Jefferson:

– Eu não faço nada sem consultar. Tem vez que ele vem do Rio de Janeiro só para acertar um negócio. Ele é doidão.

Na fita, Marinho revela que os achaques do PTB também ocorrem em outras empresas públicas. Cita a Petrobrás, a Eletronorte, a Infraero. Mas os negócios vão além:

– Nós temos outras 18 empresas de porte nacional.

É sábado, mas Lula convoca os ministros das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE), da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), e da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Na mesma noite, o ministro das Comunicações, a quem os Correios estão subordinados, divulga uma nota oficial: afasta Marinho e o superior hierárquico dele, Antonio Osório Batista, diretor de administração. Batista é um ex-deputado do PTB da Bahia, integrante da direção executiva do PTB. Fora nomeado por indicação de Jefferson.

Reação do presidente do PT, José Genoino (SP):

– Essas coisas só não acontecem com o PT.

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