Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

5
18/05/2005

Novos trechos da fita em que Maurício Marinho revela a corrupção nos Correios são publicados nos jornais. O funcionário envolve a Novadata, do empresário Mauro Dutra, o Maurinho, amigo de Lula e que já atuou como arrecadador de dinheiro para campanhas do PT. A empresa, especializada em informática, fornece computadores para o governo federal. Marinho refere-se a uma operação para favorecer a Novadata em licitação. Eis o diálogo, que começa com o interlocutor que gravava a conversa:

– E a Novadata acertou daí direto com a diretoria...

– Foi direto com a diretoria.

– Ou foi com você?

– Não, foi eu, o diretor e o Godoy. Mas como teve um negócio, era um negócio grande, o Godoy saiu... Veio até de São Paulo...

Marinho refere-se ao diretor Antonio Osório Batista e a um assessor dele, Fernando Godoy, também afastado devido ao escândalo. O diálogo prossegue com uma pergunta sobre a contratação da Novadata. Como se sabe, Marinho não tinha conhecimento de que estava sendo gravado.

– Acertaram com o Osório direto então?

– Não, o Osório não acerta. É comigo ou com o Godoy.

O jornal Folha de S.Paulo denuncia os negócios da Novadata com o governo Lula. Renderam R$ 273,5 milhões em menos de dois anos e meio. Só com a Caixa Econômica Federal, vendas de R$ 95 milhões. Foram fechados três novos contratos com os Correios, por R$ 15,3 milhões. No quarto acerto com a Novadata, os Correios reajustaram em R$ 5,5 milhões um contrato de R$ 98 milhões. A denúncia assume contorno ainda maior: Lula passou o réveillon de 2001 na mansão de Mauro Dutra em Búzios (RJ), uma das praias mais badaladas do Brasil. Maurinho pôs avião à disposição de Lula.

Em outro trecho da gravação com a câmera escondida, Maurício Marinho trata das relações da Novadata com os Correios:

– Olha, no fornecimento de material, o mais forte é ele. Aqui no Correio, é. Computador, esses negócios, é a Novadata. Pelo menos nos últimos dois anos eles têm vencido quase todas aqui dentro.

Ainda Marinho, sobre um processo licitatório de “se não me engano R$ 60 milhões, coisa assim”:

– Mas como eles (a Novadata) perceberam que só estavam eles e eles achavam que podiam ganhar mais, falaram “olha, nós não vamos partir para abrir o processo, você dá como ‘deserta’ e marca uma outra abertura”.

“Deserta”, no caso, é a licitação para a qual não se apresentam concorrentes. Tem de ser refeita. Palavras de Marinho:

– O preço inicial do computador que nós tínhamos colocado em R$ 3.700,00 na licitação, eles pediram para aumentar... Sabe para quanto foi a licitação, um item, eram quatro itens? Foi R$ 6.000,00. Olha que absurdo...

No discurso que fez na Câmara, Roberto Jefferson denunciou um certo comandante Molina, que o teria procurado duas semanas antes da divulgação da fita, em nome do senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Teria tentado vender a gravação clandestina. Jefferson diz que recusou o negócio. Não o denunciou. O PMDB nega envolvimento em corrupção nos Correios e pressiona o governo. Ameaça-o com CPI para investigar o caso Waldomiro Diniz.

Dentro do loteamento promovido pelo governo Lula, o PTB ficou com uma diretoria dos Correios, o PT com duas e o PMDB com três, incluindo a financeira. E isso sem falar na indicação do próprio presidente dos Correios, o ex-deputado João Henrique de Almeida, também uma nomeação do PMDB. Rápido, Almeida anuncia a suspensão de uma licitação suspeita. Afinal, os detalhes de bastidores foram descritos na gravação clandestina com Marinho.

O negócio suspeito, de R$ 61 milhões, pretendia viabilizar a aquisição de medicamentos para funcionários dos Correios. Almeida também toma outra providência: impede o acesso de jornalistas à documentação sobre o processo de compra de remédios.

Na gravação, Marinho cita o diretor de recursos humanos dos Correios, Robinson Koury Viana da Silva, suplente do senador Ney Suassuna. O relato é rico, traz detalhes de uma parte da negociata tramada com o suplente de senador:

– Todos os projetos dele, nós que fazemos o projeto básico. Mesmo no RH. O pessoal dele não tem muito trâmite no negócio, a gente monta, passa pra ele, aí ele chama o departamento e diz: “Eu quero isso”. Mas ninguém sabe que é nós que estamos fazendo. Então o nosso negócio é assim. Tem uma licitação que vai ser... São 60 milhões em beneficiamento de saúde. (...) Fizemos tudo aqui. A decisão dele não conseguia desenrolar, desenrolar, um ano sentado em cima. Fechamos o projeto. Apareceram umas quatro empresas, deputado “a”, senador “b”, um rolo danado. “Meu amigo, o negócio é seu. Você quer que a gente trabalhe com quem?” Ele falou: “Infelizmente vou defender as quatro, porque as quatro virão através dos caciques e eu não posso fechar porta para ninguém”. “Tudo bem, então vou colocar o preço com as quatro suas, entendeu, mando a carta, com toda a planilhinha, daquelas quatro”. Fechei todo o processo, eram no mínimo três, tinha quatro, entendeu? (...) O processo está pronto. Tá pronto! Fechado, redondo. Ele adotou o recurso, o recurso é dele, da área dele, dos recursos humanos, do RH. Tá? Aí mandaram o processo de volta. O que nós fizemos chegou pra nós. Aí nós adotamos os nossos documentos, assinamos e pedimos autorização. O presidente, é acima de 650 mil, autorizou a abertura. Tá no comitê de análise. Saiu do comitê de análise, está sendo publicado. Dentro de poucos dias vocês vão ver aí na internet, tá lá, Diário Oficial. Agora, é um negócio grande. O que é que ele fez? Aí o acerto que a gente faz. Nesse tipo de negócio, ele que vai fechar, tem participação. Só que uma parte da participação vai vir pra nós. Entendeu? O negócio é dele, é capitaneado (inaudível). Ele que levantou a bola, nós fizemos viabilizar o negócio dele. Só isso. Mas nós temos uma participação. Dessa participação dele, a gente passa para o nosso partido. Entendeu? Que é ele que me sustenta, segura a gente aqui.

Em café da manhã com líderes partidários, Lula manifesta-se contra a CPI. Manda um recado, ao elogiar o ministro da Justiça, que também é o chefe da Polícia Federal:

– Todos sabem que o Márcio Thomaz Bastos tem credibilidade para apurar o caso dos Correios. Na saída do mesmo encontro, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), um aliado do governo, desqualifica a CPI. Nas palavras dele:

– Todo mundo sabe como começa uma CPI, mas não sabe como termina. Além do mais, quem tem o poder de oratória do Roberto Jefferson sabe colocar bem as palavras. Ele provou que não tem nada para que possa ser condenado.

O apelo do presidente e os esforços da tropa de choque do governo não impedem a decisão dos parlamentares, contrária a deixar as investigações só nas mãos da Polícia Federal. A oposição protocola requerimento com o pedido de abertura da CPI dos Correios. O documento recebeu assinaturas de 230 deputados e 46 senadores, dos quais 101 deputados e 10 senadores aliados do Palácio do Planalto.

anterior | próxima | início