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Cronologia da Crise:

Junho de 2005

1.06.2005

A imprensa volta a noticiar os subterrâneos do poder. As estatais Furnas Centrais Elétricas e Infraero indicaram, de forma suspeita, negócios a ser intermediados pela corretora de seguros Assurê, de propriedade de Henrique Brandão, o amigo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Brandão aparece associado à corretora norte-americana Acordia. A notícia é da Folha de S.Paulo.

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3.06.2005

As manchetes de jornais chocam a opinião pública. “Operação abafa da CPI custa R$ 400 milhões”, afirma a Folha de S.Paulo. “Contra a CPI, Palocci abre cofre”, escreve O Estado de S. Paulo. Na Folha, a informação de que “os líderes governistas estão fazendo listas de deputados fiéis para ter suas emendas pagas”. A operação vai liberar a dinheirama das emendas parlamentares para beneficiar redutos eleitorais dos aliados do governo.

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4.06.2005

Mais um petardo contra o presidente do PTB. A revista Época estampa, na capa: “O laranja de Roberto Jefferson”. Conta a história do dono de uma pequena sorveteria de beira de estrada, em Cabo Frio (RJ). Foi motorista, segurança e funcionário de gabinete do deputado Jefferson (RJ).

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5.06.2005

Divulgada pesquisa Datafolha. Levantamento nacional mostra que, num período de um ano, dobrou de 32% para 65% o percentual de brasileiros que acreditam que haja corrupção no governo Lula. E 88% apóiam a criação da CPI dos Correios.

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6.06.2005

Entrevista-bomba de Roberto Jefferson. O deputado denuncia para a Folha de S.Paulo, pela primeira vez, a história do mensalão. O Brasil não será mais o mesmo. “PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson”, é a manchete de primeira página. A entrevista, concedida à jornalista Renata Lo Prete, põe Brasília em polvorosa.

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7.06.2005

Acuado, Lula muda novamente de estratégia. Ordena ao PT que apóie a CPI dos Correios e, mais do que isso, se some à iniciativa de criar a CPI do Mensalão. O governo não diz, mas analisa que uma segunda comissão acabará tirando o foco da primeira. Supõe que os trabalhos ficarão dispersos e o processo como um todo confundirá a opinião pública. Em sua ofensiva, Lula determina a demissão de diretores do IRB, dos Correios e solicita ao PT o afastamento do tesoureiro Delúbio Soares.

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8.06.2005

O tesoureiro Delúbio Soares, com um broche do PT no peito, concede entrevista. Fala a um batalhão de jornalistas. Não convence. Apesar de orientado por advogados e pela cúpula do PT, Delúbio é patético. Nervoso, usa frases de efeito, vazias, evasivas, e não responde a parte das perguntas. Por fim é salvo pelo presidente do partido, José Genoino, que encerra a entrevista. Antes, os repórteres já haviam sido impedidos de retrucar e questionar as respostas do tesoureiro.

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9.06.2005

O Congresso instala a CPI dos Correios. O deputado Sandro Mabel (PL-GO) nega ter proposto à deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) para que deixasse o partido de oposição e ingressasse na base aliada do governo, em troca de uma mesada de R$ 30 mil e um bônus de R$ 1 milhão, no final do ano. Dois parlamentares apontam Mabel como o autor do assédio à deputada. O caso foi relatado pelo governador Marconi Perillo (PSDB) a Lula.

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10.06.2005

A Abin (Agência Brasileira de Inteligência, vinculada ao governo federal) divulga nota oficial para explicar que o recém-afastado presidente dos Correios, João Henrique Souza Almeida, integrante da cota do PMDB no governo Lula, vai ser intimado a depor e poderá responder a processo por prevaricação e improbidade administrativa. Motivo: antes do escândalo nos Correios vir a público, Almeida recebeu prazo para afastar Maurício Marinho da estatal e relatar à Polícia Federal atividades supostamente ilícitas do funcionário. Não o fez. A Abin informa que havia infiltrado agentes entre empresários descontentes, por ter sido informada da ocorrência de fraudes em licitações nos Correios.

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11.06.2005

Nova gravação clandestina com diálogos mantidos por Maurício Marinho chega à imprensa. Desta vez, são divulgadas na Folha de S.Paulo. Investigações sugerem disputas comerciais como causa das escutas. As conversas revelam tentativas de extorquir empresários que desejam firmar contratos para fornecer bens e serviços aos Correios.

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12.06.2005

Nova entrevista do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à repórter Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo. Traz denúncias contra o governo Lula, auxiliares do presidente, integrantes da base aliada no Congresso, membros do PT. E introduz um novo personagem no cenário político nacional, até aqui desconhecido de todos aqueles que não freqüentavam os escaninhos do poder em Brasília: o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. Jefferson explica a origem do dinheiro do mensalão:

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13.06.2005

O presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP), vai à forra. Depois de acusado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de envolvimento no escândalo do mensalão, trata de disparar contra o oponente. Para Valdemar, Jefferson quer “tomar dinheiro” de alguém. Diz duvidar da doação de R$ 4 milhões do PT ao PTB, em 2004. Motivo: o PTB está “cheio de cargos no governo”, e “ajudando um monte de empresários”. Palavras de Valdemar:

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14.06.2005

O Brasil pára a fim de ver e ouvir o depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. A sessão dura quase sete horas, entre a fase de depoimento e os debates. Provoca um terremoto político. Repleto de acusações, declarações contundentes e ironias, o depoimento de Jefferson reafirma denúncias feitas à Folha de S.Paulo. E vai além: a confissão e o testemunho do deputado comprometem, e muito, o governo Lula. Sobre o mensalão:

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15.06.2005

O governo conquista o comando da CPI dos Correios. Nomeia dois aliados para os cargos principais da comissão: o presidente será o senador Delcídio Amaral (PT-MS), e o relator o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). Serraglio tem ligações com José Dirceu. Apoiou a candidatura do filho do ministro, José Carlos Becker (PT), à Prefeitura da cidade paranaense de Cruzeiro d’Oeste.

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16.06.2005

Demite-se do cargo o ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP). Considerado a face do PT no governo, chegou a ser o mais poderoso ministro de Lula. Perdeu força em fevereiro de 2004, em conseqüência do escândalo Waldomiro Diniz. Com as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), fica sem condições de permanecer no governo. Sai contrariado. Volta à Câmara para exercer mandato de deputado federal por São Paulo.

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17.06.2005

A imprensa noticia que dois diretores indicados pelo PT e afastados como os demais da cúpula dos Correios, em razão das irregularidades ocorridas na estatal, já estão novamente nomeados nos Correios, uma semana depois de terem sido oficialmente desligados da estatal. Eduardo Medeiros de Morais, afastado da diretoria de tecnologia, e Maurício Coelho Madureira, afastado da diretoria de operações, são agora os novos consultores dos Correios. Os salários: R$ 10.000,00 cada um, para trabalhar diretamente no gabinete da presidência da estatal. Depois da notícia, as nomeações são canceladas.

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18.06.2005

A revista Época traz a manchete de capa “Homem da Mala”. A reportagem, de Diego Escosteguy, traça um perfil de João Cláudio Genu, o chefe de gabinete do líder do PP na Câmara, deputado José Janene (PR). Genu é apontado como braço direito de Janene, e “principal executivo na operação do mensalão”. Época:

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19.06.2005

O programa Fantástico, da TV Globo, entrevista a publicitária Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP). Ela descreve conversas que ouviu do ex-marido, segundo as quais o governo de Taiwan fez uma contribuição ilegal para a campanha de Lula, em 2002. A transação teria sido intermediada por Valdemar e o tesoureiro Delúbio Soares. Diz Maria Christina:

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20.06.2005

O FMI (Fundo Monetário Internacional) divulga relatório em Washington com criticas ao Brasil. Afirma que o país limita o trabalho de autoridades fiscais e não avança no combate à lavagem de dinheiro, por deixar de exigir esforços maiores dos bancos contra a abertura de contas em nome de “laranjas”.

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21.06.2005

Em Luziânia (GO), durante solenidade, Lula classifica de “bobagens” e de “denúncias vazias” as acusações de corrupção no governo:

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22.06.2005

O STF (Supremo Tribunal Federal) determina ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que nomeie senadores para compor a CPI dos Bingos. Segundo a Folha de S.Paulo, o governo trabalha para impedir o funcionamento da comissão. Estrategistas do Planalto consideram a possibilidade de, mesmo indicados, integrantes da CPI não darem quorum e, assim, frustrarem propositadamente os trabalhos de investigação. Do jornal:

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23.06.2005

Mais um revés para o governo Lula, virtualmente paralisado em decorrência da avalanche de denúncias de corrupção e em meio a um debate inócuo e sem fim em torno das sempre debatidas reformas ministerial e política. Agora, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, encaminha requerimento ao STF (Supremo Tribunal Federal) solicitando a quebra de sigilo bancário do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A medida se estende a algumas empresas das quais ele foi sócio. O motivo é uma suspeita de remessa ilegal de dinheiro para o exterior.

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24.06.2005

A cúpula da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) reúne-se com Lula em Brasília. Entrega uma carta ao presidente. Quer punição para todos os envolvidos em corrupção:

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25.06.2005

A revista Veja publica entrevista com Marcos Valério. Descreve que o empresário “tem passado os dias trancado com um batalhão de advogados e mergulhado em documentos e fitas de vídeo”, com a finalidade de esmiuçar o depoimento de Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Comissão de Ética da Câmara.

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26.06.2005

A Folha de S.Paulo informa que o patrimônio de Marcos Valério subiu de R$ 3,8 milhões para R$ 6,7 milhões em apenas um ano, de 2002 para 2003, durante o primeiro ano do governo Lula. O jornal esclarece que praticamente todos os bens do empresário estão em nome dos filhos e da mulher, Renilda Santiago. O casal possui imóveis, carros de luxo e tem aplicações financeiras. A Folha descreve ganhos de Valério:

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27.06.2005

O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) concede entrevista à Rádio Solar, de Juiz de Fora (MG). Relaciona os escândalos do mensalão, dos Correios e das casas de bingo ao assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).

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28.06.2005

Fecha o cerco a Marcos Valério. A Polícia Federal analisa documentos apreendidos nos setores de contabilidade das empresas do empresário, mas não há registros de transações com gado ou cavalos. Valério mencionou negócios no setor pecuário como justificativa para saques em dinheiro, no valor de R$ 20,9 milhões, efetuados no Banco Rural. As investigações constataram novos números: durante o governo Lula, o patrimônio de Valério teria saltado de R$ 2 milhões para R$ 6,7 milhões.

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29.06.2005

Apesar da resistência da base aliada do governo Lula, o Senado instala a CPI dos Bingos. Na CPI dos Correios, os governistas trabalham contra a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Marcos Valério. Mas o esforço é em vão.

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30.06.2005

Roberto Jefferson no ataque. A Folha de S.Paulo publica novas acusações do presidente do PTB. Agora, um esquema de desvio de dinheiro engendrado na estatal Furnas Centrais Elétricas. A maracutaia envolveria o diretor de Engenharia da empresa, Dimas Toledo. Ele teria se reunido com Jefferson, na casa do deputado, em 13 de abril de 2005.

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1.07.2005

O prefeito de Itaboraí (RJ), Cosme José Salles (PT), institucionalizou o próprio mensalão. Está na Folha de S.Paulo. Lei municipal de dezembro de 2004 estipula: o salário do prefeito deve ser equivalente a 0,5% da receita obtida pela cidade. Dá para imaginar o resultado. Em Itaboraí, município pobre, 70% da população não têm esgoto, 90% das ruas são de terra e a renda per capita é de R$ 202,29. Já o salário do prefeito petista... Em janeiro de 2005, R$ 28.978,00. Em fevereiro, R$ 27.562,00. Março, R$ 24.228,00. Abril, R$ 33.060,00. E, em maio, R$ 33.153,00.

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