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Cronologia da Crise:

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14/06/2005

O Brasil pára a fim de ver e ouvir o depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. A sessão dura quase sete horas, entre a fase de depoimento e os debates. Provoca um terremoto político. Repleto de acusações, declarações contundentes e ironias, o depoimento de Jefferson reafirma denúncias feitas à Folha de S.Paulo. E vai além: a confissão e o testemunho do deputado comprometem, e muito, o governo Lula. Sobre o mensalão:

– Desde agosto de 2003 é voz corrente em cada canto desta Casa, em cada fundo de plenário, em cada gabinete, em cada banheiro, que o ‘seu’ Delúbio, com conhecimento do ‘seu’ José Genoino, sim, tendo como pombo-correio o ‘seu’ Marcos Valério, um carequinha, que é publicitário lá em Minas, repassa dinheiro a partidos que compõem a base de sustentação do governo no negócio chamado mensalão.

Jefferson refere-se ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares:

– Atendi na minha casa, no princípio de 2004, janeiro, fevereiro... O Delúbio foi simpático. Fumou um charuto. Simples, um homem simples, mas cumprindo uma missão. Cheio de melindres e de tato para falar comigo. Com aquele jeitão dele de goiano do interior, disse que gostaria de ajudar a desencravar uma unha que pudesse haver, foi a expressão que ele usou, e que faria alguns repasses para o PTB.

– Com o Zé Dirceu eu falei sobre esse assunto uma meia dúzia de vezes. Não é, Zé Dirceu? Não é? Ao Genoino, o presidente do partido, falei uma meia dúzia de vezes.

– Disse isso ao ministro Palocci. Ele nega. Mas, Palocci, com todo o respeito, disse isso a vossa excelência, olhando dentro dos seus olhos.

Agora, Jefferson mira deputados envolvidos com corrupção:

– Será que eu estou falando em um convento de virgens? Será que só eu ouvi falar em mensalão? Eu apenas destampei a panela, deputado.

– Tem muita gente do PP que está acima disso, tem muita gente do PL que está acima disso. Mas deputado Valdemar Costa Neto, deputado José Janene, Pedro Corrêa, Sandro Mabel, Bispo Rodrigues, Pedro Henry. Me perdoem, de coração, não posso ser cúmplice de vocês.

Para Valdemar Costa Neto (PL-SP), que o acusa de mentiroso:

– Eu afirmo que o senhor recebe repasses.

Dirigindo-se a Valdemar, que é o presidente nacional do PL:

– Diga os nomes dos seus que recebem o mensalão. Vossa excelência recebe e reparte. Jefferson aponta que o dinheiro, “no início, era para transferência de partido. Depois foi para votação”. E mais:

– Um dia, pedi a um companheiro: (...) Avisa ao Pedro Henry que, se ele tomar os dois deputados do PTB que está tentando com aquela mala de dinheiro, vou para a tribuna e conto a história do mensalão. Aí, refluiu, mas o mensalão não parou.

Sobre a saída do deputado Luiz Piauhylino (PDT-PE) do PTB:

– O motivo não é nobre, não é justo, foi por dinheiro.

– Provas não tenho, mas tenho provação. Provação vivi, porque além de eles receberem a mesada, ainda ficavam tentando os nossos deputados: “Vem para cá, seu otário. Olha, está na mala. Vocês não tem. Aqui tem”.

Jefferson dá novos detalhes do acordo PT/PTB:

– Em maio do ano passado, conversamos eu, o tesoureiro do meu partido, Emerson Palmieri, o doutor Delúbio, o presidente José Genoino e o Marcelo Sereno. Lá no prédio da Varig, onde fui várias vezes, e os senhores podem buscar informação na portaria, porque lá a gente tem que se identificar. Pedi ao presidente do PT, ex-deputado Genoino, um apoio para a campanha do meu partido. “Sem problema. Você me dá um planejamento de custo das campanhas do PTB”. Fizemos. Voltamos. Nos reunimos de novo com os três e eles aprovaram R$ 20 milhões para o financiamento das campanhas do PTB em todo o Brasil.

– Eles cumpriram a primeira parte do acordo, em princípios de julho, com R$ 4 milhões. O dinheiro foi levado para o partido (...) pelo senhor Marcos Valério. Foi quando estive com ele pela primeira vez. É carequinha, falante e fala em dinheiro como se fosse assim uma coisa que caísse do céu. Primeiro foram R$ 2,2 milhões. Em duas malas enormes, notas de R$ 50 e R$ 100, etiquetadas por Banco Rural e Banco do Brasil. E três dias depois, (...) ele volta com R$ 1,8 milhão. Notas de R$ 50 e R$ 100, Banco Rural e Banco do Brasil e a promessa de outras quatro parcelas iguais. Perguntei ao Genoino: “Como é que a gente vai fazer para justificar esse dinheiro?” Ele falou: “No final a gente faz a entrada, via partido, e a saída, conta-contribuição”. Perfeito. Mas até hoje essas notas não chegaram. Isso gerou uma crise brutal no meu partido...

– Voltei ao Zé Dirceu, uma, duas, dez vezes, e disse: “Zé, está esgarçando, estou perdendo autoridade”. Ele falou: “Roberto, a Polícia Federal é meio tucana. Meteu em cana 62 doleiros, agora, na véspera da eleição. A turma que ajuda não está podendo internar dinheiro no Brasil”.

Jefferson usa o depoimento para mandar recado a José Dirceu:

– Eu percebi que o governo quis botar um cadáver podre, que atinge o senhor Delúbio Soares, que atinge o senhor Silvio Pereira, que atinge o senhor Zé Dirceu... Estão dizendo que eu sou réu... Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, o presidente Lula. Rápido, saia daí rápido, Zé, para você não fazer mal a um homem bom, correto e de quem tenho orgulho de ter apertado a mão.

A origem do dinheiro da corrupção:

– Tem de perguntar isso ao Genoino e ao Delúbio, mas pelo que ouvi da conversa do Marcos Valério, quando ele foi levar os recursos ao PTB na eleição, ele faz via agência de publicidade, na relação de contratos que tem com algumas empresas do governo.

Sobre o financiamento de campanhas eleitorais, feito com dinheiro de empresas:

– Nenhum partido aqui recebe ajuda na eleição que não seja assim. Nenhum. Tenho a coragem de dizer de público aqui. Não aluguei meu partido, não fiz dele um exército de mercenário, nem transformei os meus colegas de bancada em homens de aluguel. Aqui todos sabem de onde vem, só que nós temos a hipocrisia de não confessar ao Brasil. Estou assumindo isso aqui e faço como pessoa física, faço como Roberto Jefferson. O dinheiro vem dos empresários que, na maioria das vezes, mantêm relação com as empresas públicas. É assim e sempre foi.

Jefferson toca no problema dos Correios, na acusação de que participou de esquema de corrupção:

– Não consegui compreender ainda por que o zeloso Ministério Público, a zelosa Polícia Federal, a zelosa Corregedoria da União não investigaram a diretoria de informática... E 60% do depoimento do senhor Maurício Marinho apontam lá para a diretoria do ‘seu’ Silvinho Pereira, secretário-geral do PT.

– Não entendi por que não pesquisaram a Novadata ainda. Não sei por que correm atrás de um óbolo de R$ 3 mil, quando os contratos que desfalcam os Correios são de bilhões. Não compreendi ainda como é que o cioso Ministério Público, a ciosa Polícia Federal e a ciosa Corregedoria da República ainda não investigaram o correio aéreo noturno, do ‘seu’ Silvinho Pereira, onde as contas de superfaturamento nos primeiros anos da atual gestão chegam a superfaturamento de 300%.

– A Skymaster? Eu nunca tinha ouvido falar. Sei agora, porque gente boa dos Correios está começando a me dar essas informações. E a Novadata? Naquela época não sabia nada, mas gente boa dos Correios começa a me dar agora essas informações. Assim como gente boa começa a me dar informações, deputado Valdemar Costa Neto, das licitações da Valec, do ex-deputado Juquinha, do PL. Como gente boa começa a me dar o que está acontecendo no Dnit, lá do PL. Coisas que, se Deus quiser, a CPI vai conhecer.

Ex-tesoureiro nacional e atual secretário-geral do PP, Benedito Domingos afirma aos jornais Correio Braziliense e O Estado de S. Paulo que tomou conhecimento de um esquema de pagamento de mensalões a parlamentares do PP. A distribuição de dinheiro era feita no apartamento do deputado José Janene (PP-PR), localizado em edifício da Asa Sul, em Brasília.

– Você sabe que as pessoas tinham, mas não sabia de onde vinha.

Domingos conversa com o repórter Expedito Filho, de O Estado de S. Paulo. Diz que o mensalão era conhecido como “apoio financeiro”, e entendido como uma espécie de caixa 2:

– O zunzunzum era muito forte. Um grupo sempre freqüentou a casa do Janene. Sempre houve uma grande movimentação. A casa do Janene era chamada de pensão.

A revista Isto É Dinheiro publica duas entrevistas com Fernanda Karina Ramos Somaggio, uma ex-secretária do empresário Marcos Valério, o dono das agências de publicidade DNA Propaganda e SMPG Comunicação. Ela acusa Valério de envolvimento com o esquema de compra de deputados.

Fernanda Karina relata os encontros freqüentes de Valério com dirigentes do PT. Cita Delúbio Soares, Silvio Pereira, e reuniões em hotéis de São Paulo e Brasília.

– Em que hotéis?

– O Blue Trees, em Brasília, o L’Hotel, em São Paulo, o Sofitel, também em São Paulo.

A secretária testemunhou saídas de dinheiro:

– Com certeza. O Marcos Valério ficava o tempo todo com o Delúbio Soares. Era o Marcos quem pegava o negócio e levava de um lugar para o outro.

– Onde o dinheiro era retirado?

– Era sempre no Banco Rural. E era coisa grande. Algumas vezes pouco, R$ 50 mil, R$ 30 mil. Às vezes muito, mas muito mais.

Para ela, Delúbio era o mais próximo de Valério no esquema:

– Depois, o Delúbio abriu as portas e aí tinha o José Dirceu, o Silvio Pereira.

– Como era o contato com o ministro José Dirceu?

– Havia ligações. A gente ligava e pedia para a menina do Delúbio colocar ele em contato com o Marcos Valério.

– Então o Valério tinha uma comunicação direta com o Dirceu?

– Sim.

– A senhora relata também que o irmão do ex-ministro Anderson Adauto teria recebido dinheiro da agência. Isso aconteceu no Ministério?

– Não. O irmão dele foi lá na agência, pegou uma mala de dinheiro e foi embora.

A ex-secretária conta que Valério mantinha contato com dois deputados do PT de São Paulo, José Mentor e João Paulo Cunha. Valério pagou passagens aéreas para Silvana Jupiassu, secretária de Cunha. A filha de Silvana também ganhou bilhetes aéreos.

– Isso porque ela facilitava o contato com o João Paulo.

Em outra parte da entrevista, Fernanda Karina envolve outra funcionária de Valério nos saques de dinheiro:

– Eram pedidos freqüentes. Era tudo feito pela Simone Vasconcellos. Era ela quem ia de vez em quando para Brasília pagar.

Fernanda Karina fala das atividades de Valério:

– Ele faz intermediação de negócios. Por exemplo: a SMPB tem a conta do Banco do Brasil na parte de esportes através da Multi Action, uma das empresas do grupo. E é tudo negociata. Eu sei que eles passam dinheiro para o pessoal do governo.

– Como isso é feito?

– O Marcos Valério manda e tem um pessoal do departamento financeiro que faz isso.

– E como a senhora tinha conhecimento?

– Ele era meu chefe. Eu estava sempre com ele. Todo mundo sabe que tem mutreta no fato de a empresa ter um bom dinheiro no Banco do Brasil.

– Haveria pagamento de propinas a gente do governo?

– Eu já vi sair muito dinheiro de lá.

– Em que situações?

– Vi sair R$ 100 mil em dinheiro para o irmão do Anderson Adauto, no fim de 2003, quando ele era ministro dos Transportes.

– E para o pessoal do Banco do Brasil?

– O Marcos Valério dá muitas festas para eles, muitos paparicos, muitos mimos.

– Ele oferece viagens de jatinho para eles?

– Não, o Marcos usa o jato do Banco Rural, eventualmente. O Delúbio Soares também anda no jato do Banco Rural.

Em outro trecho, o repórter de Isto É Dinheiro, Leonardo Attuch, indaga se Valério faz pagamentos para obter em troca contas publicitárias do governo. Diz Fernanda Karina:

– Com certeza. Quando você entra numa concorrência, a gente já sabe quem vai ganhar e quem não vai. Eles fazem a licitação pública, mas é um jogo de cartas marcadas. Tem quem vai pegar a melhor parte da conta, a pior parte da conta.

– A senhora viu?

– Olha, para o Banco do Brasil, o Marcos dava festas. Festas para a alta cúpula e para a área de marketing.

A revista pergunta como os pagamentos eram feitos:

– Tinha duas pessoas da área financeira, a Simone Vasconcellos, e uma assistente, a Geysa, que cuidavam de tudo.

– A senhora tem noção de quanto?

– Já vi o boy sair com motorista para tirar R$ 1 milhão do Banco Rural. Era para depois dividir o dinheiro, entendeu?

A Folha de S.Paulo divulga o relatório “Agências & Anunciantes”, do jornal Meio & Mensagem. Traz informações sobre o faturamento da agência DNA Propaganda, de Marcos Valério. É o que mais cresceu em 2004, com um aumento de 203%. Dos R$ 23,2 milhões de faturamento registrados em 2003, o valor subiu para R$ 70,5 milhões. A agência atende as contas do Banco do Brasil, Eletronorte e Ministério do Trabalho. Um outro dado: a DNA recebeu multa de R$ 9 milhões em sete processos na área tributária e dois na previdenciária, por não pagamento de impostos.

Já a SMPB, a outra agência de Valério, cuida da conta dos Correios. Teve faturamento de R$ 39,9 milhões em 2004, sendo R$ 29,6 milhões apenas com os Correios. Além de atender o Banco Rural, a SMPB foi contratada pelo Ministério dos Esportes e pela Câmara dos Deputados, na gestão de João Paulo Cunha (PT-SP).

Parlamentares de cinco partidos entregam ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pedido para a criação da CPI do Mensalão. O requerimento tem assinaturas de 255 deputados e 41 senadores.

O chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, admite em depoimento a promotores criminais que entregou ao prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), no ano 2000, um dossiê de 80 páginas, com denúncias de fraude em licitações naquela cidade da Grande São Paulo. Relata ter havido uma discussão, poucos dias antes do assassinato de Daniel, entre o então prefeito e o seu secretário de Serviços Municipais, o vereador Klinger Luiz de Oliveira (PT). Klinger vem sendo investigado por envolvimento no suposto esquema de corrupção montado em Santo André.

O irmão do prefeito morto, João Francisco Daniel, declarou ao Ministério Público que o dinheiro da propina entregue por fornecedores da Prefeitura tinha como destino as campanhas eleitorais do PT. Segundo o depoimento dele, Carvalho teria confessado que transportou R$ 1,2 milhão, de uma só vez, para o então presidente do PT, o deputado José Dirceu (SP).

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