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Cronologia da Crise:

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16/06/2005

Demite-se do cargo o ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP). Considerado a face do PT no governo, chegou a ser o mais poderoso ministro de Lula. Perdeu força em fevereiro de 2004, em conseqüência do escândalo Waldomiro Diniz. Com as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), fica sem condições de permanecer no governo. Sai contrariado. Volta à Câmara para exercer mandato de deputado federal por São Paulo.

O senador Jefferson Péres (PDT-AM), um dos mais respeitáveis parlamentares do Congresso Nacional, defende uma investigação para apurar se Lula sabia do mensalão. Quer saber se o presidente agiu para investigar o esquema e punir eventuais responsáveis. Péres está convicto: Lula “foi conivente, prevaricou, com certeza”:

– Não acho que o presidente Lula seja capaz de um ato desonesto, no sentido de enriquecer ilicitamente. Agora, que ele sabia, com certeza sabia.

Para o senador, “ninguém, só quem acredita em Papai Noel, pode imaginar que José Dirceu com o senhor Delúbio, amigos, companheiros de partido, que há muitos anos acompanham o presidente da República, tenham feito tudo isso com o seu desconhecimento. E ficou comprovado, ou há fortes indícios de que ele sabia”.

Péres admite que um eventual processo de impeachment “pode levar o país a uma instabilidade muito grande”. Entende, contudo, que a situação justifica uma investigação sobre o presidente:

– Se ficar evidenciado que o presidente realmente sabia e não tomou providências, não podemos, em nome da estabilidade, fingir que não sabemos e ficar de braços cruzados, senão nós é que estaremos prevaricando também.

Do senador: responsabilizar alguém por corrupção não exige farta documentação para servir de prova:

– Provas são provas. Há provas documentais, técnicas, periciais e testemunhais. Se a testemunha for idônea, se o seu depoimento for convincente, a testemunha vale também, é uma prova.

O repórter Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo, entrevista o ex-assessor parlamentar, ex-coordenador de campanha e sobrinho do deputado José Janene (PP-PR), Aristides Barion Júnior. Ele ataca o tio. Diz não se surpreender com denúncias que envolvem Janene, o líder do PP na Câmara dos Deputados, como um operador do esquema do mensalão:

– Surpreso, eu? Claro que não. O Zé é terrível, você não conhece ele. Quando o Zé vê que o cara é menor, ele esmaga. Se vê que não pode com o cara, tenta fazer um acordo. O Zé é o número um do mensalão, não tenho dúvida.

Aristides conta que Janene lhe deve US$ 1 milhão, dinheiro que foi emprestado para a campanha eleitoral de 1994. Afirma que o tio ficou rico depois de entrar para a política:

– O Zé mora em um apartamento que vale mais de R$ 1 milhão, tem fazenda, carros importados, tem avião, tem dois apartamentos na praia, mas é tudo em nome de terceiros.

Há cinco anos o Ministério Público pede à Câmara dos Deputados uma investigação contra Janene. Ele é réu em sete ações civis na Justiça do Paraná. Tem acusação por suposto ato de improbidade administrativa, desvio de verbas públicas na Prefeitura de Londrina (PR) e enriquecimento ilícito.

O sobrinho conta como Janene age nas campanhas eleitorais:

– Aí você tira suas conclusões. As campanhas são ostensivas, ele gasta uma fortuna. Na última eleição, não tinha uma esquina em Londrina que não tinha duas ou três pessoas dele com bandeiras. É muito dinheiro. Ele trabalha em cidadezinha pequena. Vai lá, acerta com o prefeito e com os vereadores, 60, 80 cidades pequenas. Aí faz votos, manda bala sem dó nem piedade.

Cerco ao ministro Luiz Gushiken. Ele comanda a Secom, Secretaria de Comunicação da presidência da República, e é um dos auxiliares mais próximos de Lula. A Folha de S.Paulo publica que a mulher de Marco Antônio da Silva, diretor de eventos da Secom, trabalha para a empresa Multi Action, ligada a Marcos Valério.

A publicitária Telma dos Reis Menezes Silva ocupa o posto estratégico de representante da Multi Action, uma realizadora de eventos. Telma mantém contatos com órgãos públicos em nome da empresa de Valério. O detalhe: cabe à Secom opinar e determinar o conteúdo de editais de licitação que definem contratações na área de comunicação do governo federal. É a Secom de Gushiken que controla a publicidade e os patrocínios oficiais do governo Lula.

Marco Antônio da Silva nega qualquer irregularidade. Afirma que não tem envolvimento com o trabalho da mulher. A Folha pergunta-lhe para quem Telma trabalha. O marido:

– Não sei. Deve trabalhar para vários eventos.

– Sua mulher nunca lhe disse para quem trabalha?

– Eu evito. Minha mulher não é política, não é militante, não é filiada.

– Como ela conheceu Marcos Valério?

– Não sei.

– O ministro sabe dessa situação?

– Acho que não. É uma questão de foro pessoal. Eu relativizei de forma primária, por ela já ser do mercado. Ela é uma pessoa ingênua em relação a essas coisas. Problemas políticos daqui eu não comento em casa.

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