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Cronologia da Crise:

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22/06/2005

O STF (Supremo Tribunal Federal) determina ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que nomeie senadores para compor a CPI dos Bingos. Segundo a Folha de S.Paulo, o governo trabalha para impedir o funcionamento da comissão. Estrategistas do Planalto consideram a possibilidade de, mesmo indicados, integrantes da CPI não darem quorum e, assim, frustrarem propositadamente os trabalhos de investigação. Do jornal:

“Essa idéia estava sendo discutida ontem entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder do governo no Senado, Aloízio Mercadante (PT-SP), chamado às pressas ao Planalto.”

Proposta no início de 2004, a CPI dos Bingos foi engavetada por decisão do então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que apóia o governo.

Além de apurar suspeitas de lavagem de dinheiro e a suposta ligação de casas de bingo com o crime organizado, a comissão foi proposta com a finalidade de investigar atividades do ex-subchefe de assuntos parlamentares do Ministério da Casa Civil, Waldomiro Diniz. Ele acabou afastado do governo Lula depois da divulgação de uma fita no início de 2004, na qual aparece pedindo propina ao empresário do jogo Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Quando a gravação foi feita, em 2002, Waldomiro era o presidente da Loterj (Loteria Estadual do Rio), na gestão da governadora Benedita da Silva (PT-RJ).

A deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) depõe no Conselho de Ética da Câmara. Afirma que recebeu proposta em dinheiro do deputado Sandro Mabel (PL-GO), para se transferir ao PL e apoiar a base do governo Lula. Da deputada:

– Sandro fez a seguinte colocação: “O PL quer se repaginar e ter uma cara nova. Temos que ter uma mulher, mas não qualquer mulher. Queremos uma mulher que faça a diferença”. Confesso que me senti lisonjeada.

De acordo com Raquel, Mabel fez vários elogios, dizendo à deputada que ela “viajaria pelo Brasil adequando a educação ao perfil do PL”. Então, veio a oferta:

– Houve sim uma proposta de R$ 30 mil por mês, que poderia chegar a R$ 50 mil. Em dezembro, eu receberia mais R$ 1 milhão. Fiquei indignada. Não perguntei mais nada e a conversa acabou ali. A deputada decidiu pedir conselho ao governador Marconi Perillo (PSDB). Ela não denunciou o caso por falta de provas:

– Era uma conversa sem testemunhas. Seria a minha palavra contra a dele. Qualquer pessoa sensata só fala o que pode provar.

A secretária Fernanda Karina concede entrevista à imprensa. Acrescenta novos detalhes às atividades do empresário Marcos Valério. Fala do relacionamento do ex-chefe com integrantes do PT. É questionada sobre “malas de dinheiro” para políticos em Brasília:

– Os acertos para saques no Banco Rural eram feitos pela gerência financeira da SMPB e também por Marcos. Várias vezes, quando ele precisava de dinheiro, falava diretamente com a diretoria do banco.

Fernanda Karina menciona “boys e motoqueiros”, que tinham a função de ir ao Banco Rural e ao Banco do Brasil buscar dinheiro:

– As pessoas do departamento financeiro falavam que na mala tinha dinheiro. Não falavam o valor. Valério encarregava-se de transportar o dinheiro para Brasília:

– Era para político, porque Marcos sempre estava conversando com político.

Fernanda Karina reafirma: Valério e Delúbio Soares voaram em avião do Banco Rural:

– O Banco Rural sempre disponibilizava o avião, para quando eles precisassem.

Dá detalhes sobre a licitação para a escolha da agência de publicidade que atenderia a conta dos Correios. Foi um período em que Valério manteve intenso contato com Delúbio, o secretário-geral Silvio Pereira e outras “pessoas do PT em Brasília”. As conversas eram incompreensíveis, sempre “codificadas”:

– O que aconteceu foram vários telefonemas, várias viagens a Brasília durante o processo de licitação. As pessoas que iam às reuniões nunca eram faladas. Eu sempre soube que eram o Marcos, o Delúbio e o Silvio Pereira, algumas vezes. As reuniões eram sigilosas, fora da empresa, fora de Belo Horizonte.

A licitação dos Correios chamou a atenção de Fernanda Karina. Antes da sua conclusão, todos os funcionários da SMPB já sabiam que a agência iria ganhar a conta publicitária da estatal:

– No final de 2003, houve uma festa preparada dois dias antes da divulgação do resultado da licitação, para os funcionários comemorarem a conquista da conta.

O TCU (Tribunal de Contas da União) aponta sobrepreço em dois contratos dos Correios com a empresa Skymaster Airlines, contratada para o serviço de postagem noturna. A diretoria de operações da estatal, responsável pelo negócio, pertenceria à área de influência do secretário-geral do PT, Silvio Pereira.

O contrato, assinado em janeiro de 2004, previa gastos anuais de R$ 78 milhões. Num dos casos examinados, o TCU apurou um acréscimo de 108% no valor contratado. O preço de um vôo de R$ 213 mil em dezembro de 2003, em 2004 subiu para R$ 445 mil.

O TCU compara os valores de duas linhas aéreas exploradas pela Varig, nos patamares de R$ 115,7 mil e R$ 27 mil. No caso dos Correios, os custos dos mesmos serviços subiram, sem maiores justificativas, para R$ 229,2 mil e R$ 75 mil.

O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Roberto Busato, defende a convocação de Lula para dar explicações sobre o escândalo do mensalão:

– Acho que todos os personagens envolvidos em algum tipo de denúncia devem ser investigados. Evidentemente, o presidente da República viu a corrupção ser denunciada da porta de seu gabinete. Portanto, todas as instituições devem ser passadas a limpo e todas as investigações legais neste momento são válidas.

Busato critica setores do governo e organizações ligadas ao PT, para os quais a onda de denúncias esconde um interesse eleitoral de oposicionistas, que desejam desestabilizar o Palácio do Planalto:

– Falar em golpe neste momento é uma falácia. Está claro que algozes e vítimas, denunciantes e denunciados, são da mesma falange, da mesma linha política. Quem falar em golpe está querendo desviar o efetivo foco da crise que está aí, que é a corrupção.

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