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Cronologia da Crise:

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28/06/2005

Fecha o cerco a Marcos Valério. A Polícia Federal analisa documentos apreendidos nos setores de contabilidade das empresas do empresário, mas não há registros de transações com gado ou cavalos. Valério mencionou negócios no setor pecuário como justificativa para saques em dinheiro, no valor de R$ 20,9 milhões, efetuados no Banco Rural. As investigações constataram novos números: durante o governo Lula, o patrimônio de Valério teria saltado de R$ 2 milhões para R$ 6,7 milhões.

Pecuaristas também estranham as alegações de Valério. R$ 20,9 milhões seriam suficientes para adquirir até 50 mil cabeças de bezerro de engorda, mas o nome de Valério é desconhecido no mercado de leilões de gado. Declaração de Daniel Bilk Costa, presidente do Sindicato Nacional dos Leiloeiros Rurais:

– Os poucos pecuaristas que têm mais de 5 mil cabeças de gado são conhecidos. Ninguém que gasta R$ 20 milhões, em dinheiro e à vista, fica no anonimato.

Dados do Sistema Nacional de Cadastro Rural apontam que as agências de publicidade DNA e SMPB são donas de dez grandes fazendas no interior da Bahia. Apenas duas tiveram endereços cadastrados para correspondência. Um dos endereços não foi encontrado. O outro fica na sede de uma agência de publicidade.

Prossegue a devassa: a DNA foi multada em R$ 63,2 milhões pela Receita Federal, em novembro de 2004, por movimentação financeira incompatível com a receita da empresa. A agência movimentou R$ 268 milhões naquele ano, considerados muito mais do que poderia ter faturado com serviços de publicidade. Suspeita-se de dinheiro de caixa 2. As agências de Valério detêm cinco importantes contas de publicidade no governo Lula: Banco do Brasil, Eletronorte, Correios e Ministérios do Trabalho e do Esporte.

A secretária Fernanda Karina depõe no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Faz novas revelações:

– Quando o senhor Marcos ia a Brasília, sempre no dia ou no dia anterior eram sacadas grandes quantias de dinheiro, pela Geyza ou pelos boys. Os boys falavam que tinha saque de R$ 1 milhão. O dinheiro era levado para o departamento financeiro da agência, onde a Simone e a Geyza dividiam os maços e colocavam nas malas.

– O senhor Marcos passava na empresa e pegava as malas para levar no avião fretado. Algumas vezes, a Simone diz que ficava em um hotel em Brasília, dentro de um quarto, o dia todo, contando dinheiro. E era um entra e sai de homem que ela ficava muito cansada. Ela só contava dinheiro e passava para essas pessoas.

A funcionária Geyza Dias dos Santos trabalha no departamento financeiro da SMPB com a gerente Simone Vasconcellos. Simone também usava os quartos do Hotel Grand Bittar, em Brasília, onde se hospedava, para repartir o dinheiro que seria entregue. Os boys são Marquinhos e Orlando, cujo trabalho era retirar o dinheiro no Banco Rural ou no Banco do Brasil, e levá-lo à agência.

Fernanda Karina entrega a agenda de trabalho ao Conselho de Ética. Traz as anotações do período em que foi secretária de Valério. Aponta quatro encontros do empresário com o responsável pelo segundo cargo mais importante da Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da República, o secretário-adjunto Marcus Vinicius di Flora. Há referências a Márcio Lacerda, secretário-executivo do ministro Ciro Gomes (PSB-CE). Lacerda ocupa o segundo cargo mais alto da hierarquia do Ministério da Integração Nacional. Outra anotação traz uma ordem de Valério. Era para deixar motorista à disposição de Delúbio Soares, sempre que ele estivesse em Belo Horizonte.

Apontamentos na agenda também registram encontros de Valério com os deputados José Mentor (PT-SP) e João Magno (PT-MG). Há uma ordem para a secretária presentear Marcus Vinicius di Flora e outro deputado, João Paulo Cunha (PT-SP), com canetas Mont Blanc. O nome do então tesoureiro nacional do PL, Jacinto Lamas, homem de confiança do presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP), aparece três vezes na agenda. E, por fim, outro representante do PT com quem Valério se encontrava com certa freqüência: o diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato.

As retiradas de dinheiro, segundo Fernanda Karina:

– Os saques eram feitos antes de reuniões do senhor Marcos com os senhores Delúbio e Silvio Pereira, marcadas por mim nos hotéis Blue Tree Tower em Brasília, e Sofitel em São Paulo. O senhor Marcos só dizia que era para os amigos de Brasília.

A assessora especial do ministério da Casa Civil, Sandra Rodrigues Cabral, admite ter se reunido com Marcos Valério no Palácio do Planalto. Fala em “três, quatro ou cinco vezes”, mas sempre para tratar do que seria uma candidatura a deputado do tesoureiro Delúbio Soares. Sandra dá entrevista na sede nacional do PT em São Paulo, depois de se reunir por uma hora com o presidente do partido, José Genoino, e com o próprio Delúbio.

– Não conversei concretamente com Marcos Valério nenhum assunto de governo.

Sandra não vê nada de errado em tratar a candidatura de Delúbio no Palácio do Planalto, sede do governo:

– O Planalto, no nosso governo, felizmente, é um palácio aberto. Não só à imprensa, como a qualquer outra pessoa que entra a qualquer hora. Meu gabinete é absolutamente aberto.

Após a entrevista, a assessora é afastada da Casa Civil.

A confusão entre público e privado parece não ter fim. Agora, são as duas revistas do cunhado do ministro Luiz Gushiken. Foram contempladas com publicidade oficial do governo. As desconhecidas Investidor Institucional e Investidor Individual, editadas pela também desconhecida Ponto de Vista Editorial, dobraram o faturamento graças à propaganda de empresas estatais.

As revistas de Luis Leonel, o cunhado, em 2002 já dispunham de anúncios de empresas estatais. Representavam 26% da publicidade das revistas. Em 2003, primeiro ano do mandato de Lula, com Gushiken no comando da Comunicação, a publicidade oficial passou a representar 47,3% do total de anúncios das revistas. Em 2004 o índice foi próximo: 45,5%.

Leonel nega-se a conversar com jornalistas. Renata, irmã de Gushiken, há dez anos é responsável pela parte administrativa. A irmã de Leonel, Elizabeth Leonel Ferreira, é casada com Gushiken. Tudo em família. Única declaração do cunhado:

– O parentesco não tem nada a ver com os anúncios.

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