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Cronologia da Crise:

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29/06/2005

Apesar da resistência da base aliada do governo Lula, o Senado instala a CPI dos Bingos. Na CPI dos Correios, os governistas trabalham contra a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Marcos Valério. Mas o esforço é em vão.

Vencidos, a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) e o deputado Maurício Rands (PT-PE) tentam impedir o depoimento de Valério na CPI. Vencidos mais uma vez, insistem na definição de uma pauta restrita, que limite o questionamento ao caso dos Correios. Não querem perguntas que vão além, muito menos indagações acerca de saques em dinheiro vivo e das amizades de Valério dentro do governo Lula e do PT.

Marcos Valério presta depoimento à Polícia Federal. Ao lado dele, três advogados para orientá-lo. Agora, Valério nega que usou dinheiro vivo para comprar gado, como havia declarado a Veja. Na nova versão, o dinheiro serviu para pagar fornecedores de suas empresas, comprar ativos e distribuir lucros entre os sócios. Sem maiores detalhes.

Depois da Polícia Federal, Valério presta esclarecimentos à comissão de sindicância da Câmara dos Deputados. Não informa quais os “ativos” nos quais teria aplicado o dinheiro sacado. Sobre a entrevista a Veja, teria sido só uma “brincadeira”.

Convidados pela segunda vez a depor na mesma comissão de sindicância, os petistas Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno não aparecem. Mais uma vez.

Vêm a público novos detalhes da agenda da ex-secretária de Marcos Valério, Fernanda Karina: em 3 de dezembro de 2003, dois dias antes de um encontro de Valério com o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, o empresário fez um saque de R$ 200 mil. Alguns dias depois, em 11 de dezembro, um novo encontro com Silvio Pereira. Na véspera, mais retirada, de R$ 120 mil.

Outra anotação, de outubro de 2003: mandar flores a Silvio Pereira. É um presente pelo nascimento da filha do secretário-geral. “Parabéns pela vinda de Luana. Que seja feliz”, diz o recado, ditado por Valério.

A Justiça de Londrina (PR) decreta a indisponibilidade dos bens do deputado José Janene (PP-PR) e de outras 19 pessoas e seis empresas. Todos são acusados de realizar licitações fraudulentas e simulações em cartas-convites, para lesar a Prefeitura e dilapidar o erário público. De acordo com o Ministério Público, empresários recebiam sem prestar serviços e, em troca, pagavam propina. Numa das ações, Janene é acusado de receber R$ 25 mil.

Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o líder do PTB, deputado José Múcio (PE), confirma ter participado de um jantar em março de 2005 na casa de Roberto Jefferson (PTB-RJ), em Brasília. Estavam presentes José Genoino, presidente do PT, e os tesoureiros do PT e do PTB, Delúbio Soares e Emerson Palmieri. O encontro serviu para Jefferson pedir mais R$ 4 milhões ao presidente do PT. Com o dinheiro, acertaria a segunda parcela dos R$ 20 milhões prometidos pelo partido de Lula ao PTB, para gastos supostamente efetuados na campanha eleitoral de 2004.

Múcio também confirma uma reunião anterior, realizada em junho de 2004, na sede do PT, em Brasília, com a presença de Jefferson, Palmieri, Genoino, Delúbio e o secretário de comunicação do PT, Marcelo Sereno, para fazer o acordo dos R$ 20 milhões.

Até o jantar de março, Múcio desconhecia que o PT já havia repassado R$ 4 milhões para o PTB. Palavras dele:

– Foi quando ouvi falar nos R$ 4 milhões e quando o Roberto pediu outros R$ 4 milhões para regularizar a situação, porque ele tinha ficado numa situação extremamente desconfortável no partido, por causa do acordo não cumprido dos R$ 20 milhões. Ele disse: “Com R$ 4 milhões resolvo o problema”.

Insinuação de Múcio: Jefferson teria ficado com R$ 4 milhões.

– Tenho quase certeza absoluta de que não chegou ao partido.

Prestam depoimento no Conselho de Ética, ainda, José Genoino e a deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO). Genoino admite conhecer Marcos Valério:

– Eu estive apenas algumas vezes com ele, na sede do PT, para cumprimentar, numa relação social, na medida em que ele tinha relação mais próxima com o companheiro Delúbio Soares.

Raquel relata que recebeu telefonema de Alon Feuerwerker, assessor do ministro Aldo Rebelo (PC do B-SP), nos dias seguintes à entrevista na qual Roberto Jefferson (PTB-RJ) revelou a existência do mensalão.

– Ele disse que o objetivo era tratar de uma emenda minha de R$ 1 milhão.

As finanças do PT. A Folha de S.Paulo publica reportagem de Cláudia Trevisan, com revelações importantes. O partido do presidente Lula emprestou R$ 3,6 milhões do Banco Rural, em 2003. Detalhe: o PT não tinha sequer conta no Banco Rural antes de Lula vencer as eleições, em 2002. Em dezembro de 2004, o valor do empréstimo já atingira R$ 5,1 milhões. Outro detalhe: quando o PT conseguiu o financiamento dos R$ 3,6 milhões, estava com um patrimônio líquido negativo de R$ 4,2 milhões. A situação não recomendava que uma instituição financeira concedesse crédito.

Além do Banco Rural, o banco BMG. A Folha revela, ainda, que o segundo banco, também com sede em Belo Horizonte, emprestou outros R$ 2,4 milhões ao PT, em 2003. A dívida junto ao BMG foi atualizada e chegou aos R$ 2,7 milhões em 2004. O Banco do Brasil, por sua vez, o único credor do PT em 2002, aumentou os financiamentos ao partido. Em 2002, foram R$ 705 mil. Em 2003, R$ 1 milhão. Em 2004, R$ 3,5 milhões. Ao mesmo tempo, o patrimônio líquido do PT alcançava os R$ 24,7 milhões, negativos.

Mais um líder da base aliada do governo Lula vira manchete de jornal. É o deputado Pedro Henry (PP-MT), acusado de ser um dos beneficiários do mensalão. O jornal O Estado de S. Paulo relata um plano arquitetado por ele para comprar candidaturas adversárias, em 2004, com a finalidade de favorecer o irmão, Ricardo Henry (PP-MT), candidato a prefeito de Cáceres (MT). A estratégia de Henry: pagar pela desistência de candidatos de outros partidos.

A denúncia foi feita por um ex-aliado, o ex-policial militar Altamiro Ramos da Cruz. Sua função era desarticular os adversários. Para isso, tinha autorização para subornar com quantias de R$ 3 mil a R$ 5 mil. Valores acima desse patamar deveriam ser negociados com outro assessor, Hamilton Gurjão Brito. Ou diretamente com os irmãos Henry.

O repórter Ricardo Brandt conseguiu confirmar a acusação do ex-policial Altamiro. Uma professora desempregada, Wilma Araújo (PFL), moradora da periferia de Cáceres, confessou ter desistido da candidatura a vereadora por R$ 3 mil. Palavras dela:

– Eu sei que errei. Mas vai ser melhor assim, pois quem erra tem que pagar as conseqüências e estou disposta a pagar.

Altamiro acabou frustrado pela demora do dinheiro:

– Quando chegou, fui atrás das pessoas com quem tinha conversado, mas ouvi muitos “não”. Só consegui negociar com dois candidatos e fechar com um.

Além de Wilma, Altamiro conseguiu a desistência de Milene Garcia Sversuth, outra candidata a vereadora do PFL. Ela acabou nomeada para um cargo na Prefeitura, depois que Ricardo Henry ganhou a eleição.

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