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Cronologia da Crise:

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30/06/2005

Roberto Jefferson no ataque. A Folha de S.Paulo publica novas acusações do presidente do PTB. Agora, um esquema de desvio de dinheiro engendrado na estatal Furnas Centrais Elétricas. A maracutaia envolveria o diretor de Engenharia da empresa, Dimas Toledo. Ele teria se reunido com Jefferson, na casa do deputado, em 13 de abril de 2005.

Jefferson diz à repórter Renata Lo Prete que “sobram” R$ 3 milhões por mês em Furnas. A operação teria sido relatada por Toledo. O dinheiro é dividido assim: R$ 1 milhão para o PT nacional, nas mãos do tesoureiro Delúbio Soares. R$ 1 milhão para o PT de Minas Gerais, levado ao partido pelo diretor de Administração de Furnas, Rodrigo Botelho Campos. O resto, dividido meio a meio: R$ 500 mil para a diretoria de Furnas, R$ 500 mil para alguns deputados que deixaram o PSDB rumo ao PTB.

Jefferson nomeiou três deputados desse grupo: Osmânio Pereira (MG), Salvador Zimbaldi (SP) e Luiz Piauhylino (PE), sendo que o último já se transferiu para o PDT. Coube ao grupo nomear o diretor de Finanças de Furnas, José Roberto Cesaroni Cury.

A história, confusa, vai até Lula. Jefferson explica: o PTB havia escolhido Francisco Pirandel para ser o diretor de Engenharia no lugar de Toledo. No loteamento do governo Lula, coube ao partido nomear o cargo ocupado por Toledo. Informado da “sobra” dos R$ 3 milhões por um Toledo que lutava para se manter no posto, Jefferson contou tudo ao ministro José Dirceu (PT-SP):

– Tudo o que o Dimas me explicou eu relatei depois ao Zé Dirceu. Ele confirmou que era isso mesmo. Percebi claramente que o Zé Dirceu estava jogando contra a nomeação do Pirandel.

A proposta de Dirceu, sempre segundo Jefferson:

– “Roberto, vamos resolver esse negócio por cima. Deixa o Dimas lá. A gente faz um acerto direto entre o PT e o PTB”.

Jefferson aceitou. Em 26 de abril, no Palácio do Planalto, o último encontro de Jefferson com o presidente. Lula foi logo cobrando, não estava satisfeito com a situação em Furnas:

– “Roberto, por que está demorando tanto?”

Jefferson responde que estava sofrendo pressões, mas sem dar detalhes. E diz aceitar uma “solução de compromisso”. Lula não quer:

– Nada disso. O Dimas vai sair.

Pouco mais de duas semanas depois, Veja publica a gravação em que Jefferson aparece como o chefe da corrupção nos Correios. Veio a crise do mensalão e a ministra Dilma Rousseff, então das Minas e Energia, manda suspender qualquer operação. Toledo fica.

Ante a matéria da Folha, com as denúncias de Jefferson, o Palácio do Planalto exonera todos os diretores de Furnas mencionados por Jefferson. Para diminuir o desgaste, uma nota da estatal pontua que os afastados “solicitaram licenças de seus cargos, até que as apurações necessárias estejam concluídas”. Caem Toledo, com 35 anos de Furnas, José Roberto Cesaroni Cury e Rodrigo Botelho Campos, ex-vice-presidente da CUT, indicado do PT.

Em mais uma sessão tumultuada, Jefferson presta depoimento à CPI dos Correios. Admite que pediu dinheiro ao então diretor de Administração dos Correios, Antônio Osório:

– Eu pedi a ele que, se possível, na relação com qualquer empresário privado, ele pudesse no final ajudar o caixa oficial do partido.

Jefferson também chama a si a responsabilidade sobre os R$ 4 milhões que, segundo ele, foram repassados ao PTB pelo PT. Recusa-se a dar nomes de supostos beneficiários do dinheiro.

– Não admito que o partido pegou, morre comigo a informação. Não vou prejudicar inocentes, recebo na pessoa física, por omissão do presidente do PT e erro meu.

O foco do depoimento, o pagamento de mensalões:

– Na raiz do mensalão está o troca-troca de partido. Até luvas de R$ 1 milhão e financiamento de R$ 30 mil de taxa de manutenção nós já temos.

– O senhor Marcos Valério, versão moderna e macaqueada do senhor PC Farias, sacava R$ 1 milhão por dia nas contas do Banco Rural. Ou sacava em Minas Gerais ou no prédio do banco no Brasília Shopping, no nono andar, onde muitos assessores dos que recebem mensalão, que estão registrados na portaria, subiam até o escritório do banco para receber R$ 30 mil, R$ 40 mil, às vezes R$ 20 mil ou até R$ 60 mil.

– Tem que procurar no Banco do Brasil também, porque recordo que, dos recursos que recebi do PT, 60% eram notas etiquetadas do Banco do Brasil.

Jefferson chuta o pau da barraca:

– Não há, povo do Brasil, cidadãos do Brasil, eleição de deputado federal que custe menos de R$ 1 milhão ou de R$ 1,5 milhão. Mas a média, aqui na CPI e na Câmara, na prestação de contas, é de R$ 100 mil. Não há eleição de senador que custe menos que R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões, mas a prestação de contas, na média, é R$ 250 mil. Esse processo começa na mentira e deságua no PC Farias, nos outros tesoureiros e, agora, no senhor Delúbio e no senhor Valério.

– É de deixar a gente perplexa. Ou alguém tem dúvida que a campanha mais rica de 2002 foi a campanha do PT? A mais milionária, a mais poderosa de todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí? E as declarações da Justiça Eleitoral não traduzem a realidade. Nem a minha, porque é igual à dos senhores.

– Participei no passado de uma CPI, a CPI do PC, como advogado. Tentei fazer naquela CPI o que vi ontem aqui por parte de alguns políticos: impedir que as investigações avançassem. Procurei evitar que os fantasmas do PC Farias pudessem viver à luz do dia. E, nessa inversão de papéis, vi que muitos que ontem exorcizavam tais fantasmas agora estão caçando eles. Só que não são mais os fantasmas de PC. São os fantasmas do Delúbio e do Marcos Valério.

PC Farias é pinto perto do que se vê de corrupção no PT.

O deputado Henrique Fontana (PT-RS) acusa Jefferson de ter servido “ao mais corrupto governo da história do Brasil, o de Fernando Collor”. Diz Jefferson:

– Servi também ao de vossa excelência!

E vai em frente:

– Não tente empurrar nada para o PTB. No Rio Grande do Sul, o governo do PT viveu o escândalo do apoio dos bicheiros e tentou jogar tudo para debaixo do tapete. Bicheiros e Waldomiro Diniz são coisas do PT.

– O PT, que fez da ética e da moralidade a sua bandeira, rasgou agora a bandeira. A mim isso não traz felicidade. Chafurdou, se sujou como os outros no passado, nos quais atirou pedra. E para que isso não se repita temos de enfrentar a raiz do financiamento eleitoral. Esses fantasmas que ficam rondando o poder, Delúbio, PC Farias, Valério, é sempre a mesma prática.

– Não vim aqui mendigar em favor do meu mandato. Já passei dele. Não vim perorar pelo deputado, absolutamente. Enfrento uma luta aqui como cidadão, como homem, como chefe de família. Saio do Congresso da maneira que entrei, pela porta da frente. Ninguém vai me colocar de joelhos e com o rabo entre as pernas. Ninguém vai me acanalhar. Não faço papel do herói, porque não sou melhor que os senhores, sou igual. Não faço papel de vilão porque não sou, porque os senhores e senhoras não são melhores do que eu.

Já no final do depoimento, mais uma denúncia: Marcos Valério, em reunião intermediada pelo tesoureiro Delúbio Soares, ofereceu um negócio que renderia R$ 100 milhões ao PT e ao PTB. Uma operação no coração do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). Jefferson tinha de convencer o presidente do IRB, Luiz Appolônio Neto, a fazer uma transferência de US$ 600 milhões de aplicações do IRB. Appolônio Neto fazia parte do círculo de influência de Jefferson. A comissão do negócio, os tais R$ 100 milhões:

– O Marcos Valério pediu que eu influenciasse na operação de transferência de US$ 600 milhões de uma conta que o IRB tem no exterior, não sei se na Inglaterra ou na Suíça, para o Banco Espírito Santo, em Portugal.

A proposta de Valério foi feita em abril de 2005, na sede do PTB, em Brasília. O Banco Espírito Santo teria interesses no Brasil. Jefferson conta que, em seguida, telefonou para José Genoino, o presidente do PT. Contou-lhe o que ouviu. Disse:

– “Zé, esse cara é doido, ele acha que chove dinheiro, que dinheiro dá em árvore.”

Resposta de Genoino:

– Fica tranqüilo, que ele resolve.

A transação acabou não se realizando.

O gerente responsável pelo Banco Rural em Brasília, Lucas Silva Roque, confirma declarações de Jefferson. Valério movimentou mesmo dinheiro na agência do Brasília Shopping:

– As pessoas que negociavam com ele freqüentavam a agência, mas tudo que ocorreu aqui foi na maior normalidade e em conformidade com as regras do Banco Central.

Nos registros da portaria, os nomes de Valério, de seu sócio e advogado Rogério Tolentino, de João Cláudio de Carvalho Genu, chefe de gabinete do deputado José Janene (PP-PR), e de Eujaci Moreira Santos, assessor do deputado João Leão (PL-BA).

O presidente do Sindicato dos Reflorestadores do Pará, Mário Rubens de Sousa Rodrigues, acusa Maria Joana de Rocha Pessoa, assessora da senadora Ana Júlia Carepa (PT-PA). Ela teria arrecadado até R$ 2 milhões por meio de caixa 2. O dinheiro irrigou a campanha da senadora à Prefeitura de Belém.

A denúncia: o gerente executivo do Ibama (Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Belém, Marcílio de Abreu Monteiro, ex-marido da senadora, cobrou propina de madeireiros, em troca de uma permissão para retirar madeira da floresta amazônica. A proposta não foi cumprida. Ana Júlia estaria ameaçada de morte.

O TCU (Tribunal de Contas da União) e a CGU (Controladoria-Geral da União) contestam a liberação de R$ 760 mil da Petrobrás, Correios e Caixa Econômica Federal, para a festa de 20 anos da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT). O evento ocorreu em 2003. A notícia, do jornal O Estado de S. Paulo.

O relatório da CGU lista “impropriedades” nos contratos firmados pela Petrobrás. A estatal bancou R$ 580 mil da festa. Para os auditores, houve “ausência de análise prévia de custo-benefício da contratação”. O patrocínio foge do objeto social da Petrobrás.

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