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Cronologia da Crise:

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14/07/2005

O Jornal Nacional, da TV Globo, noticia que assessores e até familiares de deputados do PT estiveram no Banco Rural, na agência do Brasília Shopping, local de pagamento do mensalão. Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do líder do PT na Câmara, deputado Paulo Rocha (PA), foi à agência duas vezes. Reação do deputado Rocha: a funcionária foi fazer consulta médica em uma clínica neurológica, que também funciona no prédio.

Márcia Milanésio Cunha, casada com o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), esteve no Banco Rural três vezes. Reação de Cunha, divulgada em nota: a mulher esteve na agência para resolver um problema relativo ao pagamento de uma conta de televisão a cabo.

O presidente do PT na Bahia, deputado Josias Gomes, foi pessoalmente ao Banco Rural. Explicação dele:

– Como havia almoçado no shopping, fui ao banco pedir uma informação. Não fiz saques.

Os três mentiram.

Azeda de vez o caso do assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), o irmão de José Genoino, preso com R$ 200 mil numa maleta e US$ 100 mil na cueca. A matéria vai ao ar pelo Jornal Nacional, da TV Globo. Kennedy Moura, o petista afastado do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) em razão do escândalo, não gostou de ser envolvido na história por Guimarães. Não engoliu a versão do dinheiro para a locadora de carros no interior do Ceará. A entrevista ao JN:

– Não sei que rancores fizeram com que o deputado me fizesse uma vinculação a uma empresa que nunca ouvi falar.

Moura vai além. Relata a conversa com Guimarães, padrinho de seu casamento, quando ele lhe pediu para assumir que era o dono do dinheiro, uma “proposta indecente”:

– Ele falou que o Adalberto tinha que ser protegido por questões de Estado.

Moura também descreve o diálogo com Guimarães, quando contou a prisão de José Adalberto Vieira da Silva:

– Perguntou se ele tinha falado alguma coisa. Disse que não sabia. Ele disse: “Graças a Deus”.

Outra contradição: José Vicente Ferreira, o outro assessor de Guimarães também apontado como participante do negócio da locadora, havia dado entrevista ao jornal O Povo, do Ceará. Disse que emprestou um cheque a Vieira da Silva, seu amigo, para que pudesse comprar uma passagem aérea ao Recife. Ferreira não sabia da viagem a São Paulo. Muito menos de locadora.

O Ministério Público investiga a hipótese de Vieira da Silva ter sido um emissário de Moura em São Paulo. A finalidade da viagem, buscar dinheiro de propina repassado por empresários que mantêm negócios com o BNB. No dia anterior à prisão, Vieira da Silva teria se deslocado até o escritório de José de Freitas, empresário do setor de construção civil e diretor do Grupo Cavan.

A outra linha de investigação do Ministério Público, mais apimentada: Vieira da Silva seria uma das “mulas” usadas para transportar R$ 20 milhões guardados no cofre do PT em São Paulo. Com o escândalo do mensalão, o dinheiro estaria sendo desovado para gente de confiança, numa operação coordenada pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares.

A polícia de Minas Gerais apreende 2 mil notas fiscais da DNA Propaganda. Os documentos estavam em 12 caixas de papelão, na casa do ex-policial Marco Túlio Prata, em Contagem (MG). Ele é irmão do contador da agência, Marco Aurélio Prata. Na casa são localizados dois tambores de lata, com notas carbonizadas.

Entre as notas fiscais queimadas, provavelmente documentos frios, a polícia encontra recibos da DNA, atestando supostos serviços de empresas terceirizadas, prestados ao Banco do Brasil, Eletrobrás e Ministérios do Trabalho e do Esporte.

Policiais também encontram documentos carbonizados, onde ainda se consegue ler o nome da DNA. Estavam numa rua de terra, sem movimento, bem perto da casa do irmão do contador de Marcos Valério. A papelada queimada encheu cinco sacos.

Cai o diretor de marketing e comunicação do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Ligado ao ex-ministro Luiz Gushiken, morou com ele num mesmo apartamento em Brasília. Na campanha de Lula, Pizzolato, militante do PT há 20 anos, trabalhou com Delúbio Soares para captar recursos.

Ele mantinha relações próximas com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e é amigo de Ricardo Berzoini (PT-SP), o ex-ministro do Trabalho que virou secretário-geral do PT. Pizzolato é desligado da presidência do conselho deliberativo da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil.

No governo Lula, ocupou o posto estratégico de responsável pelos gastos de propaganda do Banco do Brasil. Foram R$ 153 milhões em 2003, R$ 262 milhões em 2004. Afastado Pizzolato, o Banco do Brasil rescinde a conta de publicidade com a DNA de Marcos Valério. Pizzolato também era amigo de Valério.

O ex-diretor de marketing ficou conhecido pelo envolvimento no episódio dos R$ 70 mil que o Banco do Brasil deu a um show de arrecadação de fundos, com objetivo de comprar uma sede nova para o PT. Com a divulgação da história, o dinheiro teve de ser devolvido. Ele também foi responsável por um evento artístico suspeito do governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, que consumiu R$ 2,5 milhões.

Em entrevista à Rádio Bandeirantes, em Porto Alegre, o presidente do PT do Rio Grande do Sul, David Stival, admite: o PT gaúcho tem recorrido ao uso de caixa 2 nas disputas eleitorais, e a arrecadação de recursos para as campanhas não vem sendo declarada à Justiça Eleitoral. As contribuições chegam em dinheiro, mas não há uma emissão de recibos correspondente. Diz Stival:

– Se for para provar qualquer coisa, não provo nem sob tortura. Não há prova, isso é feito ‘pf’ (por fora) mesmo.

A base governista impede que a CPI dos Correios quebre os sigilos bancário, fiscal e telefônico de José Dirceu (PT-SP), José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira e Mauro Dutra, o empresário amigo de Lula. O Palácio do Planalto também consegue bloquear a convocação de Luiz Gushiken para depor na comissão.

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