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Cronologia da Crise:

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15/07/2005

Uma operação orquestrada. Marcos Valério vem a público e, por meio de nota, nega mais uma vez a existência do mensalão e explica que, “em atenção a pedidos de Delúbio Soares”, “contraiu vários empréstimos bancários em nome das agências de publicidade SMPB e DNA, no período de 2003 a 2005”.

A nota, uma estratégia de defesa, diz que o dinheiro, “a título de empréstimos”, foi depositado “na rede bancária para pessoas indicadas pelo então secretário de Finanças do PT, senhor Delúbio Soares”. Em seguida, o empresário menciona que o dinheiro, segundo Delúbio, servia para “saldar dívidas relacionadas a campanhas eleitorais”.

O reconhecimento de que Valério participou de um esquema para financiar o PT é manchete dos principais jornais do país. Poucos se dão conta da manobra: desviar as investigações do pagamento de propina. Em vez do mensalão, ou seja, do dinheiro entregue a parlamentares da base aliada do governo, um crime grave de corrupção, a estratégia é fazer crer que o dinheiro foi repassado para pagar dívidas de campanha. Um simples crime eleitoral.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Valério não fornece nomes, valores, número de operações bancárias, nem formas de ressarcimento do que teria sido emprestado ao PT. Nega a existência de malas para pagamento de grandes somas e de favorecimentos às suas empresas por parte de funcionários do governo.

A Folha de S.Paulo publica detalhes de alguns depoimentos secretos prestados à Corregedoria da Câmara dos Deputados. A reportagem conseguiu ler transcrições em notas taquigráficas. Num deles, José Genoino admite que Silvio Pereira usava mesmo uma sala do Ministério da Casa Civil, no Palácio do Planalto, para discutir a divisão de cargos federais entre os partidos da base aliada. Declaração de Genoino:

– Ele conversava com os demais partidos e era o encarregado quando tinha conflitos. E tinha muitos conflitos com os partidos da base aliada. Ele fazia isso ou na sede do PT ou na liderança. Ou então na sala de reuniões ordinárias da Casa Civil.

Outro depoimento, de Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, afirma que Marcos Valério foi designado pelo PT para obter de empresários R$ 20 milhões que seriam repassados ao PTB, nas eleições de 2004. O acerto foi feito em reuniões das quais participaram Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcelo Sereno, Roberto Jefferson (PTB-RJ) e ele próprio, Palmieri.

O tesoureiro também contou detalhes dos R$ 4 milhões entregues por Valério. Foram dois pagamentos. O dinheiro chegou em duas malas “de rodinhas”, em notas de R$ 50, na maioria, e umas “poucas notas de R$ 100”.

O jornal Correio Braziliense traz a história do apartamento de Henrique Pizzolato. O diretor de marketing, afastado do Banco do Brasil, comprou um imóvel de 160 metros quadrados, por R$ 400 mil, num dos endereços mais valorizados do Rio de Janeiro, a uma quadra da praia de Copacabana.

Detalhe: na manhã desse mesmo dia, um grupo de auditores da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, tomou o depoimento do mensageiro Luiz Eduardo Ferreira da Silva. Ele conta que em 15 de janeiro de 2004, cerca de um mês antes da compra do apartamento em Copacabana, sacou R$ 326 mil de uma conta da DNA Propaganda, numa agência do Banco Rural localizada no centro do Rio. Ele levou o pacote de dinheiro para Pizzolato.

O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), desabafa durante uma entrevista em Curitiba:

– Nunca imaginei que houvesse algo nesse sentido no país, independentemente de governo. Não significa que não possa ter existido em outros governos, mas na minha ótica pensei que, apesar de tudo o que se diz, nosso país não tivesse tantos tropeços no entrelaçamento entre a administração, políticos e empresas.

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