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Cronologia da Crise:

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17/07/2005

A oposição vai para cima. Acusa o governo de engendrar uma nova Operação Uruguai, em alusão ao esquema simulado pelos aliados do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, para explicar a origem do dinheiro que financiava gastos do ex-presidente. Na época, um empréstimo de US$ 3,7 milhões foi forjado para justificar despesas de Collor. O presidente acabou afastado do cargo, depois de um processo de impeachment. Agora, a farsa contábil é a série de operações de crédito de Marcos Valério. Serviria para esquentar dinheiro de caixa 2 oriundo de fontes ilegais, usado para fazer acertos com políticos da base aliada.

Um perfil de Marcelo Sereno, ex-secretário de Comunicação do PT e ex-chefe de gabinete de José Dirceu (PT-SP), de quem também foi assessor especial, é publicado pela Folha de S.Paulo. Para ilustrar a reportagem, a fotografia de um prédio de alto padrão na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em cuja cobertura mora Sereno. É atribuída a ele, ainda, a compra, em março de 2005, de um outro apartamento no Rio, no valor de R$ 700 mil.

Sereno é acusado de “manipular” o Nucleos, fundo de pensão das estatais de energia nuclear. O objetivo, levar dinheiro para as campanhas eleitorais do PT. Os repórteres Elvira Lobato e Leonardo Souza ouvem o petista Neildo de Souza Jorge, integrante do conselho deliberativo do Nucleos. Ele denuncia operações financeiras supostamente lesivas aos fundos de pensão:

– A grande mutreta é que eles compravam títulos públicos e depois vendiam com deságio para corretoras. Estas faturavam a corretagem e parte desse dinheiro, pelo que sabemos agora, iria para mensalões, caixas de campanha. A maior rombeira era isso.

O jornal O Estado de S. Paulo traz uma lista com os nomes de 22 deputados do PP. Testemunha cuja identidade vem sendo mantida em segredo aponta-os como destinatários de mensalões, distribuídos a mando do líder do partido, deputado José Janene (PR).

Os operadores do esquema seriam João Cláudio Carvalho Genu, chefe de gabinete de Janene, e o deputado João Pizzolatti (PP-SC). Os locais de entrega da propina: o apartamento de Janene, em Brasília, e uma sala da comissão de Minas e Energia, dentro da Câmara dos Deputados. Segundo a denúncia, Pizzolatti circulava com o dinheiro dentro de malas, nos corredores da Câmara, protegido por funcionários da área de segurança.

A CPI dos Correios compromete-se a investigar as atividades de Paulo Roberto Costa, apadrinhado do PP e diretor de Abastecimento da Petrobrás. A testemunha sigilosa o acusa de exercer papel importante na irrigação financeira do esquema.

Em surpreendente entrevista concedida na França e exibida no programa Fantástico, da Rede Globo, Lula faz coro às recentes versões sobre a crise política, que foram manifestadas por Delúbio Soares e Marcos Valério. Assim, fecha a manobra que procura convencer a sociedade brasileira: houve “erros”, sim, mas apenas decorrentes de empréstimos e operações de crédito, usados para pagar dívidas de campanha, por meio de caixa 2. A versão oficial insiste em minimizar tudo à manipulação de verbas não-declaradas.

Lula contribui para reduzir o problema. Exime-se de qualquer ato indevido, pois “já faz tempo que eu deixei de ser presidente do PT”. Para ele, “o PT tem que explicar à sociedade brasileira que erros cometeu”:

– O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil, sistematicamente. Eu acho que as pessoas não pensaram direito no que estavam fazendo, porque o PT tem na ética uma das suas marcas mais extraordinárias. E não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção.

O jornal O Estado de S. Paulo comenta as declarações do presidente no editorial “Lula endossa a farsa”. Para o jornal, o presidente está associado a uma “armação”. Concedeu uma entrevista na qual “tinha absoluto controle” das perguntas, para se dirigir aos brasileiros. Conclusão do editorial:

“A hipótese mais plausível é a de que ele aceitou ser ‘poupado dos detalhes’. Se um governante precisa se esforçar para saber o que os seus colaboradores não querem que saiba, que dirá então quando dá a impressão de que não quer saber. No caso de Lula, a única dúvida é se agiu assim para se proteger ou por autêntico desinteresse em conhecer como funcionam as coisas no seu governo.”

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