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Cronologia da Crise:

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18/07/2005

O Brasil debate o caixa 2. É crime de falsidade ideológica prestar informações fraudulentas sobre a arrecadação de dinheiro para campanhas políticas, sem declarar o dinheiro à Justiça Eleitoral. Omitir receitas também é crime de sonegação fiscal. Para a legislação de crimes contra o sistema financeiro nacional, é fraude movimentar recursos de forma paralela, à margem da contabilidade legal. O caixa 2 também é crime contra a ordem tributária.

Na prática, porém, o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais não recebe punição. No máximo, multa. Ninguém é preso por crime eleitoral. Muito mais grave é dar propina a parlamentares. Neste caso, o crime de corrupção pode condenar a 12 anos de prisão, fora processos e outras penas, caso seja constatada formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. E isso sem mencionar a perda de mandato, por crime de responsabilidade ou falta de decoro parlamentar.

Por isso o esforço para descaracterizar a existência de um esquema de pagamento de mensalões. Ao circunscrever tudo ao rol de crimes eleitorais, os delitos poderão ser diluídos para um número grande de receptores, se possível anônimos, o que, afinal, dificultará a comprovação e a responsabilização dos culpados.

Prossegue o imbróglio de milhões de reais. A promiscuidade entre público e privado, as informações desencontradas, as incongruências envolvendo os supostos empréstimos de Marcos Valério ao PT. Da mesma forma, o Brasil debate o uso suspeito do dinheiro do “valerioduto”, pelo partido do presidente da República. Os números contraditórios sobre as dívidas do PT. Uma lambança.

As notícias ocupam páginas e páginas dos jornais, país afora: o Banco do Brasil teria dispensado a apresentação de garantias e avalistas nos empréstimos concedidos ao PT. Escândalo. R$ 15,9 milhões de operações de crédito do BMG destinados ao PT tiveram como garantia o contrato de publicidade da SMPB de Valério com os Correios. Ou seja, um suporte do próprio governo do PT. Escândalo. Um outro empréstimo do BMG, cujo destino final também teria sido os cofres do PT, no valor de R$ 12 milhões, teve como garantia o contrato de publicidade da DNA de Valério com a Eletrobrás. Escândalo. Suspeita-se de uma série de “contratos de boca”, entre Valério e a cúpula do PT. Escândalo.

Cai o presidente da Petrobrás, o ex-senador José Eduardo Dutra (PT-SE). Em seu lugar assume José Sérgio Gabrielli, filiado ao PT. Justificativa do governo para o afastamento: Dutra vai disputar uma vaga no Senado em 2006. Faltam 15 meses para o pleito. Pela legislação, a desincompatibilização precisa ocorrer seis meses antes da eleição. História mal contada.

Outras mudanças no governo: Antônio Batista Brito, diretor Comercial da Brasil Veículos, e Josenilton Andrade, do Centro Cultural Banco do Brasil, são afastados do Banco do Brasil. Motivo: reportagem do Correio Brazilense envolveu os dois num episódio dentro do apartamento de Henrique Pizzolato, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil. Os dois altos funcionários, mais Pizzolato, teriam pressionado o mensageiro Luiz Eduardo Ferreira da Silva a assumir a responsabilidade pelo saque de R$ 326 mil, o mesmo que ajudou a derrubar Pizzolato. O dinheiro foi retirado no Banco Rural, da conta bancária da DNA de Marcos Valério, e entregue a Pizzolato. O mensageiro resistiu.

Em entrevista à Rádio Jovem Pan, de São Paulo, o respeitado senador Pedro Simon (PMDB-RS) comenta as acusações do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Para ele, o escândalo do mensalão vem sendo comprovado por fatos novos, todos os dias. O esquema de corrupção que circunda o governo Lula e o PT é mais grave do que aquele que vitimou o ex-presidente Fernando Collor:

– A coisa lá, a Operação Uruguai e tudo mais, foi bem inferior. Lá eles usaram dinheiro das empresas, fizeram garantias, só que isso aconteceu com eles fora do governo. Agora, o partido está dentro do governo, e foram usadas empresas públicas como o Correio e Furnas, para fazer transações ilícitas. Favoreceram essas empresas em troca do dinheiro dado ao partido. O nome disso é peculato, é formação de quadrilha.

Roberto Busato, presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil):

– Valério e Delúbio são personagens menores, nessa comédia infame que estarrece a nação. Valem menos pelo que são e mais pelos personagens que buscam inutilmente ocultar e aos quais serviram, com ações criminosas nos subterrâneos da política.

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