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Cronologia da Crise:

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19/07/2005

Provas do mensalão. Deputados fizeram saques de dinheiro em contas das empresas de Marcos Valério, em agências do Banco Rural em Belo Horizonte e Brasília. Documentos em poder da CPI dos Correios mostram autorizações para retiradas, beneficiando três deputados do PT, um do PP e um do PL.

Márcia Milanésio Cunha, mulher do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), fez um saque de R$ 50 mil. Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do deputado Paulo Rocha (PT-PA), então líder do PT na Câmara, outro de R$ 470 mil. O deputado Josias Gomes (PT-BA), por sua vez, sacou duas vezes. Ele próprio, em pessoa. R$ 50 mil de cada vez. João Cláudio Carvalho Genu, o chefe de gabinete de José Janene (PR), líder do PP, retirou R$ 1,1 milhão. Em nome do deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), saíram R$ 150 mil.

Simone Vasconcelos, a principal operadora de Valério e autora dos pagamentos do mensalão, fez retiradas de R$ 6,1 milhões. Outubro de 2003, Brasília, coisa de cinema: Simone efetuou dois saques, um de R$ 800 mil e outro de R$ 650 mil. O dinheiro foi entregue em carro-forte no escritório da SMPB na capital federal.

Tem mais: Jacinto Lamas, tesoureiro do PL, retirou R$ 1,3 milhão. As seguintes pessoas também: Vilmar Lacerda, presidente do PT no Distrito Federal, R$ 100 mil. Raimundo Ferreira da Silva Júnior, assessor do deputado Paulo Delgado (PT-MG), R$ 100 mil. Roberto Costa Pinho, ex-assessor, tem currículo extenso: trabalhou para os ministros da Cultura e da Fazenda, Gilberto Gil e Antônio Palocci (PT-SP), e para o senador Delcídio Amaral (PT-MS), o presidente da CPI dos Correios. Sacou R$ 350 mil. José Luiz Alves, secretário de Governo da Prefeitura de Uberaba (MG), pegou R$ 150 mil. O prefeito de lá, Anderson Adauto (PL), foi ministro dos Transportes de Lula. E Solange Pereira de Oliveira, funcionária da tesouraria do PT de São Paulo, recebeu R$ 100 mil.

Brasília vive um corre-corre. João Paulo Cunha (PT-SP) não comenta. Sai-se com um “tudo tem explicação”. O deputado Professor Luizinho (PT-SP) defende Cunha:

– A informação que tenho, do próprio João Paulo, é de que a Márcia esteve no Rural para resolver problema da televisão a cabo.

O ex-ministro Anderson Adauto não foge da briga. Delúbio, o tesoureiro do PT, o ajudou a pagar uma dívida de campanha:

– Encerrei 2002, quando me elegi deputado federal, com uma dívida de campanha. Então, pedi para o Delúbio e ele me ajudou. Não sei precisar a quantia, mas foi entre R$ 100 mil e R$ 150 mil.

Foram R$ 150 mil, e Adauto era o ministro dos Transportes:

– Não vejo nenhuma irregularidade em ser ajudado para pagar dívidas de campanha.

Nas fileiras do PT, algumas explicações: Wilmar Lacerda recebeu dinheiro para pagar dívidas de campanha. Solange Pereira de Oliveira, do diretório paulista, não quer comentar. E Raimundo Ferreira da Silva Júnior, que também é vice-presidente do PT do Distrito Federal, cumpriu ordens de Delúbio. Buscou o envelope, mas não sabia quanto tinha dentro:

– O Delúbio me ligou de São Paulo e pediu para que eu fosse até a agencia do Rural, onde deveria pegar um dinheiro que ele estava precisando para umas despesas. Ele me disse que precisava de alguém de confiança para buscar o pacote. Como sou amigo dele, nada mais natural.

O escândalo do jipe Land Rover. Silvio Pereira está na CPI dos Correios, com habeas-corpus para não ser preso. Não precisa responder, se não quiser. Pode evitar perguntas, e mesmo cair em contradição. Não sairá algemado. Show de cinismo. O ex-secretário-geral do PT nunca ouviu falar em mensalão. Não tem idéia sobre empréstimos de Marcos Valério ao PT.

O que fez Silvinho? Apenas um banco de dados, com mais de 5 mil nomes de pessoas, prontas para assumir postos no governo Lula. Gentilmente, informa aos integrantes da CPI: existem 1.400 cargos ocupados por filiados do PT, na administração federal.

Pressionado, Silvinho não se lembra se viajou no avião de César Roberto Santos Oliveira, alto executivo da empresa GDK, uma prestadora de serviços da Petrobrás.

– Eu mantinha contatos institucionais com César Oliveira, mas repito que não intermediei interesses da empresa.

Silvinho cala-se. Recusa-se a dizer se ganhou um jipe Land Rover de Oliveira:

– Não falo sobre meu patrimônio, por orientação dos advogados.

Tarde demais. O Jornal Nacional, da TV Globo, localiza o vendedor do jipe. O carro está em nome de Silvio Pereira. Um telefonema para o homem que fez o depósito, de R$ 73,5 mil. Ele é funcionário da GDK, e confirma tudo. O Brasil fica sabendo. Assessores do PT reconhecem o negócio, mas insistem: não houve irregularidades. Diz Silvio Pereira:

– Todas as informações estão no meu Imposto de Renda e poderão ser analisadas pela CPI.

Cai Marco Antônio Silva, o diretor de eventos da Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da República, um dos mais importantes auxiliares do ex-ministro Luiz Gushiken. Militante do PT, foi acusado de favorecimento ilícito e tráfico de influência. É casado com Telma dos Reis Menezes da Silva, funcionária da Multi Action, a empresa de organização de eventos de Marcos Valério. Em um ano de governo Lula, a Multi Action movimentou R$ 28 milhões.

Marco Antônio Silva integrou a comissão julgadora da licitação que escolheu a agência de publicidade contratada pelos Correios. Venceu a SMPB de Valério. Contratada a SMPB, a Multi Action foi chamada para prestar serviços aos Correios.

Em depoimento à CPI dos Bingos, José Vicente Brizola acusa o PT gaúcho: o partido fez caixa 2 para a campanha eleitoral de 2002. Ele foi procurado por Carlos Fernandes, filho da candidata a senadora Emília Fernandes (PT-RS). Carlos Fernandes queria uma intermediação para pedir contribuições de campanha a empresários de jogo. Na época, Brizola, filho do ex-governador Leonel Brizola, presidia a Lotergs (Loteria do Rio Grande do Sul):

– Fui procurado pelo filho da senadora e por ela. Eles me propuseram que angariasse recursos para a campanha majoritária, com concessionárias e outros operadores, legais e ilegais.

Derrotada nas urnas, Emília Fernandes ocupou por um ano a secretaria especial da Mulher, no governo Lula.

O Campo Majoritário, corrente petista liderada por José Dirceu (PT-SP), obtém vitória em reunião da executiva nacional do partido, a mais alta instância partidária: por 18 votos a 7 fica rejeitada a suspensão das atividades partidárias do ex-tesoureiro Delúbio Soares, por 60 dias.

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