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Cronologia da Crise:

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20/07/2005

Mais provas do mensalão. Chega ao Conselho de Ética da Câmara o teor de um depoimento prestado à Polícia Federal. É de Simone Vasconcelos, a diretora administrativa e financeira da SMPB, a agência de publicidade de Marcos Valério.

A confissão de Simone choca. Sozinha, sacou R$ 6,1 milhões de contas de Valério no Banco Rural. Os números foram apurados pela CPI dos Correios e são irrefutáveis. Simone entregou pacotes de dinheiro a desconhecidos. Ela pagava o mensalão. Era gente que a procurava na agência do Rural em Brasília, a mando de Valério. Todos pegavam os pacotes, sem conferir, e punham o conteúdo em pastas executivas.

Simone não tem a mínima idéia do destino do dinheiro, mas confessa: sentia-se “constrangida e preocupada de estar sendo identificada por desconhecidos”, e também por estar “entregando altas somas de dinheiro para estes, sem ao menos saber quem eram”.

Numa ocasião, Valério queria saber a cor da blusa de Simone, “para que fosse identificada pelo estranho que deveria receber o dinheiro”. Os valores variavam de R$ 50 mil a R$ 300 mil, sendo que, em algumas ocasiões, teve de levar altas somas até as mãos de Valério, em hotéis de luxo. Uma vez, levou o dinheiro até um táxi, que a esperava na frente de um centro de compras em Brasília.

Novas pessoas, novos saques. A CPI dos Correios usa os dados da quebra do sigilo bancário de Marcos Valério para identificar o caminho do dinheiro. Surge Zilmar Fernandes da Silveira, a sócia do publicitário Duda Mendonça. Foi identificada uma retirada de Zilmar de R$ 250 mil. Duda é ligado ao presidente Lula e responsável pela campanha eleitoral de 2002, que o elegeu. Além de orientar ações do presidente, administra os contratos de publicidade da Petrobrás, Ministério da Saúde e Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da República.

Rodrigo Barroso Fernandes, assessor do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), sacou R$ 274 mil. Com a notícia, é desligado da Prefeitura. E começa a novela de um tal Roberto Marques, o amigo de José Dirceu (PT-SP) que fugiu feito o diabo da cruz, de uma retirada de R$ 50 mil.

Outros nomes: Paulo Menegucci, diretor dos Correios. Recebeu R$ 205 mil. Jair dos Santos, motorista do presidente do PTB, Flávio Martinez. Sacou R$ 300 mil. Nestor Francisco de Oliveira, assessor do deputado Roberto Brant (PFL-MG). Pegou R$ 102 mil no banco. Cantídio Cotta Figueiredo, candidato a deputado pelo PTB. Sacou R$ 68 mil. Luiz Carlos de Miranda Faria, outro candidato do PTB. Fez retirada de R$ 68 mil. Benoni Nascimento de Moura, da corretora Bônus-Banval. Pôs a mão em R$ 255 mil. E Luiz Carlos Masano, também ligado à Bônus-Banval. Recebeu R$ 50 mil. Suspeita-se das ligações da Bônus-Banval com o deputado José Janene (PP-PR).

Chamam a atenção, ainda, os saques atribuídos a David Rodrigues Alves, um policial mineiro, no valor de R$ 4,9 milhões. Localizado o policial, ele explica que foi contratado por Cristiano de Mello Paz, sócio de Marcos Valério.

A história dele: recebia entre R$ 50 e R$ 100 sempre que ia buscar dinheiro no Banco Rural e o levava diretamente a Paz, na SMPB em Belo Horizonte. Diz o policial:

– Os pacotes já estavam prontos nas agências, eu apenas assinava o recebimento. Meu trabalho era retirar o dinheiro e entregar na SMPB. Quero deixar claro que eu fazia a retirada do dinheiro do banco. Eu não sacava e não sei de quem era o dinheiro.

Paz, o sócio de Valério, informa, por meio da assessoria, que não conhece o policial. O policial devolve, à altura: foi apresentado a Paz por um doleiro, Haroldo Bicalho.

O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) admite nos bastidores renunciar ao mandato. A mulher dele, Márcia Milanésio Cunha, sacou mesmo R$ 50 mil do valerioduto, no Banco Rural. Cunha chegou a escrever a carta de renúncia, mas José Dirceu (PT-SP) e os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, o convencem a recuar.

Cunha não comenta a quase-renúncia. A assessoria, porém, já está pronta para rebater: os R$ 50 mil foram gastos integralmente na campanha eleitoral de Osasco (SP). Com o tempo, a versão vai ser aprimorada. E o deputado? Viajou com a família para destino ignorado. Por dez dias.

Não há mais dúvida: Silvio Pereira ganhou o jipe Land Rover da GDK, a empresa contratada pela Petrobrás. César Roberto Santos Oliveira, vice-presidente da GDK, deu mesmo o presente ao secretário-geral do PT. José Paulo Boldrin, dono da revendedora de automóveis Eurobike, de Ribeirão Preto (SP), confirmou o negócio. Vendeu o carro depois que recebeu um depósito de R$ 73.500,00. O jipe é um Land Rover modelo Defender 90-SW, ano 2003. O carro já saiu da Eurobike em nome de Silvinho. E foi entregue na casa dele, em São Paulo.

A GDK doou R$100 mil para a campanha de Lula. Em 2003, primeiro ano de governo, faturou R$ 145 milhões em contratos com a Petrobrás. Em 2004, venceu dez licitações promovidas pela estatal. Total em jogo: R$ 512 milhões. O maior contrato foi para reformar a plataforma de extração de petróleo P-34, no valor de US$ 88 milhões. Em 2005, mais cinco contratos celebrados com a Petrobrás, no valor de R$ 272 milhões.

Na campanha eleitoral de 2004, a GDK só deu dinheiro para uma campanha política. Foi a de Osasco (SP), justamente o berço político de Silvinho. Doou R$ 400 mil para o candidato Emídio de Souza (PT), e com isso foi a maior doadora daquela campanha.

Silvinho chegou a pedir R$ 79 mil pelo Land Rover, mas anuncia que desistiu de vender. Ele se desliga do PT.

Com estrela do PT na lapela, Delúbio Soares depõe à CPI dos Correios. Protegido por habeas-corpus, não pode ser preso. Ao longo de todo o escândalo, como se verá, Delúbio agiu sempre como um grande escudo, protegendo Lula e a cúpula do PT. Isenta o governo e integrantes do PT de quaisquer responsabilidades pelas transações financeiras com Marcos Valério. Assume todos os eventuais erros. Mata no peito. Orientado por advogados, evita o caixa 2:

– Não existe caixa 2, existe dinheiro não-contabilizado.

Nega a existência do mensalão. Deixa dúvidas:

– Eu definia quem iria receber o dinheiro. Quem definia o método de pagamento do dinheiro era o Marcos Valério. Eu não sei como era feita a entrega do dinheiro.

E foi assim que tudo começou, segundo Delúbio: Valério se ofereceu para pagar dívidas de campanha, “eu concordei”. Simples assim. Tudo “na base da confiança”. Sem documentos ou contratos, sem que ninguém do partido tivesse conhecimento. E como devolver os quase R$ 40 milhões que foram emprestados dos bancos? O tesoureiro do PT arranca risos dos parlamentares presentes à sessão:

– Estou diante de um grande problema, e preciso resolvê-lo o mais rápido possível.

Delúbio esquiva-se de responder sobre a quantia de R$ 29.436,26 emprestada pelo PT ao presidente Lula, em 2003. O dinheiro vai dar muito pano para manga. Por ora, a informação: no livro-caixa do PT, oficialmente entregue ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o dinheiro foi quitado em quatro vezes. Diz o tesoureiro:

– Nossa prestação de contas é rigorosa.

Questionado sobre a legalidade do ato, encerra o assunto:

– Não convém me pronunciar.

Mais números contra Marcos Valério. Dos R$ 836 milhões faturados nos últimos seis anos pelas 14 empresas das quais o empresário aparece no período como sócio, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) descobre: R$ 500 milhões não tiveram origem identificada. Simples assim. E surge mais um braço financeiro de Valério, aliás: o BRB (Banco de Brasília), pelo qual passaram, em dois anos, R$ 100 milhões. É dinheiro atribuído às chamadas “contas lavanderia”.

A movimentação é descrita como atípica. Depósitos e transferências imediatas, que vão de R$ 20 mil e R$ 120 mil, feitas pelo sistema TED (Transferência Eletrônica Direta). O dinheiro é posto instantaneamente nas contas dos beneficiados. Ninguém sabe, ninguém viu.

Em cinco anos, Valério pagou R$ 26 mil de imposto de renda. Dinheiro para comprar um carro popular. Para o fisco, ele tem uma renda média mensal pouco superior a R$ 5.000,00. O patrimônio declarado, porém, é de R$ 18,5 milhões. 80% dos bens, nos nomes da mulher, Renilda de Souza, e dos filhos. Em 2004, Valério pagou apenas R$ 2.800,00 de impostos. Em 2005, R$ 3.000,00.

Depoimento à Comissão de Ética da Câmara. Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL, faz relato sobre a conversa telefônica entre o ex-marido e o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ). Os dois trataram de operação financeira para atrair deputados para a bancada do PL.

– Ouvi a conversa e vi o dinheiro, guardado no cofre da nossa casa.

Ela testemunhou a entrega de uma mala repleta de dólares ao deputado maranhense Remi Trinta. Ouviu o diálogo em que Valdemar pede para Jacinto Lamas, o tesoureiro do PL, pegar “várias malas” em Belo Horizonte:

– Ele era como o boy do Valdemar.

Além de movimentar altas somas, o ex-marido tinha o costume de andar de jatinho e torrar milhões em cassinos. Em uma noite, perdeu US$ 500 mil numa casa de jogo do Uruguai. Outra vez, foram US$ 300 mil em Las Vegas, nos Estados Unidos.

– Na volta de uma viagem acabei trazendo, sem saber, uma mala de dinheiro.

O Congresso Nacional instala a CPI do Mensalão. O governo tem o controle da comissão, com a nomeação do senador Amir Lando (PMDB-RO) para presidente, e do deputado Abi-Ackel (PP-MG) para relator. Lando foi ministro da Previdência de Lula, é peemedebista fiel ao Planalto. Quem o banca é o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Abi-Ackel foi ministro da Justiça do presidente João Figueiredo (1979-1985). Diz Mercadante:

– É um deputado acima de qualquer suspeita.

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