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Cronologia da Crise:

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21/07/2005

Mais um deputado do PT no escândalo do mensalão. É José Mentor (SP), ligado a José Dirceu (PT-SP) e à ex-prefeita Marta Suplicy (PT-SP), da qual foi líder de governo na Câmara Municipal de São Paulo. Mentor recebeu dois cheques, no total R$ 120 mil. Os documentos estão entre os comprovantes de R$ 50 milhões transferidos de contas de Valério, via Banco do Brasil.

Os R$ 120 mil vieram da 2S Participações, empresa ligada a Valério, que movimentou R$ 26,4 milhões em dois anos. O dinheiro foi transferido para o escritório de advocacia de Mentor. O deputado o vincula a um serviço jurídico que prestou a Rogério Tolentino, sócio de Valério. Importante: no escritório de Mentor não há cópias do parecer que diz ter elaborado.

Mentor foi identificado por causa de um cheque nominal. Na maior parte dos casos, porém, os cheques do Banco do Brasil em poder da CPI dos Correios só mencionam números sigilosos, as próprias contas bancárias dos favorecidos.

Outro detalhe importante: em julho de 2004, quando Mentor pôs as mãos nos cheques, ele ainda ocupava o cargo estratégico de relator da CPI do Banestado. A comissão investigava lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Suspeita-se que Mentor poupou o Banco Rural, ligado a Valério, no relatório final da CPI.

O deputado Paulo Rocha (PT-PA), líder do PT na Câmara dos Deputados, afasta-se do cargo. Ligado a José Dirceu (PT-SP), foi tesoureiro do PT do Pará e presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT) paraense. Sai sem explicar saques no total de R$ 470 mil, supostamente feitos pela assessora Anita Leocádia Pereira Costa. O dinheiro foi retirado de uma conta bancária de Valério, no Banco Rural. Rocha até prometeu dar entrevista, mas depois voltou atrás. E sumiu do gabinete.

A nota da assessoria de Rocha, coerente com as explicações de Lula, Delúbio e Valério, mas contradizendo o que ele dissera anteriormente: o deputado pedira R$ 300 mil a Delúbio para quitar gastos de campanha no Pará. Não há menção sobre os R$ 170 mil restantes. Como se verá, há mais dinheiro envolvido.

A Polícia Federal avança no caso da cueca milionária. Reúne indícios sobre a origem dos R$ 200 mil encontrados numa maleta e os US$ 100 mil escondidos nas partes íntimas, tudo transportado por José Adalberto Vieira da Silva, o assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE). Tudo indica que é propina. A suspeita vem do fato de Vieira da Silva ter se encontrado com um dono de empreiteira. Do procurador Márcio Torres, sobre o depoimento de Vieira da Silva ao Ministério Público Federal:

– Ele confirma que esteve com o empresário José Petronilho de Freitas. Disse que foi fazer uma visita e conversaram amenidades, nada a ver com o dinheiro.

O empresário é ligado a Cavan. Está em jogo um negócio de R$ 450 milhões. O sistema de transmissão de energia elétrica do Nordeste prevê a construção de um linhão de 550 quilômetros. Vai ligar Teresina a Fortaleza. O empreendimento tem financiamento do BNB (Banco do Nordeste do Brasil). Envolve ainda a Chesf (Companhia Hidrelétrica do Vale do São Francisco).

Recapitulando: quando recebeu ordem de prisão no aeroporto de Congonhas, flagrado com a dinheirama, Vieira da Silva telefonou ao amigo petista e assessor especial do BNB, Kennedy Moura, que seguiu para São Paulo. A propósito, também estava na capital paulista o deputado Guimarães. Foi ele, aliás, quem indicou Moura para o BNB de Lula. Suspeita-se que Vieira da Silva era apenas “mula”, alguém incumbido de transportar dinheiro.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o procurador da República Ronaldo Meira de Vasconcellos acusa Waldomiro Diniz, “a mão invisível que estimulava a jogatina no país”. Waldomiro, que então presidia a Loterj, estatal das loterias, foi o responsável pela portaria que autorizou os jogos eletrônicos no Rio. Vários Estados copiaram o dispositivo legal. Diz o procurador da República:

– Era um convite estimulando a prática da jogatina.

Lula demite Olívio Dutra (PT-RS), o ministro das Cidades. É um acordo para dar espaço ao PP. Em seu lugar assume Márcio Fortes, uma indicação do presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Dutra não esconde o ressentimento:

– O PT tem problemas muito sérios, que acabam respingando no governo.

Para Dutra, “disputa” e “concentração de poder no governo” deram espaço para o crescimento da “erva daninha” da corrupção. Ele não explica nem cita nomes, mas acrescenta, com gravidade:

– O problema foi provocado por figuras e políticos que predominaram por certo tempo dentro do nosso partido.

“Escárnio à nação”. O título, do editorial da Folha de S.Paulo. Fala dos saques nas contas das empresas de Marcos Valério, que “indicam que o dinheiro não servia apenas para financiar ou saldar dívidas de campanhas, mas para complementar salários”:

“Vai ficando cada vez mais claro que os desvios praticados pelo Partido dos Trabalhadores não dizem respeito a um esquema pelo qual irregularidades seriam cometidas em nome de uma causa política – o que, de qualquer forma, caracterizaria corrupção e crime.”

Outro trecho:

“Perplexos, os brasileiros que acompanham o desenrolar dos depoimentos e das revelações da imprensa vão assistindo ao desvelamento de um amplo esquema de apropriação da máquina pública e movimentação irregular de recursos orquestrado pela cúpula do PT, com evidentes ramificações no governo federal.”

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