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Cronologia da Crise:

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22/07/2005

A dívida de R$ 29.436,26 do presidente Lula. Durante cinco dias, a Folha de S.Paulo procurou explicações do Palácio do Planalto. Queria saber como o débito fora pago. O governo, finalmente, emitiu uma nota: “A Presidência da República não tem conhecimento dessas informações, que devem ser buscadas junto ao Partido dos Trabalhadores”.

A Folha recorda: no segundo dia, o Planalto ainda respondeu que o dinheiro se referia a viagens de Lula, como presidente de honra do PT. Em seguida, estranhamente, retirou a informação. Ou seja, ela não procedia. Depois disso, nenhuma nova manifestação.

Dados da prestação de contas do PT, assinados pelo então tesoureiro Delúbio Soares e entregues ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral): a primeira das quatro parcelas que quitou a dívida de R$ 29.436,26 foi de R$ 12 mil. O dinheiro foi depositado em 30 de dezembro de 2003, ao final do primeiro ano do governo Lula.

No mesmo dia, coincidência! Extratos bancários do PT encaminhados ao mesmo TSE revelam um depósito on line na conta do diretório nacional. Nos extratos aparece o nome da funcionária Solange Pereira Oliveira, da tesouraria do PT. O nome dela também faz parte da lista dos sacadores de dinheiro das contas de Marcos Valério. Retirou R$ 100 mil, em dinheiro vivo.

A grande dúvida, que perdura: a dívida de Lula teria sido paga com dinheiro de caixa 2, das contas de Valério? Outra informação, apurada pelos repórteres Marta Salomon e Rubens Valente: no mesmo 30 de dezembro de 2003, um saque na conta da SMPB de Valério. Não há identificação a respeito. O nome do sacador desapareceu dentro da sala da CPI dos Correios. Intrigante. Quem desapareceu também foi Solange. Desapareceu da sede do PT. A nova direção do PT não se manifesta a respeito.

Em viagem ao Rio, Lula ridiculariza as investigações sobre o escândalo do mensalão:

– O que o povo quer mesmo é resultado. É saber se, no frigir dos ovos, a sua vida vai estar melhor do que quando nós entramos no governo.

Em outras palavras, Lula defende o “rouba, mas faz”.

Após almoçar com trabalhadores na refinaria da Petrobrás em Duque de Caxias (RJ), o presidente, exaltado, diz que ninguém lhe dá lição de ética:

– Eu conquistei o direito de andar de cabeça erguida neste país. E não vai ser a elite brasileira que vai me fazer abaixar a cabeça.

Não se trata disso, evidentemente. Trata-se, isso sim, de um sofisticado esquema de corrupção, montado por um grupo de políticos que gravita em torno do presidente.

Surgem evidências contra mais um deputado do PT. O Professor Luizinho (PT-SP) também usufruiu os serviços de caixa 2 de Marcos Valério. Ex-líder do governo Lula na Câmara, Luizinho é ligado a José Dirceu (PT-SP). Ele, no entanto, manda Rosana Lima, sua solícita chefe de gabinete, negar: o José Nilson dos Santos identificado entre os sacadores do esquema do mensalão não é o José Nilson dos Santos que trabalha para ele. É um homônimo.

O José Nilson assessor, segundo a chefe de gabinete, trabalha em Santo André (SP). “Nunca esteve em Brasília com a finalidade de sacar dinheiro no Rural. Não sacou R$ 20 mil de forma alguma”. Acreditou?

O deputado José Borba (PMDB-PR) vai para o noticiário. Ele não aparece como sacador, nem funcionários dele aparecem como sacadores. Mas Borba esteve no Banco Rural em Brasília, no mesmo dia e horário que Simone Vasconcelos, a diretora administrativa e financeira de Marcos Valério.

Em 26 de novembro de 2003, ela fez quatro saques, num total de R$ 400 mil. De acordo com o sistema de controle, Borba entrou no prédio apenas dois minutos antes de Simone. Saiu cinco minutos depois. Cena de cinema. Uma semana depois, 3 de dezembro: Borba e Simone, novamente. No mesmo dia, no mesmo Banco Rural.

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