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Cronologia da Crise:

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23/07/2005

A revista Veja noticia: Marcos Valério pediu ao deputado João Paulo Cunha (PT-SP) garantias de que não será “enjaulado” por causa do escândalo do mensalão. Além disso, exigiu dinheiro para garantir o futuro da família. Valério teria mandado recado: se não for atendido, vai para Brasília com “quilos de documentos”. Frase atribuída a Valério, com referência a Lula:

– Vocês vão se ferrar. Avisa ao barbudo que tenho bala contra ele.

Outra ameaça:

– Quem tiver motivos para preocupação, pode ir se preocupando.

Conforme Veja, Valério pediu ao governo para deixá-lo intermediar uma operação de corretagem, envolvendo a liquidação do Banco Econômico. Um negócio que renderia R$ 200 milhões.

Em outro momento, Valério menciona o procurador-geral, Antonio Fernando de Souza, e o tesoureiro Delúbio Soares:

– A realidade é bem simples. O PT me pediu dinheiro emprestado e está provado que tomei os empréstimos nos bancos. Entreguei todos os contratos ao procurador-geral da República. O tesoureiro diz que o dinheiro foi para o PT. A nova direção fala que vai dar o cano nos empréstimos que beneficiaram o PT. O beneficiado foi o PT e as pessoas que ele apontou. Não paguei a ninguém da minha cabeça. Se mandou pagar ao PL ou ao PP, ou a que partido for, se foi para pagar dívidas de campanha ou para gastos de pré-campanha, isso não me diz respeito.

A revista Época acusa o deputado Abi-Ackel (PP-MG), o relator da CPI do Mensalão. Ele teria ligações com Marcos Valério, que doou R$ 100 mil para a campanha dele a deputado federal, em 1998. O filho, Paulo Abi-Ackel, recebeu R$ 50 mil de Valério.

Abi Ackel dá entrevista. Diz não se lembrar do fato, ocorrido sete anos atrás. Mas nega que as supostas doações possam prejudicar o trabalho do relator:

– Estou apurando o mensalão, que pressupõe uma contribuição periódica para votar com o governo. Em 1998, era outra situação.

Mais tarde, a explicação: a contribuição de Valério foi recebida não por ele, mas pelo setor financeiro da campanha de Eduardo Azeredo (PSDB), candidato na época a governador de Minas. O depósito, decisão de Cláudio Mourão, o tesoureiro da campanha.

A Folha de S.Paulo vai a Santo André (SP). O promotor Amaro José Thomé Filho suspeita que a Prefeitura funcionou como um “laboratório” para o esquema de caixa 2 do PT em Brasília. A comparação é com uma suposta operação de coleta de propina de empresários de ônibus. O promotor investiga corrupção na gestão do ex-prefeito Celso Daniel (PT), assassinado em 2002:

– Com o andamento das investigações, tanto no âmbito municipal quanto no federal, podemos chegar à conclusão de que Santo André pode ter servido de laboratório para a implantação de um esquema muito maior.

Entre as semelhanças dos dois esquemas de “sangria” de verbas públicas, a participação de empresários, tesoureiros de partido, membros da cúpula do PT, o uso de malas para transportar dinheiro e a presença do deputado José Dirceu (PT-SP).

Outro promotor do caso, Roberto Wider Filho, critica o arquivamento do pedido de abertura de inquérito para investigar Dirceu. Foi decisão de Nelson Jobim, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal):

– A gente teve notícia de que o dinheiro iria para José Dirceu. Isso foi encaminhado à Procuradoria, mas o ministro Jobim impediu a instauração de um inquérito.

A Folha traz artigo de Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil. Trata de caixa 2:

“Se uma empresa não doa abertamente recursos para um partido, mas prefere fazê-lo por debaixo do pano, isso não se explica por anseios de discrição quanto a fervores ideológicos, mas por uma entre duas hipóteses possíveis. Em período pré-eleitoral, trata-se de investimento com expectativa de retorno material futuro, na forma de vantagens de diferentes tipos, todas elas fraudulentas. Em período pós-eleitoral, trata-se do pagamento da propina devida pela materialização daquelas vantagens.”

Outro trecho: “Caixas 2 são montados com dinheiro proveniente de corrupção. São subornos oriundos de contratos superfaturados, conseguidos pelo direcionamento de licitações públicas, da leniência na fiscalização de contratos, do perdão ou redução de dívidas e multas previdenciárias e tributárias, da promulgação de regulações que beneficiam inteiros setores econômicos, de achaques para a concessão de licenças, da omissão cúmplice de agências reguladoras e de uma multidão de outros mecanismos fraudulentos”.

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