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Cronologia da Crise:

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28/07/2005

Manifestações populares contra a corrupção ocorrem no Rio e em Porto Alegre. Nos protestos, chuva de ovos e confrontos entre populares e policiais militares. Em Brasília, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, descarta a prisão preventiva de Marcos Valério. Para ele, não existem fatos que indiquem uma tentativa de obstrução das investigações. Só isso justificaria a prisão. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Nelson Jobim, nega pedido de prisão de Valério, formulado pela Polícia Federal. A representação baseava-se na queima e destruição de documentos da agência DNA.

Cheiro de pizza no ar. A abertura de diversas frentes de investigação dá a sensação de perda de controle das apurações. Exatamente como o governo queria. O turbilhão de informações tira o foco dos trabalhos da CPI dos Correios. Nos jornais, denúncias sobre o envolvimento de membros da oposição em esquemas de corrupção repercutem e confundem a opinião pública. São acusações envolvendo as agências de Valério na campanha de Eduardo Azeredo (PSDB) ao governo de Minas, em 1998. Ele não foi eleito.

No Congresso, trazem intranqüilidade os boatos sobre a existência de uma lista, com nomes de mais de 100 parlamentares, todos supostos recebedores de dinheiro do valerioduto. O governo continua a negar o esquema do mensalão. Refuta atos e crimes de corrupção, e insiste na tese de que o dinheiro serviu apenas para liquidar dívidas de campanhas eleitorais. Quer que o problema atinja a todos, indiscriminadamente. Jaques Wagner (PT-BA), ministro das Relações Institucionais, fala de caixa 2:

– No que toca o financiamento de campanha, pelas regras atuais, todo mundo tem.

Análise da movimentação das contas bancárias das empresas de Marcos Valério faz alimentar as provas do esquema de corrupção. Novas revelações vêm a público: o deputado João Magno (PT-MG) recebeu duas transferências eletrônicas da SMPB, pelo Banco Rural. Um total de R$ 29 mil, em agosto e setembro de 2004.

Por meio da assessoria, explicações. A mesma ladainha: Magno nunca teve contato com a SMPB, mas nas eleições de 2002 pediu ajuda financeira a Delúbio Soares. Ele deu. Mais nada.

Outro que se apresenta para tentar explicar, o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG). Os R$ 50 mil depositados na conta dele, transferidos eletronicamente em agosto de 2004 da conta da SMPB no Banco Rural, são parte das doações de campanha daquele ano. Vieram da empresa siderúrgica Usiminas, que contribuiu para a eleição de Queiroz com R$ 102 mil. A SMPB, portanto, apenas repassou o dinheiro, imediatamente encaminhado por Queiroz, por sua vez, a candidatos a vereador de seis partidos, em 20 cidades. Quanto aos R$ 50 mil depositados em sua conta, foi um engano cometido por um assessor. Diz Queiroz:

– Não fiquei com nada.

Levantamento identifica novos saques de R$ 300 mil, atribuídos a Jacinto Lamas, o tesoureiro informal do PL. O dinheiro foi repassado por meio da conta da SMPB no Banco Rural. Existem retiradas em nome de Lamas, num total de R$ 1,6 milhão. O irmão dele, Antônio de Pádua Lamas, assessor do PL, também fez um saque, de R$ 350 mil. Esteve no Banco Rural, em Brasília, em 7 de janeiro de 2004, das 14h22 às 14h36.

A atualização das somas acrescenta mais R$ 1,6 milhão aos saques atribuídos ao policial mineiro David Rodrigues Alves. Os novos cálculos chegam a R$ 6,5 milhões. Identificados mais R$ 100 mil sacados pelo assessor do PT, Roberto Pinho. No total, retirou R$ 450 mil. Célio Siqueira, assessor do deputado Vanderval dos Santos (PL-SP), outros R$ 150 mil.

O deputado Professor Luizinho (PT-SP) admite, finalmente: José Nilson dos Santos sacou mesmo R$ 20 mil da conta da SMPB, no Banco Rural. Em nota à imprensa, reconhece: o assessor se lembrou de um deslocamento para uma agência bancária, em São Paulo, em dezembro de 2003:

“No final de 2003, procurei o senhor Delúbio Soares para tratar deste assunto. Ele me orientou que retirasse o valor de R$ 20 mil em uma agência bancária na avenida Paulista. Só fui me dar conta que era o Banco Rural agora.”

Luizinho, aguerrido defensor do governo Lula, justifica os R$ 20 mil, dez meses antes da eleição: – O dinheiro foi usado na preparação de pré-campanhas de vereadores em municípios paulistas.

Dados atualizados mostram que a empresa Garanhuns recebeu R$ 7,1 milhões. A origem do dinheiro: cheques emitidos por empresas de Marcos Valério via Banco Rural, na agência do Brasília Shopping. Aberta mais uma investigação: a CPI dos Correios suspeita que a Garanhuns é uma empresa de fachada, utilizada para lavar dinheiro e remeter ilegalmente divisas para o exterior. 99% do capital da empresa estão nas mãos de uma offshore chamada Esfort Trading, sediada no Uruguai. Outra suspeita: os R$ 7,1 milhões foram parar nas mãos do tesoureiro Jacinto Lamas, que repassou a soma a Valdemar Costa Neto (PL-SP).

Entrevista com o economista Paulo de Tarso Venceslau. Ele relata ao repórter Luiz Maklouf, do jornal O Estado de S. Paulo, um esquema de corrupção, em 1995, cujo operador era o advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula. Teixeira representava uma tal Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios). Por ter denunciado a trama Venceslau foi expulso do PT, em 1998. Para ele, Teixeira era o Marcos Valério da época:

– Ele era o grande operador. Ele se apresentava nas Prefeituras em nome do Lula, para pegar dinheiro para o PT.

Venceslau conversou pessoalmente com Lula, em 1995. Queria alertá-lo para os métodos ilícitos de Teixeira:

– Lula foi o primeiro a saber do caso. Sabia do comprometimento do seu compadre, sabia do volume de dinheiro público envolvido, e fez questão não só de acobertar, mas de punir quem tinha descoberto.

Definição de Venceslau: Lula é um caudilho, “e o partido se ajoelha diante dele. Esse ajoelhar foi mortal para o PT”:

– O poder do Lula passou a ser quase que absoluto diante da máquina partidária. O partido se ajoelhou.

Agora, o economista fala do deputado José Dirceu (PT-SP):

– Até então aparentava manter uma velha amizade comigo, mas passou a ser meu algoz. Naquele momento ele provou ao Lula sua extrema lealdade. Um caudilho com esse poder, um partido de joelhos e um executor como o Zé Dirceu, só podia levar a isso que estamos vendo hoje.

– Como pôde ser possível a montagem dessa máquina de dinheiro, o valerioduto, dentro do PT?

– Silvio, Delúbio, essas pessoas foram postas no entorno de Dirceu. Silvinho, por exemplo, sempre foi uma pessoa medíocre no PT. Foi alçado a dirigente pelo Zé Dirceu e virou pau-mandado. Assim como o Delúbio. São pessoas que raciocinam muito pouco, não precisam pensar muito. Tinham de executar.

– Paus-mandados de quem?

– Do Zé Dirceu, que era o grande comandante, o grande chefe desse pessoal. Quem mandava e desmandava era Dirceu. A máquina partidária era controlada a mão-de-ferro por ele.

– Delúbio Soares afirma que Dirceu não sabia do esquema.

– Isso é conversa para boi dormir. Zé Dirceu controlava o partido, colocava as pessoas nos postos que lhe interessavam, mantinha sob rígido controle. É ingenuidade achar que não sabia a origem dos recursos. Até porque o Delúbio não tem capacidade, nem origem, formação, preparo nem nada para montar um aparelho desse tipo. Vamos ser realistas. É um sindicalista do interior de Goiás, professor de carreira do Estado, neófito em São Paulo, nunca circulou nas rodas do poder e de repente adquire amizade sólida com um grande operador chamado Marcos Valério. É piada achar que ele fez isso da cabeça dele.

Sobre Lula:

– O Lula sempre geriu de perto as questões que envolvem sua relação de poder. Claro que não vai estar mandando fazer, mas saber, ele sabia. Não os detalhes. Comparando com a época que estourou o negócio do Teixeira: a primeira pessoa que soube foi Lula. Eu levei para ele, pessoalmente. E o tempo todo fingiu que não sabia. Evidentemente que Lula não operava, assim como não está operando hoje. Mas como ele sabia naquela época, ele sabe hoje, sempre soube.

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