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Cronologia da Crise:

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4/07/2005

Cai Silvio Pereira, o secretário-geral do PT. Silvinho, como é conhecido, disfarça o afastamento do partido com um pedido de licença. Na verdade, foi obrigado a se desligar do PT. Acusado de organizar a distribuição de cargos no governo Lula, Silvinho nunca ocupou um cargo público na administração federal. Mesmo assim, costumava despachar com freqüência dentro do Palácio do Planalto. Era ligado ao deputado José Dirceu (PT-SP) e ao Campo Majoritário, a facção petista do presidente Lula.

Silvinho teve papel importante no processo que culminou com a expulsão da senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados Babá (PA), João Fontes (SE) e Luciana Genro (RS) dos quadros do PT. Todos foram acusados de indisciplina partidária. Por outro lado, Silvinho defendeu a permanência no PT do governador Flamarion Portela (RR), apesar das acusações de desvio de verba que pesavam contra ele. O governador acabou cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Ultimamente, em meio à crise, Silvinho vinha repetindo que ficara isolado dentro do PT, embora garantisse que suas ações tenham sido decorrentes de orientações da própria cúpula do partido.

Mais lenha na fogueira. A imprensa põe as mãos em relatório de prestação de contas do PT, datado de 2004. O documento foi registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em dois anos, o partido do presidente Lula reconheceu que fez empréstimos de R$ 28 milhões junto ao Banco do Brasil, Banco Rural e BMG. O BMG entrou com R$ 2,4 milhões, cujos detalhes foram revelados por Veja. O Banco Rural, com outros R$ 5,1 milhões. E o restante, R$ 20,6 milhões, veio do Banco do Brasil, sendo a maior parte em contratos de leasing, para comprar dez mil computadores e impressoras para os diretórios do partido.

A oposição estranha a relação entre o partido do presidente da República e o Banco do Brasil, que se recusa a divulgar garantias, avalistas, taxas de juros ou quaisquer dados sobre os contratos assinados com o PT. O Banco do Brasil também se nega a informar se as parcelas do empréstimo vêm sendo pagas pelo partido. Alega sigilo bancário. Balanço do próprio PT, porém, acerca do patrimônio líquido da sigla no final de 2004, fala em R$ 24 milhões negativos.

Outra revelação: apesar das dificuldades para saldar a operação de crédito de R$ 2,4 milhões feita em 2003, o BMG destinou mais da metade das suas doações para campanhas eleitorais, em 2004, ao PT. Os dados são do TSE. Dos 26 candidatos que receberam R$ 795 mil do BMG naquele ano, 20 pertencem ao PT. Ficaram com R$ 505 mil da bolada.

Mais Marcos Valério. A Folha de S.Paulo apura que as agências DNA Propaganda e SMPB Comunicação, de Valério, registraram depósitos bancários de R$ 500 milhões em 2004:

“Especialistas do meio publicitário ouvidos pela reportagem calculam, com base em estimativas de gastos das duas agências com a compra de espaço para veiculação de comerciais, que os ingressos de recursos nas contas da DNA e da SMPB são três vezes superiores ao que poderia ser justificado com a atividade de publicidade e propaganda em 2004.”

Em quatro anos, o governador do Acre, Jorge Viana (PT), aumentou os gastos de publicidade de R$ 4 milhões para R$ 27,4 milhões. Foram feitos 13 termos aditivos, que significaram aumento de 585% nas despesas com propaganda.

O contrato do Acre com a Asa Comunicação, cuja sede fica em Belo Horizonte, foi firmado pelo publicitário Paulo Vasconcelos do Rosário Neto, que dirigiu a DNA de Valério. Entre os diretores da agência, o ex-candidato a deputado Américo Antunes (PT-MG).

No editorial “O amigo publicitário”, a Folha afirma que “a promiscuidade entre a vida financeira das empresas de Marcos Valério e a do PT tornou-se flagrante”:

“O episódio não é apenas constrangedor. Trata-se de uma acintosa violação aos mais elementares princípios republicanos. O fato de um publicitário responsável por contas de órgãos governamentais pagar dívida do partido do presidente da República já é, em si, um escândalo.”

A Agência Reuters divulga tabela com o cruzamento de dados apurados pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda). Há uma coincidência entre votações importantes no Congresso Nacional, com a aprovação de projetos de interesse do governo Lula, e saques de dinheiro das contas das empresas de Marcos Valério.

Foram R$ 21 milhões em retiradas, durante dois anos. Média de um mensalão de R$ 30 mil por dia. Nas datas de votação de projetos importantes para o governo, os saques diários subiam para R$ 106 mil.

O levantamento: a votação em segundo turno da Reforma Tributária na Câmara dos Deputados, em 24 de setembro de 2003, coincidiu com retiradas de R$ 1,2 milhão, nos dias 23, 25 e 26 daquele mês. Em dezembro de 2003, a Reforma Tributária foi aprovada pelo Senado. Houve um novo pico de saques, que chegou a R$ 2,8 milhões, em janeiro de 2004.

Em março de 2004, o governo precisou de apoio para neutralizar as investigações sobre o caso Waldomiro Diniz. Também queria aprovar uma Medida Provisória contra as casas de bingo, para sinalizar que não compartilhava das irregularidades. As retiradas no período: R$ 1 milhão. Em seguida, um total de R$ 700 mil, nos dias em que o Congresso debatia e aprovava o novo salário mínimo.

Mais uma coincidência: a aprovação da Medida Provisória que deu status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ocorreu em 1º de dezembro de 2004. Graças a ela, Meireles ficou com foro privilegiado para se defender de denúncias de crime eleitoral, evasão de divisas, sonegação e lavagem de dinheiro. Dois dias antes, saques de R$ 480 mil no Banco Rural.

Luiz Gushiken, o ministro responsável pela Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da República, é a bola da vez. A Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás, rompe um contrato, firmado sem licitação, com um consórcio de empresas que inclui a Globalprev. A sede da Globalprev fica na casa de Elizabeth Leonel Ferreira, mulher de Gushiken, em Indaiatuba (SP). Elizabeth recebe aluguel pelo uso do imóvel da empresa que, até o final de 2002, tinha o nome de Gushiken Associados, funcionava no mesmo local e era dirigida pelo ministro.

Gushiken deixou a sociedade para assumir o cargo de primeiro escalão no governo Lula. Os sócios da Globalprev, porém, são os mesmos que trabalhavam na época da Gushiken Associados. Inclusive Wanderley José de Freitas, um ex-assessor do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo. A Globalprev, assim como a Gushiken Associados, é especializada na preparação de planos de aposentadoria. Com a suposta influência exercida por Gushiken junto aos fundos de pensão, a empresa teria crescido mais do que qualquer outra empresa do ramo de previdência complementar.

Com Gushiken ministro, a Globalprev assinou seis contratos em 2003, com os seguintes fundos de pensão: além do Petros, Previ (Banco do Brasil), Portus (Sistema Portuário), Cifrão (Casa da Moeda), Capaf (Banco da Amazônia) e Postalis (Correios).

Os números: em 2002, antes do governo Lula, a Gushiken Associados faturou R$ 645 mil. Em 2003, com Gushiken ministro, a Globalprev teve faturamento de R$ 1 milhão. Em 2004, R$ 1,9 milhão. E, nos primeiros cinco meses de 2005, R$ 968 mil.

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