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Cronologia da Crise:

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5/07/2005

Cai Delúbio Soares, o tesoureiro do PT acusado por falcatruas. O afastamento é disfarçado de pedido de licença. Delúbio desliga-se do PT, mas trata de proteger o presidente do partido, José Genoino. Isenta-o de qualquer responsabilidade nas decisões da área financeira do partido. E manda a surrada cantilena: acusa “conservadores” e “setores da direita” pelo escândalo. Insiste: tudo não passa de manobra, cuja orquestração tem o objetivo de aprovar o impeachment de Lula.

Integrante do Campo Majoritário do PT, Delúbio é considerado por correligionários e gente do próprio governo um “homem-bomba”. Sabe demais. Sempre teve ligações fortes com Lula. A amizade com o presidente vem dos tempos de sindicalismo. Foi dirigente da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT). Em 2000, entrou para a executiva do PT. Lula era o presidente de honra do PT.

No auge do escândalo, não escondeu que Lula foi o autor do pedido para que continuasse tesoureiro do PT. Delúbio queria ocupar um cargo no governo federal. Como tesoureiro, fazia contatos com empresários e pedia dinheiro para o caixa do PT. Próximo de Lula, participou de reuniões no Palácio do Planalto. Sem ocupar cargo no governo, foi convidado para eventos oficiais. Esteve na comitiva que acompanhou Lula em viagem à África.

O líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), volta atrás e agora admite conhecer Marcos Valério. Borba, aliado do governo Lula, divulga nota à imprensa para refutar qualquer comportamento ilegal. O resultado é desastroso. Termina acusando Valério de negociar cargos no governo. A repercussão do caso faz ele perder o cargo de líder do PMDB. A nota de Borba:

“Nunca recebi do senhor Marcos Valério qualquer numerário ou recursos financeiros, limitando-se o relacionamento ao fato de que o mesmo fazia parte do grupo do PT, que exercia efetiva influência político-administrativa junto ao governo federal.”

“O meu relacionamento com líderes do PT, integrantes de sua executiva nacional e o senhor Marcos Valério sempre foram delimitados pela tratativa da ocupação de cargos públicos, em razão de pleitos de integrantes de nossa bancada, sendo leviana e politiqueira qualquer especulação de favorecimento financeiro a deputados do PMDB.”

“O que discuti com dirigentes do PT e o senhor Marcos Valério é o que lideranças partidárias discutem hoje e sempre discutiram em todos os governos, a nomeação de seus partidários para cargos na administração.”

O escândalo do mensalão. Jacinto Lamas, tesoureiro do PL nos dois primeiros anos do governo Lula, esteve 15 vezes na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. As visitas foram registradas no sistema de segurança do edifício. E nove das vezes coincidiram com saques que totalizaram R$ 2,3 milhões.

Lamas freqüentava o Banco Rural nos horários em que as agências bancárias estão fechadas, no começo da manhã ou no período noturno. O sistema de segurança também registrou o nome de Alexandre Chaves Rodrigues, motorista do então presidente do PTB, José Carlos Martinez. Ele esteve na agência em 14 de janeiro de 2004, mesmo dia de uma retirada de R$ 250 mil em dinheiro.

O Congresso instala a CPI do Mensalão. Mais uma derrota do governo. Durante os últimos dez dias, a bancada governista, orientada pelo Palácio do Planalto, tentou atirar em outra direção e impedir a nova comissão de investigação. Em seu lugar, propunha apurar a compra de votos, com a alegação de que era preciso investigar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ocorrida em 1998. Agora, com três CPIs em funcionamento, muda a tática do governo. A base aliada parte para confundir investigações, tumultuar o processo, dispersar trabalhos e cansar a opinião pública, desmoralizando as comissões.

Em depoimento à CPI dos Correios, Edgard Lange, agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), afirma que recebeu ordens para investigar irregularidades nos Correios. Foi no início de abril de 2005, mas as atividades foram suspensas 40 dias depois, logo após a descoberta de indícios de corrupção na Diretoria de Tecnologia. O cargo era ocupado por Eduardo Medeiros, cuja indicação foi atribuída a Silvio Pereira. Fazia parte da cota de cargos do PT nos Correios.

O Brasil, espantado, assiste a mais uma dança de números milionários. São números do governo Lula. Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda), em poder da CPI dos Correios, indica que a agência DNA Propaganda recebeu, durante a administração federal petista, R$ 419,2 milhões em depósitos, numa conta do Banco do Brasil em Belo Horizonte. A metade do dinheiro, R$ 219 milhões, depositada irregularmente, sem a identificação de origem dos recursos.

O expediente contraria a lei de combate à lavagem de dinheiro, que obriga o banco a obter declaração dos clientes sobre a origem de depósitos com valores superiores a R$ 100 mil. A informação precisa ser registrada no Banco Central. O relatório do Coaf também identificou, no último ano, uma movimentação de R$ 5,5 milhões, em dinheiro vivo. A quantia passou por uma conta da SMPB Comunicação, numa agência do Banco Bradesco em Belo Horizonte. Marcos Valério obtém habeas-corpus para depor na CPI dos Correios, sem correr o risco de ser preso.

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