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Cronologia da Crise:

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7/07/2005

E surge mais um empréstimo guardado em segredo pelo PT. O site da revista Época na internet divulga uma operação de crédito no Banco Rural, em maio de 2003, no valor de R$ 3 milhões. O PT é o beneficiário, e o avalista do empréstimo, mais uma vez, o empresário Marcos Valério. Ele assina a transação com o presidente do PT, José Genoino, e com o tesoureiro Delúbio Soares.

A reportagem de Época é assinada pelos repórteres Ricardo Mendonça e Eliane Brum: “As novas revelações caíram como um petardo sobre a imagem pública do PT. E, da porta para dentro, o partido implodiu. Quando surgiu o primeiro empréstimo garantido por Valério, no BMG, Genoino negou sua existência depois de consultar o tesoureiro Delúbio Soares. Desmentido publicamente e desgastado, Genoino entrou em depressão e se confessou magoado com Delúbio, que não o teria informado corretamente. Na quinta-feira, quando foi procurado por Época para falar do novo empréstimo, a respeito do qual novamente não tinha o que explicar, o presidente do PT deixou a mágoa de lado e passou a xingar Delúbio pelos cantos do partido, em São Paulo”.

Fernanda Karina, a ex-secretária de Marcos Valério, presta depoimento à CPI dos Correios. Reafirma denúncias e trata do relacionamento de Valério com o deputado José Mentor (PT-SP). O petista foi o relator da CPI do Banestado, uma comissão encarregada de investigar remessas ilegais de dinheiro para o exterior:

– Uma vez, quando Mentor telefonou com uma notícia sobre a CPI do Banestado, o senhor Marcos Valério mandou que eu pegasse as 25 pastas suspensas em que ele guardava notas fiscais e de investimentos e picotasse tudo. Foram feitos quatro sacos de papel picado. O Marcos Valério só saiu da minha frente quando eu tinha picado tudo.

Sobre a logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural, em operação determinadas por Valério e tocadas por Simone Vasconcelos, pessoa de estrita confiança do empresário:

– A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto. Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007, que ficavam no departamento de finanças da agência.

O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), quer a confirmação de que o dinheiro ia mesmo para parlamentares no Congresso Nacional. Fernanda descreve o procedimento de Valério:

– Ele falava algumas vezes com o Delúbio e depois ligava para outras pessoas, falando: “Olá, deputado. Amanhã vou estar em Brasília”. Um dia que eu o ouvi falando isso teve um saque, e ele viajou no dia seguinte.

Movimentação bancária de Valério intriga a CPI e dá pistas sobre os caminhos da corrupção. Trata-se de um crédito de R$ 2,4 milhões, seguido de um débito no mesmo valor. A operação foi mapeada pela Receita Federal. Ocorreu no BMG, em nome da Graffiti Participações, empresa de Valério, em 14 de julho de 2004.

O curioso é o valor do crédito, praticamente o mesmo da dívida de R$ 2,4 milhões, contraída em fevereiro de 2003 pelo PT, com o aval de Valério, no mesmo BMG. Outra coincidência: naquele mesmo 14 de julho de 2004, Valério pagou R$ 350 mil da dívida do PT junto ao BMG. E mais: o imposto de renda da Graffiti não faz menção à origem do dinheiro, nem dá qualquer justificativa para o depósito de R$ 2,4 milhões na conta da empresa.

Manifestações e protestos contra a corrupção pipocam pelo país. A Câmara dos Deputados rompe parceria com a SMPB. A agência de Valério havia sido contratada por R$ 9 milhões em 2003, quando o presidente da Câmara ainda era o deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Durante a vigência do contrato, o petista assinou dois aditivos, autorizando mais R$ 4,7 milhões para publicidade.

Antes de anunciar o fim dos serviços da SMPB, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), já havia autorizado mais R$ 8,2 milhões para a agência de Valério. Um dos serviços da SMPB sob suspeita, ainda na gestão de Cunha: duas pesquisas de opinião, no valor de R$ 757 mil. A pretexto de aferir a imagem da população sobre o legislativo, foram encaixadas perguntas de cunho político, induzindo avaliação do governo Lula.

A Prefeitura de Osasco (SP), berço político de Cunha e onde o prefeito, Emídio de Souza (PT), é aliado do ex-presidente da Câmara, anuncia o cancelamento de licitação para contratar agência de publicidade. Do certame, no valor de R$ 3 milhões, participavam 17 empresas. Vinha sendo liderado pela SMPB. Valério já prestara serviços em Osasco durante a campanha eleitoral, por meio da Estratégia Marketing, contratada para assessorar Emídio de Souza.

Mais uma vez, o ministro Luiz Gushiken. O publicitário Alarico Neves Assumpção prestava serviços na agência DNA de Valério. Aí, assumiu importante cargo na Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da Repúbica, comandada por Gushiken. Depois, acabou transferido para a SMPB, a outra agência de publicidade do mesmo Valério.

Assumpção ocupou o posto de diretor de mídia da Secom. Foi responsável pela supervisão de contas publicitárias do governo federal, em ministérios e estatais. Antes de ir para a SMPB, atuou no comitê do governo Lula que negociava preços de anúncios e respondia por gastos públicos com propaganda oficial.

A força de Gushiken vem da influência nos fundos de pensão de empresas estatais. O ministro da Previdência, Ricardo Berzoini (PT-SP), é aliado histórico de Gushiken. Foi ele quem indicou o nome de Adacir Reis para chefiar a poderosa SPC (Secretaria de Previdência Complementar). Ela regula os 366 fundos de pensão do país, responsáveis por 960 planos de previdência complementar. Os fundos atendem de 2,3 milhões de pessoas. Negócio de R$ 280 bilhões.

Outro aliado de Gushiken, José Valdir Gomes, foi nomeado para a diretoria de Assuntos Atuariais da SPC, para exercer o controle estratégico dos fundos de pensão. Sérgio Rosa é o presidente da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, o maior do país. Tem patrimônio de R$ 70 bilhões. Como Gushiken, Rosa começou a vida sindical no Sindicato dos Bancários de São Paulo. Veio de lá também outra indicação de Gushiken: Wagner Pinheiro, o presidente da Petros, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás, o segundo maior do país. Patrimônio de R$ 24,9 bilhões.

Agora, o loteamento de cargos no fundo de pensão dos funcionários de Furnas, cujo patrimônio é de R$ 4,8 bilhões. A reportagem de Irany Tereza, de O Estado de S. Paulo, aponta um rateio entre os partidos políticos da base aliada do governo Lula:

“A presidência do fundo foi entregue a Marcos Antonio Carvalho Gomes, funcionário de Furnas, ex-sindicalista e petista do grupo do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), e os demais diretores são indicados pelo PTB, PMDB e PP, num convívio administrativo extremamente conflituoso.”

Os investimentos do fundo de pensão estavam concentrados em bancos de segunda linha, como o BMG e o Banco Rural. As aplicações no Banco Santos, quebrado em 2004, provocaram perdas de R$ 153,6 milhões.

Os “investimentos” no Banco Santos levaram ao afastamento do gerente de Investimentos do fundo, Benedito Siciliano, da cota do PTB. Ele foi dispensado, apesar dos protestos do diretor de Administração e Finanças, José Dias, nomeado pelo PMDB.

De acordo com O Estado, “aplicações desse tipo, de alto risco, costumam gerar do banco compromissos de elevada rentabilidade. A suspeita é de que parte desse rendimento seria desviada para financiar partidos políticos”.

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