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Cronologia da Crise:

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8/07/2005

Os jornais estampam nas primeiras páginas as fotografias de uma bolada de dinheiro. Trata-se do conteúdo de uma maleta com R$ 200 mil e de outros US$ 100 mil, carregados dentro da cueca do assessor de um deputado do PT. Não qualquer deputado. José Adalberto Vieira da Silva, preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, trabalha para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), o líder petista na Assembléia Legislativa do Ceará. Guimarães é integrante do diretório nacional do PT e irmão do presidente do partido, José Genoino.

Antes de se calar e se recusar a prestar esclarecimentos à Polícia Federal, Vieira da Silva age com rapidez e apaga a memória do telefone celular. Diz ser agricultor. O dinheiro em seu poder, resultado da venda de verduras. Desmascarado, confessa ser assessor do irmão de Genoino. Usa o paletó para cobrir o rosto e tentar se esconder dos fotógrafos.

Guimarães, por sua vez, é um dos 14 parlamentares cujo nome aparece na agenda de Marcos Valério. Em entrevista, ele diz não saber por que está na agenda. Também ignora o que o assessor fazia em São Paulo. Deputado do Ceará, Guimarães estava em São Paulo, no mesmo dia. Explicação dele:

– Foi tudo uma grande armação para atingir a mim e ao Genoino. Vou desvendar esse mistério.

O jornal O Globo, do Rio, publica que a Telemar, uma das maiores operadoras de telefonia do país, comprou ações da Gamecorp, a empresa de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente Lula. A Telemar, concessionária de serviço público, é constituída com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Banco do Brasil e fundos de pensão de empresas estatais. Investiu R$ 5 milhões na Gamecorp. Agora, tem ações da empresa de Lulinha e o direito de usar programas de jogos para telefones celulares.

Fábio Luiz Lula da Silva fez a Gamecorp em sociedade com Kalil e Fernando Bittar, filhos de Jacó Bittar. É um velho amigo de Lula, conselheiro da Petros, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás. No início, a Gamecorp tinha um capital social de R$ 100 mil. Com o novo negócio, a expectativa de faturamento já alcança R$ 7 milhões em 2005. A transação foi intermediada pela BDO Trevisan. Trata-se de uma empresa de consultoria, controlada por Antoninho Marmo Trevisan. Ele é outro amigo de Lula, nomeado para o Conselho de Ética Pública da Presidência da República.

Mais uma nas páginas de O Globo. A história de Wendel Resende de Oliveira, ex-motorista da deputada Neyde Aparecida (PT-GO). Ele conta que, em 27 de setembro de 2004, por determinação da deputada, transportou uma mala com US$ 200 mil do diretório nacional do PT, em São Paulo, até Goiás.

Oliveira viajou para São Paulo de avião. Para não despertar suspeitas, recebeu orientação para seguir com a mala de ônibus até Goiânia. Lá, entregou a carga a um filho da deputada. O dinheiro teria ido para Gilmar Alves, o irmão de Neyde Aparecida, candidato a prefeito de Quirinópolis (GO). Ele acabou eleito. Outra parte teve como destinatário Carlos Soares, irmão de Delúbio Soares, derrotado na eleição para vereador em Goiânia.

Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT, depõe na Polícia Federal. Define-se como “dirigente profissionalizado da executiva nacional do PT”. Salário, R$ 9.000,00 mensais. O delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira considera incompatíveis salário e patrimônio declarado: um apartamento em São Paulo, no valor de R$ 180 mil, uma casa de praia em Ilhabela (SP), avaliada em R$ 400 mil, e um jipe marca Land Rover, no valor de R$ 80 mil, que, segundo o depoente, foi financiado.

O Ministério Público abre inquérito para apurar denúncia de irregularidade na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), durante a gestão do prefeito Antonio Palocci (PT-SP), o poderoso ministro da Fazenda de Lula. Augusto Pereira Filho, diretor da Coderp (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Ribeirão Preto), empresa controlada pela administração municipal, admitiu ter recebido um “complemento salarial” de R$ 2.250,00, em dinheiro vivo, sem registro em folha. O valor era repassado por uma empresa contratada pela Prefeitura, a Construtora Vale do Paranapanema. O pagamento teria sido negociado pelo ex-superintendente da Coderp, Juscelino Dourado, atual chefe de gabinete do ministro Palocci.

Ao dar posse a três novos ministros do PMDB em seu governo, Lula põe um fim a boatos sobre a saída do ministro Luiz Gushiken:

– Eu quero dizer aqui, para todo o mundo ouvir, que o companheiro Gushiken continuará dirigindo a Secom. O companheiro Gushiken cuida não apenas bem da Secretaria de Comunicação, mas do mundo de assuntos estratégicos, que é uma coisa extremamente importante. Eu acho que nós não podemos, a qualquer insinuação contra qualquer companheiro, a priori, achar que as pessoas são culpadas.

O deputado José Dirceu (PT-SP), por sua vez, defende a permanência de José Genoino no comando do PT. Em reunião do Campo Majoritário, a corrente hegemônica do PT, o ex-ministro fala em “conspiração das elites”:

– Querem o impeachment do presidente Lula. É disso que se trata.

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