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Cronologia da Crise:

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1/08/2005

Marcos Valério faz tremer. Simone Vasconcelos depõe na Polícia Federal, em Brasília. Fornece uma lista com 31 nomes, elaborada por Valério. Traz os nomes de sacadores e beneficiários do mensalão. Todos autorizados pelo PT a fazer retiradas. Total que saiu das contas bancárias das empresas de Valério: R$ 55,8 milhões. Um esclarecimento: nem sempre os beneficiários foram pegar dinheiro vivo no banco. Os mais espertos mandaram assessores e familiares. Eis os principais nomes da lista, com os respectivos valores agraciados, por ordem de grandeza:

Duda Mendonça, publicitário e marqueteiro de Lula, o responsável pela campanha eleitoral vitoriosa de 2002: R$ 15,5 milhões. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, R$ 10,8 milhões. Diretório nacional do PT, R$ 4,9 milhões. Deputado José Janene (PP-PR), R$ 4,1 milhões. Deputado Vadão Gomes (PP-SP), R$ 3,7 milhões; Manoel Severino dos Santos, presidente da Casa da Moeda e ligado ao PT do Rio de Janeiro, R$ 2,6 milhões. Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, R$ 2,4 milhões. Tome fôlego.

Deputado José Borba (PMDB-PR), R$ 2,1 milhões. Marcelino Pies, tesoureiro do PT do Rio Grande do Sul, R$ 1,2 milhão. Anderson Adauto (PL-MG), ex-ministro dos Transportes de Lula, R$ 1 milhão. José Carlos Martinez, o falecido ex-presidente do PTB, R$ 1 milhão. Deputado Paulo Rocha (PT-BA), R$ 920 mil, o que é bem mais, portanto, que os R$ 420 mil identificados anteriormente.

Rodrigo Barroso Fernandes, um ex-secretário do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT-MG), também está na lista de Valério. Agraciado com R$ 774 mil. Márcio Araújo de Lacerda, secretário-executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE), pegou R$ 457 mil. Roberto Costa Pinho, ex-assessor do ministro da Cultura, Gilberto Gil, R$ 450 mil. Deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), R$ 400 mil.

E mais estes aqui, imperdíveis: Raimundo Ferreira da Silva Júnior, do PT do Distrito Federal, R$ 370 mil. Deputado João Magno (PT-MG), R$ 350 mil. Deputado Romeu Queiroz (PTB-MG), R$ 350 mil. Deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), R$ 250 mil. Vilmar Lacerda, presidente do PT do Distrito Federal, R$ 235 mil. Deputado Paulão (PT-AL), presidente do PT de Alagoas, R$ 160 mil. Deputado Josias Gomes (PT-BA), R$ 100 mil. Deputado João Paulo Cunha (PT-SP), R$ 50 mil. José Adelar Nunes, tesoureiro do PT de Santa Catarina, R$ 50 mil. E deputado Professor Luizinho (PT-SP), R$ 20 mil.

A estratégia de Valério: convencer a Polícia Federal que a lista dos R$ 55,8 milhões tem origem em empréstimos bancários, e que o dinheiro foi totalmente repassado, por meio de caixa 2, a pessoas indicadas pelo PT. Valério quer um acordo, o benefício da delação premiada. Um abrandamento de penas, se vier ser condenado. Em troca, fornece informações. Mais alguns pedidos de Valério: ele não quer ser preso e quer o desbloqueio de R$ 1,8 milhão, aplicado em nome da mulher, Renilda Maria.

Valério mantém pressão sobre o PT. Quer negociar, ser protegido. Por ora, ameaça: pode revelar os detalhes da reunião entre cinco integrantes do PT e o vice-presidente do BMG, Roberto Rigotto. O encontro ocorreu durante o período de votação da Medida Provisória 130, que tratou de crédito consignado para aposentados. História enroladíssima, como se verá. De qualquer forma, Valério não falará dos tais detalhes. Provavelmente, porque conseguiu o que desejava. Mas o negócio é assim: o BMG obteve exclusividade para operar o crédito consignado, durante alguns meses. Fez um dinheirão.

Um petardo. Escancarados os bastidores sigilosos da relação entre Marcos Valério e José Dirceu (PT-SP), o superministro do presidente Lula. Maria Ângela Saragoça, ex-mulher de Dirceu, psicóloga, foi contratada em 2003 pelo BMG. Trabalhava meio expediente em uma agência em São Paulo, por R$ 3.265,00. Um mês depois, ganhou empréstimo de R$ 42 mil no Banco Rural.

O dinheiro foi usado para pagar uma parte do apartamento que comprou no bairro de Perdizes, um dos mais tranqüilos de São Paulo. Antes de comprá-lo porém, Maria Ângela teve de vender o antigo, situado na Vila Madalena. Quem comprou o imóvel por R$ 115 mil foi o advogado Rogério Tolentino, sócio de Valério. Depois, alugou-o a Ivan Guimarães, petista nomeado à presidência do Banco Popular do Brasil. O apartamento novo custou R$ 150 mil. O vendedor do imóvel concedeu entrevista ao jornal Estado de Minas. Maria Ângela chegou com dinheiro vivo, dentro de uma sacola.

Duas informações: a agência DNA, de Valério, fez, sem licitação, a campanha de lançamento do Banco Popular, um braço do Banco do Brasil. Custos da campanha: R$ 25 milhões. O BMG aproveitou os bons ventos no governo Lula e fez uma lucrativa parceria com a Caixa Econômica Federal e o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social).

Voltando à ex-mulher de José Dirceu. O ministro pediu emprego a ela logo depois da posse de Lula. A informação é do Correio Braziliense. Dirceu não quer falar sobre o assunto. Maria Ângela solta uma nota: foi apresentada a Valério por Silvio Pereira, um velho conhecido, de mais de 20 anos. Dirceu não tem nada a ver com isso:

“Em setembro de 2003, encontrei-o em companhia do senhor Marcos Valério, a quem fui apresentada. Conversamos sobre minha situação profissional e o publicitário mineiro se colocou à disposição para me indicar alguma empresa que eventualmente necessitasse de meus serviços. Também disse que tinha contatos se eu precisasse de financiamento para a compra do novo apartamento.”

Renuncia o deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP). Ele preferiu perder o mandato a correr o risco de ficar inelegível até 2015, caso fosse cassado por envolvimento no escândalo do mensalão. Agora, está livre para se candidatar em 2006. Valdemar não abre mão do cargo de presidente do PL.

Roberto Busato, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), protesta:

– A renúncia não pode ser um salvo-conduto para a impunidade.

Valdemar profere discurso da tribuna na Câmara. Recebeu, sim, dinheiro do valerioduto, apesar de ter negado anteriormente. Todo o dinheiro do caixa 2 do PT, no entanto, foi usado para pagar despesas de campanhas eleitorais, garantido. Não teve essa, de mesada a deputado:

– Fui induzido ao erro quando aceitei receber recursos destinados à campanha, sem a devida documentação que oficializasse a doação.

O patrimônio de Valdemar, conforme declaração apresentada por ele ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral), em 2002: R$ 2,9 milhões. Em Mogi das Cruzes (SP), base eleitoral do agora ex-deputado, Valdemar é conhecido como Boy. De Frederico Augusto, irmão de Valdemar, ao repórter José Maria Mayrink, de O Estado:

– Não entendo como o Boy tem tantos bens, pois nosso pai morreu pobre e não deixou quase nada para os filhos.

Em Brasília, o discurso do presidente do PL. Menção ao PT:

– Não tínhamos razões para suspeitar da origem dos recursos que recebíamos. Em nenhum momento poderíamos colocar sob suspeita as ações de um partido aliado que, junto conosco, venceu as eleições.

O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), elogia Valdemar. E falou exatamente desse jeito:

– Não posso deixar de ressaltar a prova da dignidade da maneira correta como vossa excelência agiu para engrandecer o mandato popular, que espero que São Paulo faça de volta.

Evento em Brasília, fechado à imprensa. Lula dá explicações aos sindicalistas. Frases do presidente, transpiradas da reunião:

– O Delúbio enterrou o partido. Ele fez dívidas de R$ 65 milhões em nome do partido, sem ter como pagar.

– Pode ser que alguns integrantes do meu partido ou de outros partidos erraram, pegaram dinheiro por aí, mas sem a minha autorização.

– Mas qual deputado que não pega dinheiro para fazer campanha?

A Secretaria de Imprensa do presidente não comenta.

A vez de Cláudio, filho do presidente Lula. Ele usou avião oficial da FAB (Força Aérea Brasileira), com 14 amigos. Foi durante as férias de 2004. O deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ) fez sete tentativas até conseguir confirmar a mordomia, junto ao gabinete institucional da presidência da República. Antes, mandou sucessivos requerimentos à Secretaria-Geral da presidência, Ministério da Casa Civil e Ministério da Defesa.

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