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Cronologia da Crise:

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10/08/2005

A Polícia Federal entrega à CPI dos Correios um laudo apontando suspeitas de manipulação em números e informações do Banco Rural. Os dados foram enviados para os trabalhos de investigação da comissão. Há indícios de transações que foram apagadas ou modificadas, para mais ou para menos, nas operações de crédito, débito, transferências bancárias e saques atribuídos às empresas de Marcos Valério. Arquivos supostamente adulterados abrigam 39 mil registros de operações.

Os peritos da Polícia Federal desconfiam de modificações feitas na contabilidade eletrônica do banco, para que coincidam com as versões dos saques. As mudanças poderiam escamotear a falsificação de valores, omitir sacadores e até incluir operações fantasmas. De acordo com dados da CPI, não há identificação sobre a origem de R$ 11,8 milhões, referentes a 50 movimentações das empresas de Valério no Banco Rural.

Na CPI do Mensalão, o vice-presidente da comissão, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), trata de “esquentar” uma lista de sacadores das contas de Valério, numa jogada para envolver parlamentares de oposição no escândalo do mensalão. O documento, apócrifo, traz 128 nomes, para os quais teriam sido entregues R$ 10,8 milhões, durante a campanha de reeleição do governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998.

No primeiro momento, Pimenta afirma que achou a lista com os nomes em cima da mesa de trabalhos da CPI. Supõe que Valério a deixou ali, por distração, durante o depoimento à comissão. Mas Pimenta foi visto ao lado de Valério, após o final do depoimento, na madrugada anterior, caminhando em direção à garagem do Senado.

Pimenta apressa-se em dar uma segunda versão. Foi até o carro de Valério pegar a tal lista, mas com o advogado de Valério. Não dá certo. O advogado, Marcelo Leonardo, nega. E, pior, fica provado que Pimenta saiu do Senado, na madrugada, dentro do carro de Valério.

Do jornalista Janio de Freitas, na Folha de S.Paulo:

“Assim tem agido a tropa de choque petista. Procura esvaziar tudo o tempo todo, sem decência no trato dos fatos, sem dignidade política e sem compostura pessoal. Disso só pode resultar a sua associação moral a Marcos Valério e a quantos acusados haja. E, como o PT domina as CPIs ao somar-se a seus aliados da ‘base governista’, as inquirições e investigações ficam prejudicadas, particularmente as referentes ao mensalão.”

Pimenta deixa a vice-presidência da CPI do Mensalão.

Depoimento de Cristiano Paz, sócio de Marcos Valério na agência de publicidade SMPB, à CPI dos Correios. Ele admite que assinou “pilhas” de cheques identificados apenas como “assunto PT/Marcos Valério”, sem saber o destino do dinheiro. Diz Paz:

– Marcos Valério fez uma reunião conosco em que falou da importância da aproximação com o partido. Toda agência de publicidade tem interesse em estar próxima. Não vejo nada de ilícito nisso.

Paz defende o sócio:

– Valério colocou a importância de ter bom relacionamento com o PT. Disse que queria se aproximar do PT e tomou a decisão de fazer o empréstimo, se nós concordássemos. Assinei na confiança e achei que deveria assinar.

Os cheques da “conta PT” vinham separadamente. Não eram nominais. Eram ao portador ou endereçados a empresas.

– Todas as vezes que os cheques chegavam na minha mesa eram pilhas desse tamanho, até me incomodava. Eu não tinha tempo para ficar conferindo.

Os parlamentares estranham. Que motivos levaram a agência a assumir riscos, emprestando dinheiro a um partido político? Justificativa de Paz:

– Senti desconforto por causa da dívida da empresa. O Valério dizia: “Não se preocupe, o PT vai pagar”. Achei que tudo seria cumprido. Hoje vejo que foi um erro. O pior dia da minha vida foi quando vi a empresa acusada por Jefferson.

O jornal argentino La Nación publica entrevista com o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS). Segundo Amaral, o dinheiro movimentado pelo PT e por Marcos Valério pode ter comprado deputados, para que votassem leis de interesse do governo. Também serviu para comprar deputados de oposição, que se transferiram para as fileiras da base aliada.

Para Delcídio, Lula pode ter sido enganado, “por alguém que o rodeia”. O senador acrescenta: do PT “poderia se esperar ineficiência administrativa, mas não uma crise ética”. E mais:

– Para mim é muito difícil, emocionalmente. Além de receber pressões de todos os lados, é muito difícil ver no banco dos réus dirigentes com os quais se fazia campanhas, discursos, com quem se compartilhava a militância.

Em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo alerta:

“A multiplicidade de comissões de inquérito (Correios, Mensalão e Bingos) e de instâncias de decisão sobre eventuais processos e punições (as próprias CPIs, a Mesa da Câmara, a Corregedoria e o Conselho de Ética da Casa, a Procuradoria-Geral da República e o STF), enfim, os complexos trâmites exigidos, tudo isso poderia servir de instrumento aos desejosos de circunscrever a alguns bodes expiatórios a culpa pelo assombroso lamaçal cuja profundidade ainda está por ser medida. O abafa seria o produto de dois movimentos que se confundem: de um lado, o daqueles que, em autodefesa, só aceitam cortar superficialmente na própria carne; de outro, o daqueles que acreditam, talvez com razão, que as cassações não podem chegar a um número tal que poria abaixo a legitimidade do Congresso.”

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