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Cronologia da Crise:

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11/08/2005

A crise política assume contornos dramáticos. Duda Mendonça e Zilmar Fernandes Silveira depõem na CPI dos Correios. Duda apareceu sem ser convocado. Marqueteiro de Lula, confessa que recebeu R$ 11,9 milhões em caixa 2 de Marcos Valério. É dinheiro que pagou os serviços prestados na campanha de 2002, que elegeu Lula. Pior: R$ 10,5 milhões do total foram depositados no exterior, por orientação, segundo Duda, de Valério.

Duda teria sido obrigado a constituir uma empresa offshore, cuja característica principal é a ausência de identificação dos donos. Nasceu a Dusseldorf, nas Bahamas. Segundo a versão, Valério fez seguidos depósitos à Dusseldorf em 2003, por meio dos bancos BAC Flórida Bank, Banco Rural Europa, Israel Discount Bank de Nova York e a empresa Trade Link. Duda não fornece senha ou extratos para permitir uma análise da movimentação. Diz Duda:

– Esse dinheiro era claramente de caixa 2, a gente não é bobo. Nós sabíamos, mas não tínhamos outra opção, queríamos receber. Não vou dar uma de santinho. Ou eu recebia daquele jeito, ou tomava cano.

Além dos R$ 10,5 milhões na Dusseldorf, Valério repassou R$ 1,4 milhão a Duda, em dinheiro vivo, em várias parcelas. Os primeiros R$ 300 mil foram recebidos na agência do Banco Rural da avenida Paulista, em São Paulo. Zilmar foi buscar o dinheiro:

– Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me assustei, porque pensei que ia receber um cheque administrativo.

A sócia de Duda acostumou-se, sem problemas. Voltou à mesma agência nos dias seguintes, para pegar mais duas boladas de R$ 300 mil cada uma, em dinheiro vivo. E depois fez outras duas retiradas, também em espécie, de R$ 250 mil cada.

O depoimento de Duda choca o país. Além do marketing de Lula, o publicitário cuidou das campanhas dos candidatos do PT aos governos de São Paulo e do Rio, José Genoino e Benedita da Silva, e do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Recebeu R$ 11,9 milhões de Valério, e outros R$ 3,6 milhões de Delúbio. Todos os R$ 15,5 milhões “por fora”, sem nota fiscal.

As televisões transmitem o depoimento de Duda. O publicitário escancara a promiscuidade entre público e privado, nas relações do governo federal. Segundo ele, o pacote fechado com o PT para as eleições de 2002 era de R$ 25 milhões. Faltou o acerto de R$ 9,5 milhões do combinado, mas Duda voltou a trabalhar para o partido do presidente Lula, em 2004. Foi responsável pelas campanhas eleitorais em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e Goiânia. Duda detém contas milionárias de publicidade, da Petrobrás, Secom e Ministério da Saúde. Juntas, renderam um faturamento de R$ 120 milhões, em 2003 e 2004.

Ao depor à CPI, Duda quer se livrar da acusação de evasão de divisas. O crime teria sido cometido por quem enviou o dinheiro ao exterior. O publicitário apenas o recebeu e, portanto, é autor de crime mais leve, de sonegação fiscal. Caso faça o acerto com a Receita Federal antes da denúncia do Ministério Público, ficará livre de processo criminal. No início do governo Lula, o acesso de Duda à esplanada dos Ministérios e ao ministro Luiz Gushiken era intenso. Recebeu o apelido de ministro da propaganda.

Enquanto Duda depõe espontaneamente à CPI dos Correios, Marcos Valério comparece à CPI do Mensalão. Da mesma forma, ele não havia sido convocado. O depoimento não tem a mesma repercussão, mas cria um problema. Segundo Valério, foi o próprio Duda quem pediu para o dinheiro ser depositado no exterior:

– Fui procurado pelo Delúbio, que me incumbiu de pagar o Duda, por intermédio da Zilmar. Fiz os pagamentos à pessoa que ela indicou, o consultor financeiro de nome Jader.

A grana foi sacada pelo doleiro Jader Kalid Antônio, autor de 22 operações de retirada de dinheiro da SMPB. Diz Valério:

– Fui usado pelo PT e cuspido para fora. É muito mais fácil acusar o publicitário Valério do que o marqueteiro Duda Mendonça. É mais fácil falar em valerioduto do que em dirceuduto ou ptduto.

Ex-diretores do Banco Central são entrevistados pelos repórteres Fernando Dantas e Suely Caldas, de O Estado de S. Paulo. Os pagamentos a Duda Mendonça no exterior reforçam os indícios de que os empréstimos dos bancos Rural e BMG ao PT e ao empresário Marcos Valério foram obras de ficção. As operações de crédito, uma estratégia para camuflar doações prévias, depositadas por empresas em contas bancárias no exterior, cujos titulares seriam os próprios bancos envolvidos no esquema. Os empréstimos serviriam para cobrir as doações, e não eram mesmo para ser pagos.

Segundo a análise, não faz sentido a aprovação de empréstimos da ordem de milhões de reais, em operações com aval de dirigentes do PT, políticos com baixo patrimônio. A suspeita, portanto, é de que os empréstimos não deveriam ser quitados e nem cobrados, pois já haviam sido pré-pagos com depósitos no exterior.

O repórter Lourival Sant’Anna, de O Estado de S. Paulo, obtém informações de bastidores, de fonte muito próxima a Delúbio Soares. Os gastos com a campanha de Lula, em 2002, alcançaram os R$ 200 milhões. O PT admitiu despesas de R$ 21 milhões, quase dez vezes menos. Os tais R$ 21 milhões teriam sido suficientes para todas as despesas, e teria havido uma sobra, de R$ 11 mil. Nos números de verdade, há uma dívida de caixa 2, de R$ 21 milhões. E a arrecadação não contabilizada teria sido de quase R$ 160 milhões.

Repercussões do depoimento de Duda Mendonça: para o jornal Folha de S.Paulo, em editorial, “o presidente Lula perde o pouco de autoridade que lhe restava: como pode o governo exigir dos cidadãos e das empresas o cumprimento de obrigações fiscais se o mais alto magistrado da República chegou ao poder valendo-se de operações fraudulentas?”

O jornalista Clóvis Rossi, na mesma Folha, escreve que o depoimento do “publicitário do rei” mostra que não foram apenas deputados os beneficiados pelo valerioduto. “Foi o próprio presidente da República, cuja propaganda foi paga com esse dinheiro. Pior: não foram pagamentos feitos durante a campanha e, portanto, antes da presidência de Lula, mas depois da posse e depois de a agência de Duda ter obtido contratos de publicidade do governo”.

O presidente do PT, Tarso Genro (RS), defende Lula:

– Não há nenhuma legitimação moral e jurídica para a proposta de impeachment. Vamos fazer todos os movimentos políticos, jurídicos e sociais para defender o mandato do presidente.

Um grupo de 20 deputados do PT forma um bloco dissidente e emite uma nota. Para eles, o esquema revelado por Duda “trai a esperança de mais de 52 milhões de votos”, recebidos por Lula. Os petistas pedem a abertura de processos na comissão de ética do PT, contra sete deputados do partido envolvidos com o mensalão.

Do deputado José Thomaz Nono (PFL-AL):

– A crise demonstrou que o PT é um partido igual aos outros. Não há monopólio da virtude. Não há reserva de mercado de coerência.

Para o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), “acabou o governo. Isso não é caixa 2, é corrupção”. Declaração de Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA):

– Estamos cada vez mais próximos da responsabilidade do presidente. Nada disso poderia ter acontecido sem que Lula soubesse.

Da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), chocada:

– Agora se fecham todos os indícios de crime. E esse dinheiro não veio de empréstimo. Veio de licitações fraudadas, de investimentos de fundos em bancos que depois retribuíam. Tudo que o Código Penal diz que dá cadeia eles fizeram.

Do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), sobre o caixa no exterior:

– O PT já admitiu caixa 2 nacional, que recebeu dinheiro por fora de empresas ou pessoas físicas, mas dentro do Brasil. Agora, quando paga com dinheiro estrangeiro alguém que contratou para fazer sua campanha eleitoral, o PT confessa o caixa 2 no exterior.

O deputado José Dirceu (PT-SP) alerta para uma “convulsão social”, caso Lula sofra um impeachment:

– Vocês acham que não vai acontecer nada no país se fizerem isso?

A CPI dos Bingos recebe informações do Ministério Público de São Paulo. Rogério Buratti manteve relações próximas com Antonio Palocci (PT-SP), ministro da Fazenda, pelo menos até fevereiro de 2004. Mentira à CPI ao dizer que não tinha contato com Palocci. O ministro também negara.

Buratti foi secretário de Governo do ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP), o ministro Palocci. Afastado por suspeita de corrupção. Motivo: em uma fita, gravada pelo próprio Buratti, havia indícios de acerto ilegal com um empresário. A gravação foi furtada por um integrante do PT. Divulgada, inviabilizou a permanência de Buratti na Prefeitura. Saiu do PT, e não teria mais convivido com Palocci.

Agora, sabe-se que ele ligou duas vezes de um telefone fixo, em 7 de fevereiro de 2004, para a casa do ministro, em Brasília. E no dia 21 daquele mês, mais uma vez, de um celular. Além disso, manteve contatos telefônicos com Juscelino Antonio Dourado, o chefe de gabinete de Palocci no Ministério da Fazenda. E fez outras 99 ligações para Ralf Barquete, um consultor da Caixa Econômica Federal. Os telefonemas ocorreram no período da renovação do contrato entre a Caixa e a multinacional Gtech. Barquete também foi secretário de Palocci na Prefeitura de Ribeirão. Buratti minimiza a importância dos telefonemas ao ministro. As conversas tiveram “caráter pessoal”:

– Nunca disse que não conheço Palocci e não converso com ele. Disse que não tenho intimidade com ele. Foi isso que eu falei.

Palocci insiste na versão furada. Em nota emitida por sua assessoria, afirma que “eventuais telefonemas foram provavelmente tentativas de contato que não prosperaram”. Sobre os contatos com Buratti nos últimos anos, “apenas sociais, eventuais e esporádicos”.

Cai Marcos Trindade, o chefe do Serviço de Engenharia e Saúde Pública da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Filiado ao PT, foi diretor da Secretaria de Obras Públicas do ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT). Trindade admitiu que transportou R$ 850 mil, em dinheiro vivo, em viagens de ônibus de Belo Horizonte a Porto Alegre, em 2003. O dinheiro, do valerioduto, pagaria despesas da campanha de Tarso Genro (PT-RS) ao governo do Rio Grande do Sul, em 2002.

O PT gaúcho finalmente reconhece que pôs a mão em R$ 1 milhão da SMPB de Marcos Valério, para a campanha de Genro. Negara numerosas vezes, anteriormente. O transporte das somas foi feito por Trindade. Ele fez quatro viagens a Belo Horizonte, para buscar o dinheiro.

A primeira vez, em 16 de julho de 2003, de avião, em companhia de outro petista, Paulo Antônio Bassoto. Na volta, o companheiro foi detido no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com R$ 150 mil em dinheiro. Trindade carregava R$ 50 mil consigo, mas conseguiu escapar. Seguiu viagem.

Depois do susto, as viagens passaram a ser de ônibus. Trindade não se arrepende de ter executado a tarefa, digna de “um militante e homem de esquerda, comunista sempre”.

Frederico Catarino, gerente de uma agência do Banespa em Mauá (SP), confirma quatro saques, num total de R$ 230 mil, feitos por determinação de Valdirene Dardin, secretária de Finanças da Prefeitura de Mauá, na época do prefeito Oswaldo Dias (PT). As retiradas aconteceram entre abril de 2003 e março de 2004, mas não foram justificadas na administração municipal.

Valdirene responsabilizou o PT pelo desvio do dinheiro, mas depois mudou a versão e disse desconhecer o motivo dos saques e o destino da grana. De acordo com Catarino, Valdirene fez as retiradas em duas ocasiões. Os outros dois saques foram feitos por ele mesmo, mas a pedido dela. Seguindo orientações, levou o dinheiro à Prefeitura e o entregou a Valdirene. Catarino informa que, por determinação de Valdirene, em todas as quatro vezes as somas foram embaladas em sacos plásticos de supermercado.

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