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Cronologia da Crise:

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12/08/2005

Lula aproveita reunião ministerial para ler discurso ensaiado e preparado por sua assessoria. Faz um auto-elogio a realizações do seu governo e exime-se de responsabilidades sobre o escândalo do mensalão. Visivelmente abalado, quase não olha para as câmeras que transmitem o discurso. No final, de improviso:

– Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.

As afirmações são vagas. Lula não diz com precisão ao que se refere. Não aponta nenhum culpado. O discurso, cheio de frases soltas. Fica nítida a intenção de proteger os responsáveis pela crise:

– Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país.

Lula afirma estar “consciente da gravidade da crise política”, mas não explica por que Delúbio Soares era freqüentador assíduo do Palácio do Planalto. Tampouco refuta, com a ênfase esperada, que fora alertado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) para a existência de um esquema de distribuição de mensalões à base aliada. Diz Lula:

– Se estivesse ao meu alcance, já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis por esta situação.

A verdade, porém, é a do presidente que se movimentou, de todas as formas, desde o início, para impedir a instalação das CPIs. De um homem que tratou de manter, o quanto pôde, José Dirceu (PT-SP) no Ministério da Casa Civil. Justo Dirceu, tido como o grande operador do mensalão. Lula também está muito próximo do esforço do PT para manter Delúbio nas fileiras do partido, apesar do envolvimento indiscutível do ex-tesoureiro no esquema de corrupção.

O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), reage à hipótese de afastamento do presidente da República:

– Esse pensamento não existe, eu irei fazer tudo para que o presidente Lula continue, não podemos fazer com que o Brasil venha sofrer um impeachment, que é doloroso para o país.

O presidente do PT, Tarso Genro (RS), expõe a crise do partido. Para ele, a fala de Lula foi insuficiente:

– Acho que o presidente fez um primeiro pronunciamento à nação. Na minha opinião, ele deverá fazer uma série. Se fosse esse exclusivamente, eu diria que é insuficiente.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), não se reconhece “na atitude desses dirigentes, não é esse o partido que ajudei a fundar”:

– É inaceitável esse tipo de prática dentro do nosso partido. Como diria Juscelino Kubitschek, o homem público não pode ter compromisso com o erro. Muito menos com erros tão graves, como os que estão sendo cometidos.

Reação do petista Valter Pomar, da esquerda do partido:

– O Mercadante nem parece aquele que, na última reunião do diretório, defendeu a suspensão do Delúbio Soares, em vez da expulsão dele.

Do senador Cristovam Buarque (PT-DF):

– Não tenho mais nenhuma ligação política com o PT.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulga uma declaração oficial:

“O uso de fontes escusas para o financiamento de campanhas eleitorais, o desvio de recursos públicos, a manipulação de empresas estatais em benefício de partidos, e tantas outras denúncias de corrupção que vêm acontecendo de longa data, e que nos últimos dias emergiram de forma escandalosa, provocam, em todos nós, a indignação ética.”

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