Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

94
15/08/2005

Técnicos da CPI dos Correios suspeitam da versão de Duda Mendonça. O publicitário disse que foi obrigado a abrir uma empresa num paraíso fiscal, para receber pelos serviços à campanha que elegeu Lula em 2002. O problema é que remessas de R$ 8,8 milhões à offshore Dusseldorf, nas Bahamas, foram feitas em datas ou em dias seguintes a saques em contas de Marcos Valério.

A coincidência de datas é considerada forte indicador de que o dinheiro dos depósitos teve origem no Brasil. Depois de sacado, os valores teriam sido depositados por doleiros em contas no exterior, até chegar em offshores como a Trade Link, ligada ao Banco Rural, nas Ilhas Cayman. De lá, saía a transferência para a Dusseldorf. Como evidência, os técnicos apontam 35 dos 40 depósitos em dólares na conta de Duda no BankBoston de Miami, cuja origem foram recursos retirados do Banco Rural no Brasil.

Os dados: em 11 de março de 2003 sacaram-se R$ 300 mil do Banco Rural, em Belo Horizonte. No dia seguinte, a Trade Link autorizou uma transferência de US$ 83,6 mil (equivalente a R$ 300 mil, menos as comissões) para a Dusseldorf. No dia 12 de março de 2003, um dia depois, sacaram-se outros R$ 300 mil do Banco Rural de Belo Horizonte. Mais um dia, novo depósito em dólares, de valor equivalente, no BankBoston de Miami.

Para os técnicos da CPI, a exigência de Marcos Valério para que Duda abrisse uma offshore num paraíso fiscal só faria sentido se o dinheiro já estivesse no exterior, sem a possibilidade de ser “internalizado” no Brasil, o que, aparentemente, não ocorreu.

Em entrevista a Lourival Sant’Anna, repórter de O Estado de S. Paulo, Roberto Busato, presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), aponta motivos para a abertura de processo de impeachment contra Lula. Busato também denuncia falhas graves da Polícia Federal e do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda), para detectar as movimentações de dinheiro do valerioduto. Diz Busato:

– Não é possível que esse Banco Rural tenha praticado tantos fatos que não foram detectados pela análise sistêmica que o Banco Central é obrigado a fazer. Onde estava a Receita Federal, com todos esses ilícitos tributários declarados? É incrível a inoperância de instrumentos do Estado brasileiro para evitar ou estancar uma corrupção sistêmica que estava ocorrendo dentro do governo Lula. Temos de reexaminar a legislação e as instituições.

– Os membros do PT envolvidos na corrupção fazem uma separação entre erro e corrupção, entendendo que em benefícios para o partido não há delito, mas erro. E que delito é apenas o aproveitamento próprio das verbas desviadas. Isso é desvio de conduta muito grave. Agiram criminosamente.

O presidente da OAB justifica o pedido de impeachment:

– O presidente é a expressão máxima do PT. Portanto, não me parece lógico que ele desconhecesse as práticas que seu partido estava adotando na sua própria campanha e, depois, dentro do seu governo. Havia denúncias a partir do caso Waldomiro Diniz. E o presidente da República nunca veio a público demonstrar transparência na solução desses problemas. Esses indícios todos autorizam juridicamente um pedido de impeachment do presidente.

Partidos de oposição reúnem-se em Brasília e descartam o impeachment de Lula. Dirigentes do PSDB, PFL, PDT, PPS, PV e do setor oposicionista do PMDB concluem que não há condições para um processo de impedimento do presidente. Além de temer a acusação de golpismo, a oposição faz cálculo eleitoral: com a crise política e o enfraquecimento de Lula, aumentam as chances de derrotá-lo nas eleições de 2006. De Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado:

– Não há clima político para o impedimento e o pedido, se houver, tem de vir da sociedade.

Do presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC):

– Se ficar comprovada a desonestidade pessoal e cabal do presidente, não vamos poupá-lo.

Para o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), “é conveniente assegurar a governabilidade”. Opinião de outro peemedebista, o deputado Geddel Vieira Lima (BA):

– O impeachment não é ato de vontade política. Existem parâmetros constitucionais que não foram preenchidos, ainda.

Segundo o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), “o impedimento de um presidente é muito traumático para a sociedade”. Do presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE):

– O impeachment não consta da nossa ordem do dia.

A CPI dos Correios inicia o processo de notificação de 18 deputados envolvidos no escândalo do mensalão. Todos são convocados a apresentar as suas defesas por escrito. A lista dos que podem ser cassados tem sete deputados do PT, quatro do PP, três do PL, dois do PTB, um do PMDB e um do PFL. Os nomes: José Dirceu (PT-SP), João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Professor Luizinho (PT-SP), Paulo Rocha (PT-BA), Josias Gomes (PT-BA), João Magno (PT-MG), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Vadão Gomes (PP-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Carlos Rodrigues (PL-RJ), Wanderval Santos (PL-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ), Romeu Queiroz (PTB-MG), José Borba (PMDB-PR) e Roberto Brant (PFL-MG).

anterior | próxima | início