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Cronologia da Crise:

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16/08/2005

O jornal Folha de S.Paulo noticia apreensão de papéis na casa do banqueiro Edemar Cid Ferreira, ocorrida em março de 2005. Os documentos ligam o tesoureiro Delúbio Soares ao escândalo do Banco Santos. Há indícios de que o banqueiro tentou levantar recursos com fundos de pensão, 11 dias antes da intervenção do Banco Central. Delúbio estaria envolvido. O Banco Santos foi liquidado, acusado de provocar rombo de R$ 2,2 bilhões.

O nome do tesoureiro do PT aparece duas vezes no documento. “Delúbio s/ Fundos”, é a primeira menção. Na segunda há mais detalhes, conforme apurou o repórter Mario Cesar Carvalho: “Buscar Recursos / Delúbio”, diz a anotação, acerca de uma relação com os nomes de vários fundos de pensão. Levantamentos oficiais indicam que os fundos perderam R$ 550 milhões em aplicações no Banco Santos. O mais prejudicado foi o Real Grandeza, dos funcionários de Furnas, com perdas de R$ 151 milhões.

A direção do Banco Santos é acusada de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Principal executivo da instituição, Edemar Cid Ferreira declarou-se “petista” com a ascensão de Lula, em 2002. De acordo com a reportagem, a Polícia Federal possui provas de que diretores de fundos de pensão recebiam propina do banqueiro. Trecho da matéria publicada:

“Delúbio era o interlocutor mais freqüente de Edemar, segundo três ex-diretores do banco ouvidos pela Folha. Era freqüentador habitual da instituição. Mas não era o único integrante da cúpula petista a ter relações com o banqueiro. A ex-prefeita Marta Suplicy, por exemplo, usava o heliponto da sede do banco, no Jardim Europa, próximo a sua casa.”

A direção do PT descarta, por 9 votos a 6 e uma abstenção, a abertura de processo disciplinar na comissão de ética do partido, contra os sete deputados petistas envolvidos no escândalo do mensalão. Coincidentemente, não apareceram para depor cinco das oito pessoas arroladas como testemunhas do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Entre elas, o presidente do PT paulista, Paulo Frateschi. Resultado: o processo é prorrogado, Delúbio ganha sobrevida no PT.

Para manter as aparências, o PT divulga uma resolução sobre o envolvimento do partido no escândalo do mensalão:

“O partido faz seu primeiro pedido de desculpas à nação, pois os atos que nos comprometem, moral e politicamente perante os brasileiros, foram cometidos por dirigentes do PT, que certamente simularam estar investidos de representação de nossas instâncias.”

Depoimento à Polícia Federal. É do motorista Rogério Bicheri, que prestou serviços à campanha da reeleição do prefeito de Londrina (PR), Nedson Micheletti (PT). Ele confirma a existência de caixa 2 na eleição paranaense. Diz ter acompanhado o coordenador da campanha, Fábio Reali, até a casa de Zeno Minuzzo, assessor do deputado Paulo Bernardo (PT-PR), atual ministro do Planejamento de Lula. Foram pegar um envelope com dinheiro.

Uma comissão de 12 parlamentares da CPI dos Correios desloca-se a São Paulo para ouvir o doleiro Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona. Ele se diz disposto a colaborar com as investigações, em troca de proteção e da revisão de uma pena de 25 anos de prisão.

Toninho da Barcelona dá o nome de quatro expoentes que fizeram operações de remessa de dinheiro ao exterior. São eles: José Dirceu (PT-SP), Delúbio Soares, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

Diz mais: a corretora Bônus-Banval fez operações para o líder do PP, deputado José Janene (PR), e também para Dirceu. Fala de grandes quantias em moeda nacional, trocadas por dólares. Foi pedido do deputado José Mentor (PT-SP). Informa conhecer detalhes de operações em Santo André (SP), feitas por doleiros que prestavam serviços ao PT. Cita o envolvimento do MTB Bank no esquema de remessa de divisas ao exterior, e relata operações cruzadas entre o Banco Rural e o BankBoston, no exterior.

Em agosto de 2004, Toninho da Barcelona vendeu US$ 134 mil para o superintendente da Polícia Federal em São Paulo, Francisco Baltazar da Silva. Ele foi indicado para o cargo por Lula, depois de coordenar a sua equipe de segurança em todas as quatro eleições presidenciais que disputou. Com o escândalo, Francisco Baltazar deixou o cargo.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, admite remessas de dinheiro e aplicações financeiras no exterior, mas ressalva: as operações, intermediadas pelo Unibanco, foram legais e amparadas em contratos de câmbio, registrados no Banco Central.

A Folha de S.Paulo reporta a acusação contra duas diretoras uruguaias da Garanhuns, empresa apontada como intermediária no esquema de distribuição de dinheiro do mensalão. Foram denunciadas pelo DEA (Departamento de Combate ao Narcotráfico dos Estados Unidos), por lavagem de dinheiro. Teriam atuado ao lado de uma organização de drogas do México, o Cartel de Juarez.

Em depoimento à CPI do Mensalão, Emerson Palmieri, o tesoureiro informal do PTB, dá detalhes sobre a reunião em que o PT se comprometeu a repassar R$ 20 milhões para a campanha eleitoral do PTB, em 2004:

– Estávamos eu e o deputado Roberto Jefferson, com José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Genoino disse que a contribuição seria de partido para partido, e os recibos seriam providenciados depois. Seriam cinco parcelas de R$ 4 milhões. Depois disso, Genoino levantou-se e disse que ia ligar para José Dirceu.

As negociações com o PT, segundo o tesoureiro do PTB, eram feitas principalmente com Genoino e Delúbio.

– Depois, Delúbio nos apresentou a Marcos Valério e passamos a tratar com ele.

Das cinco parcelas de R$ 4 milhões, só uma teria sido paga. Veio em duas etapas, em dinheiro vivo, no início de julho de 2004. Uma de R$ 2,2 milhões, outra de R$ 1,8 milhão. Palmieri conta que foi encarregado por Jefferson de dividir o dinheiro em “bolos” de R$ 150 mil e R$ 200 mil. O tesoureiro afirma:

– Não coube tudo no cofre do partido, passei uma parte para um armário ao lado. Entreguei a chave ao deputado Roberto Jefferson e ele me pediu sigilo. Poucos dias depois, disse a ele que deveríamos providenciar um segurança para tomar conta daquela dinheirama. Ele me respondeu: “O dinheiro já não está mais aqui no PTB”. Não sei para onde ele levou. Acho que Jefferson não distribuiu o dinheiro.

Jacinto Lamas, o ex-tesoureiro do PL, também depõe na CPI do Mensalão. Afirma que foi buscar, por determinação do ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), “pacotes”, “envelopes” e “encomendas”, sempre em dinheiro vivo, na sede da SMPB em Belo Horizonte, e na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. Confessa também o recebimento em hotéis. Neste caso, Simone Vasconcelos, diretora financeira da SMPB, entregava o dinheiro.

– Era sempre um acerto entre o Valdemar e o Delúbio.

Entrevistado durante um evento no Palácio do Planalto, o vice-presidente José Alencar (PL-MG) confirma a entrevista de Valdemar Costa Neto (PL-SP) à revista Época.

– Tudo aquilo que ele fala é verdade. Houve uma reunião e houve um acordo. Esse acordo está registrado na imprensa no ano de 2002, um acordo eminentemente político.

Recorde-se que, conforme Valdemar, Alencar entra no quarto em que está sendo feita a negociação e pergunta se a decisão sobre o acordo dos R$ 10 milhões do PT ao PL já havia sido tomada.

Alencar informa estar repetindo as palavras do presidente do PL, “porque não mexo com recursos”. E explica:

– Aqueles recursos de que fala o Valdemar eram para ajudar nos Estados os candidatos a deputado por causa da verticalização, que perturbou muito a eleição naquele ano, por razões óbvias. E havia determinados Estados em que PL e PT não podiam confirmar a aliança nacional, porque houve problemas no passado.

Para que os candidatos do PL pudessem disputar as eleições, portanto, houve a “compensação de recursos”. Diz Alencar:

– Só que esses recursos acabaram não sendo pagos, porque durante a campanha não houve pagamento de um real sequer. Isso, segundo o Valdemar. Estou repetindo porque não mexo com isso.

O Conselho de Ética da Câmara absolve, por unanimidade, os quatro deputados do PTB denunciados pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto (SP). Eles teriam sido beneficiados por R$ 4 milhões entregues pelo PT ao PTB, para as eleições de 2004. Sem provas, ficam sustados os processos de cassação contra Alex Canziani (PR), Sandro Matos (RJ), Neuton Lima (SP) e Joaquim Francisco (PE), todos candidatos a prefeito em 2004.

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