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Cronologia da Crise:

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18/08/2005

Em depoimento à CPI do Mensalão, Delúbio Soares sai-se com evasivas. Além da sucessão de negativas, o ex-tesoureiro do PT não se lembra mais de nada. E os empréstimos de Marcos Valério ao partido? “Tem que verificar se foram R$ 55 milhões, R$ 56 milhões, R$ 58 milhões”. Do dinheiro repassado ao publicitário Duda Mendonça, “não sei se são R$ 12 milhões, R$ 16 milhões, R$ 17 milhões”. Sobre a grana que o PT ficou de dar ao PL em troca do apoio em 2002, “algo em torno de R$ 9 milhões a R$ 10 milhões”.

De acordo com Delúbio, ele “não tinha nenhum tipo de controle sobre quanto foi pago, e a quem”. Também nega a existência de documentação sobre empréstimos feitos por Valério:

– Não fizemos contabilidade nenhuma. Eu falava com o Marcos Valério, ele fazia o empréstimo. Não temos nem contabilidade de caderneta.

Delúbio tem precisão cirúrgica, no entanto, quando interessa:

– O PT nunca comprou voto, nunca comprou deputados, nunca comprou votação.

O deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) introduziu Valério:

– Quando o Virgílio me apresentou ao Marcos Valério, disse que ele tinha experiência em campanhas. Ao falar de experiência, quero dizer alguém que sabe trabalhar com recursos, que não faz mutreta.

Dos repasses de dinheiro do PT a partidos aliados:

– Parte do dinheiro era para resolver débitos de 2002. Uma parte para planejar, em 2003, as campanhas eleitorais de 2004. E uma parte para a eleição de 2004. Sei que foi uma ilegalidade. Pagar dívida de outro partido com dinheiro não contabilizado é proibido pela lei eleitoral.

Apesar de se definir como “pessoa fiel”, incapaz de delatar as pessoas, enumera os parceiros com quem manteve negociações:

– No PMDB, rachado em relação ao apoio ao governo, o contato era feito com o deputado José Borba. No PTB, o contato inicial foi com o ex-presidente José Carlos Martinez e, depois da sua morte, com o deputado Roberto Jefferson. No PL, as conversas eram com o presidente, Valdemar Costa Neto. No PP, com o deputado José Janene.

Intervenção da deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP):

– Isso é ilegal. Um partido não pode assumir a dívida de outro.

Delúbio aceita:

– Como é dinheiro não contabilizado, sei que é ilegal. Por isso estou tendo tantas dificuldades.

O tesoureiro lista os diretórios do PT que receberam recursos de caixa 2. Cita São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal.

– Pedi para o Marcos Valério resolver com esses Estados.

Delúbio se atrapalha ao ser inquirido pelo deputado Júlio Redecker (PSDB-RS). O deputado procura esclarecer a transferência de R$ 457 mil do valerioduto para Márcio Lacerda, o ex-secretário executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). O dinheiro teria sido usado para quitar dívida com a agência New Trade, do publicitário Einhart Jacome Paz. Depois de trabalhar para Ciro no primeiro turno, em 2002, ele foi prestar serviços à campanha de Lula, no segundo turno. O diálogo é tenso:

– O dinheiro foi enviado para Ciro Gomes?

– Sim.

– Pagou despesas de campanha de Ciro ou de Lula?

– De Ciro.

– Mas Ciro disse que foi serviço prestado pelo marqueteiro dele no segundo turno à campanha de Lula.

– Não foi. O dinheiro pagou serviços prestados pelo Einhart à campanha de Ciro no segundo turno.

– Mas Ciro não foi candidato no segundo turno. Ele apoiou a candidatura de Lula.

– O Einhart trabalhou com o Duda Mendonça. Eles filmaram o Ciro para o programa de Lula no segundo turno, o dinheiro pagou despesas que o Ciro teve no segundo turno.

– Então o dinheiro de Valério, de caixa 2, pagou despesas de campanha de Lula no segundo turno.

Delúbio silenciou.

Em entrevista à GloboNews, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), atribui o endividamento do PT a “uma administração temerária, absolutamente irresponsável, uma administração financeira e orçamentária de um botequim”:

– O PT cresceu de tal forma que passou a ser uma grande rede nacional de supermercados. Aquela administração, sem nenhum planejamento estratégico, quebrou a instituição.

Em debate no Instituto Fernand Braudel, em São Paulo, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) afirma:

– Crime é crime. O presidente vem a público e não explica. E o que é pior, diz que o Partido dos Trabalhadores errou, que o governo errou. Lavagem de dinheiro é crime. Compra de voto com mesada é corrupção passiva e corrupção ativa. É uma falsa percepção que está tomando conta de alguns integrantes da CPI. Erraram? Não! Praticaram crimes, e crimes graves. É importante não tirar o foco disso. Está na hora de tratar o assunto como um fato criminoso e não, tão-somente, como um erro e pedir desculpas.

O jornal O Estado de S. Paulo noticia contornos de um negócio suspeito que envolve os Correios e beneficia a HHP, uma empresa supostamente ligada ao ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Trata-se de um contrato sem licitação, investigado por superfaturamento, entre os Correios e o DAE (Departamento de Água e Esgoto), uma autarquia da Prefeitura de Bauru (SP).

Os Correios foram contratados em maio de 2005, por um ano, para fazer leitura, impressão e entrega simultânea de contas de água em Bauru. O negócio seria dirigido para beneficiar a HHP, pois os Correios exigiram que o trabalho fosse realizado com equipamentos usados exclusivamente pela empresa. E mais: o DAE assumiu o pagamento de R$ 131 mil mensais pelo serviço, enquanto o preço médio no mercado foi avaliado em R$ 80 mil.

Do repórter José Maria Tomazela:

“O prefeito de Bauru, Tuga Angerami (PDT), foi apoiado pelo PT no segundo turno das eleições de 2004. A presidente do PT local, Estela Almagro, viajou com o prefeito a Brasília para abrir as portas do governo para Angerami. Em 2002 Estela concorreu a deputada estadual em dobradinha com José Dirceu.”

Em sessão tumultuada, a CPI dos Correios rejeita a convocação de Paulo Okamotto, o presidente do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Ele seria chamado para explicar a dívida de R$ 29.436,26 do presidente Lula junto ao PT. Okamotto, supostamente, quitou a dívida. Rejeitada a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Okamotto.

A base aliada do governo também impede a CPI de convocar Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, para explicar deficiências na fiscalização de atividades do Banco Rural. Outro a ficar de fora da CPI é o doleiro Toninho da Barcelona. Os governistas adiam a convocação do ex-ministro Luiz Gushiken, e bloqueiam investigação sobre as viagens de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, ao Japão, durante o processo de compra das ações da Gamecorp pela Telemar.

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