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Cronologia da Crise:

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19/08/2005

Mais um petardo de grandes proporções contra o governo. A vítima é Antonio Palocci (PT-SP), o poderoso ministro da Fazenda. Em troca do benefício da delação premiada, Rogério Buratti presta depoimento na Delegacia Seccional da Polícia Civil de Ribeirão Preto (SP), na frente de seis promotores do Ministério Público que investigam fraudes em licitações e lavagem de dinheiro.

Buratti afirma que na segunda administração de Palocci em Ribeirão, em 2001 e 2002, a empreiteira Leão Leão deu R$ 50 mil de propina, todos os meses, ao prefeito. Um belo mensalão. Naquele período, Buratti foi vice-presidente da empresa e presidente da Leão Ambiental, um braço da Leão Leão responsável pela limpeza urbana. Sabe do que está falando. A Leão Leão tinha contratos com a Prefeitura de Ribeirão.

Buratti faz referência ao amigo Ralf Barquete, o então secretário da Fazenda do prefeito Palocci. Quando assumiu o cargo de ministro da Fazenda, Palocci levou Barquete para assessorar a presidência da Caixa Econômica Federal, em Brasília:

– Esse dinheiro foi pago mensalmente durante toda a gestão do prefeito Palocci, ou seja, durante dois anos. Quem indicou o Ralf para receber esse dinheiro foi o próprio Palocci à empresa Leão. Como eu integrava a diretoria, tinha conhecimento. Ralf apanhava o dinheiro na tesouraria da empresa. Quem entregava era o gerente financeiro da época. Oficialmente, a empresa apoiou financeiramente a campanha de Palocci à Prefeitura. Esse apoio ocorreu oito meses antes do início da campanha eleitoral. O valor oficial era de R$ 150 mil. O sistema dos R$ 50 mil continuou com o outro prefeito, Maggioni.

Gilberto Maggioni (PT) era o vice de Palocci. Assumiu a Prefeitura a partir de 2003. Buratti dá detalhes do mensalão de R$ 50 mil, uma contrapartida para garantir pagamentos em dia aos contratos de limpeza pública:

– O pagamento ocorria com a simulação de compras, utilizando-se notas frias. O pagamento da mensalidade era condicionado ao pagamento que a Prefeitura fazia. Antes e depois das licitações havia reuniões com as empresas, tendo em vista um acordo para a disputa em um determinado local. É um procedimento natural.

O prefeito Palocci fez contratos sem licitação com a Leão Leão. Durante a gestão dele à frente da Prefeitura de Ribeirão, houve contratações suspeitas de direcionamento e superfaturamento. Ficou famosa a decisão de comprar um “molho de tomate refogado, peneirado, com ervilhas”, produzido por apenas uma empresa.

Outro projeto previa a construção de uma ponte pênsil. Consumiu R$ 6 milhões e não saiu do papel. Outros R$ 5 milhões foram gastos na implantação de uma fábrica de pré-moldados, para o fornecimento de material de construção. A finalidade era levantar 50 bases de apoio comunitário. A fábrica foi desativada. Construíram-se apenas quatro bases.

Buratti faz outras revelações. Fala da tentativa frustrada da Leão Leão de entrar no negócio do lixo na cidade de São Paulo:

– No tocante a licitações de concessão de lixo havia um acordo no mercado entre as grandes empresas que participariam. As menores não tinham condições de participar por conta do capital inicial e, como eram muitas empresas, haveria uma disputa muito grande. A notícia que eu tenho é que as empresas sempre colaboravam nas eleições. Nessa época, a prefeita da cidade de São Paulo era Marta Suplicy. Em algumas cidades onde a Leão Leão tinha contratos de coleta de lixo havia um apoio da administração pública na licitação. Onde havia esse apoio ocorria uma colaboração na elaboração dos editais e nas informações gerais, privilegiadas, da licitação. Outro benefício era com relação à fixação do cronograma, fixando-se datas de abertura e divulgação de acordo com os interesses comuns, ou seja, da prefeitura e da empresa. Quando a empresa sagrava-se vencedora, combinava-se com o prefeito uma forma de contribuição financeira. A contribuição ocorria dentro de um porcentual de 5% a 15%, a depender do contrato, em relação ao faturamento. O dinheiro era levado diretamente ao prefeito.

Em nota distribuída por sua assessoria, Palocci “nega com veemência a veracidade da informação de que recebeu recursos” da Leão Leão. Lula evita os jornalistas. Silencia.

Em outra parte do depoimento, Buratti denuncia um esquema de financiamento da campanha de Lula em 2002, com dinheiro de casas de bingo, de São Paulo e do Rio de Janeiro. O esquema rendeu R$ 2 milhões à campanha, o que lhe foi confidenciado por Ralf Barquete, morto depois, vítima de câncer.

Buratti relata que as casas de bingo tinham interesse na regularização do jogo no Brasil. Medida Provisória que regulamentava a atividade, aliás, foi elaborada a pedido do ministro José Dirceu (PT-SP), mas acabou abandonada após a divulgação da gravação em que Waldomiro Diniz apareceu pedindo propina ao empresário de jogo Carlinhos Cachoeira. De Buratti aos promotores:

– Em relação à exploração dos bingos no país, tenho conhecimento de que houve duas contribuições em 2002 para a campanha do presidente Lula, efetivadas por dois grupos. Um do Rio, cujo nome desconheço, outro de São Paulo. O grupo de São Paulo ofereceu R$ 1 milhão. Não sei o montante oferecido pelo grupo do Rio. Acredito que seja em torno de R$ 1 milhão ou mais. A contribuição foi encaminhada diretamente ao comitê financeiro da campanha, na sede nacional do PT. O comitê era coordenado por Delúbio Soares, ele tinha conhecimento. O interesse dessas contribuições era a regulamentação do jogo de bingo no Brasil, o que não aconteceu.

O presidente do PT, Tarso Genro (RS), ameaça renunciar ao cargo e não disputar a reeleição no partido. Exige que José Dirceu (PT-SP) saia da chapa do chamado Campo Majoritário, para a escolha do novo diretório nacional do PT. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Genro diz à repórter Vera Rosa, cheio de ironia, que Dirceu tem responsabilidade pela crise do mensalão:

– Seria desrespeitoso com o ex-ministro Dirceu dizer que ele não tem responsabilidade política. É claro que tem. Foi dirigente máximo do PT durante os últimos dez anos, foi dirigente máximo da campanha de Lula e do governo. Dizer que Dirceu não tem responsabilidade política seria outorgar a ele uma espécie de alienação que deporia contra a sua capacidade de direção.

Genro é contra a idéia de responsabilizar apenas Delúbio:

– É sabido que, se Delúbio cometeu ilegalidades, cometeu num ambiente que favoreceu que isso ocorresse e, portanto, suas responsabilidades devem ser compartilhadas politicamente com outros dirigentes.

O economista César Queiroz Benjamim, fundador do PT. Em entrevista ao repórter Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo, ele afirma que tomou conhecimento de financiamentos irregulares de bancos e empreiteiras ao PT, durante a campanha presidencial de 1994. O dinheiro beneficiava o candidato Lula, derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). Na época, Benjamin fazia parte da coordenação da campanha do PT:

– Tentei discutir na direção nacional, não houve possibilidade, e resolvi levar ao encontro nacional do PT de 1995, que era o primeiro na seqüência da eleição. E aí ficou claro para mim que já estava havendo no PT o início do esquema que agora vem à luz, inclusive com os mesmos personagens. Eu tive a percepção de que isso continha um perigo extraordinário, que era a entrada no PT, pesadamente, de esquemas de financiamento que teriam um impacto grande na vida interna do partido. O Dirceu foi eleito para a presidência, esse grupo que agora está nas manchetes assume cargos-chave, e fica claro que o partido tinha tido uma inflexão para pior. Ser direção passava a ser gerenciar interesses.

Para Benjamin, o processo de corrupção no PT talvez tenha começado antes, com esquemas de financiamento montados por Delúbio. Ele representou a CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT) no FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador):

– Até essa época, a Articulação, que é o grupo do Lula e do Dirceu, ainda disputava a hegemonia no PT, cabeça com cabeça. A minha interpretação é a de que esse grupo usou esquemas de financiamento heterodoxos para fortalecer a Articulação. Porque o FAT faz convênios com sindicatos. E assim fortaleceu as finanças da Articulação, que passa a manejar poder financeiro que é uma arma nova na luta. Passa a ter capacidade de financiar candidaturas, trazer pessoas, estabelecer pontes. Delúbio se tornou figura paradigmática. Foi tesoureiro da CUT, foi para o PT como tesoureiro. E esse grupo começa a ser conhecido como “os operadores”.

Para Benjamin, a liderança de Lula “dissolveu por dentro os valores da esquerda”:

– O Lula garante que foi traído, que não sabia. Mas eu não acredito nisso. Foram práticas sistemáticas durante mais de dez anos, do grupo que era mais próximo do Lula. Me parece completamente inverossímil que ele fosse o único a não saber. Eu, que já estava fora do PT, sabia. Como o Lula poderia não saber?

– O grande legado do Lula é essa disseminação do antivalor. O valor da esperteza, o valor de se dar bem, de não estudar, ter orgulho de não estudar... Eu diria que o Lula sempre foi um grande guarda-chuva para os oportunistas no PT. Uma coisa é o partido ter um líder que é honesto, honrado. Então, quem quer ser picareta fica meio acuado. Pode até querer ser picareta, mas não é a regra. Outra coisa é você estar num ambiente em que veio de cima o exemplo. Então, sob a liderança do Lula, eu diria que se formou a pior geração de militantes da esquerda brasileira de toda a sua história: pragmática, oportunista, individualista, carreirista.

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