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Cronologia da Crise:

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2/08/2005

José Dirceu (PT-SP) e Roberto Jefferson (PTB-RJ) enfrentam-se em sessão do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Um duelo com ofensas, denúncias para todos os lados e muita ironia. Dirceu trata de proteger Lula, minimizando a influência que teve no governo do presidente. Jefferson rouba a cena. Eis as intervenções de Dirceu, retrucadas por Jefferson:

– Tenho consciência da tragédia que se abateu no PT. Sei da gravidade dos erros que setores da direção do PT cometeram na campanha de 2004, mas quero repetir que só respondo pelo que decidi, participei e autorizei.

– Tratei de todos os assuntos com vossa excelência, deputado José Dirceu, os republicanos e os não-republicanos. Vossa excelência nos deixava a todos à vontade para qualquer conversa, na ante-sala do presidente da República.

– O senhor se desentendeu conosco porque queria capturar vários órgãos públicos e não permitimos as nomeações.

– Falei do mensalão para o todo-poderoso José Dirceu, hoje humilde, ele deu um soco na mesa e disse: “Não pode, o Delúbio não está autorizado”.

– No caso de se comprovar que o mensalão é realidade, quem vai decidir isso é a Justiça. Por enquanto é um indício, não uma certeza.

– O José Genoino era o vice-presidente do PT. O presidente de fato era José Dirceu. Tudo tinha de ser fechado e homologado depois na Casa Civil, pelo José Dirceu.

– Não é fato. Não é verdade.

– O acordo da Bahia foi fechado na Casa Civil. O acordo de São Paulo, o do Paraná que envolvia a nomeação em Itaipu, foi fechado na Casa Civil.

– Não posso ser prejulgado, transformado, como fez o deputado Roberto Jefferson, no chefe de quadrilha ou no chefe do maior esquema de corrupção no país.

– Foi o maior tráfico de influência, a maior corrupção política que eu já vi por parte de um partido. O braço desse partido no governo é vossa excelência.

– O falecido presidente Martinez recebeu R$ 1 milhão do Marcos Valério. Se esses saques são para o mensalão, como diz o deputado Roberto Jefferson, o PTB também recebeu.

– O senhor acusou um homem que não pode se defender, mas eu vou fazer isso por ele. O Martinez me mostrou que havia recebido do PT R$ 1 milhão para pagamento de programas de televisão de campanha, que são caríssimos.

– Jamais propus para qualquer deputado, deputada, senador, senadora, para qualquer presidente de partido, qualquer proposta que não fosse lícita, republicana.

– Não tem mensalão no Brasil. É conversa da imprensa, todos os jornais mentem, todas as revistas mentem. Os gestos do Delúbio não são de conhecimento de vossa excelência. As atividades de Marcos Valério, que foi 12 vezes à Casa Civil, vossa excelência não viu, não.

Comentário da jornalisa Dora Kramer, de O Estado de S. Paulo:

“Quem ouvisse pela primeira vez pensaria tratar-se do ministro da Pesca, não do chefe da Casa Civil, poderosíssimo, comandante de uns, integrante de outros e influente em todos os grupos de trabalho governamentais, participante ativo e explícito dos atos do PT nesse período.”

Do jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo:

“Que diabo de político mambembe é esse que, tendo participado do alto comando petista por 12 anos, não percebeu que os seus colegas eram capazes de praticar ‘atos’ capazes de gerar o que o próprio Dirceu chamou de ‘tragédia’ do PT?”

“É, diga-se, o mesmo dirigente político que conviveu durante 13 anos com um certo Waldomiro Diniz e, ainda assim, foi incapaz de notar nele qualquer tendência delinqüencial, a ponto de levá-lo para o coração do governo, posição a partir da qual negociava com delinqüentes.”

Jefferson denuncia: Dirceu, com o conhecimento e o aval de Lula, articulou uma viagem de Valério e Emerson Palmieri, o tesoureiro do PTB, para Lisboa. O objetivo: negociar a captação de recursos junto à Portugal Telecom, para conseguir “fundos” e pagar as dívidas de campanha do PT e do PTB. Foi o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia (PTB-MG), segundo Jefferson, quem pediu socorro ao presidente. O PTB precisava de dinheiro. Nasceu a operação Portugal Telecom.

Fatos denunciados: Valério e Palmieri voaram de primeira classe para a capital portuguesa, em 24 de janeiro de 2005, a fim de se encontrar com representantes do Banco Espírito Santo, e com o ministro de Obras Públicas de Portugal, Antonio Mexia, que mantinha com ligações com banqueiros. Valério queria se meter numa transferência de US$ 600 milhões do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). O dinheiro estava depositado numa instituição financeira do Reino Unido e deveria ir para o Banco Espírito Santo. O banco é um dos principais acionistas da Portugal Telecom. A “comissão” do negócio, de R$ 100 milhões, iria injetar recursos em caixa 2 para “salvar” PT e PTB. Ao final, a “solução” acabou descartada, pelo alto risco.

Reação de Dirceu:

– Não é verdade, isso não é fato. Nunca tive relação com a Portugal Telecom, de nenhum tipo. Nem administrativa, nem funcional, nunca tratei com a Portugal Telecom, nenhuma matéria.

Reação de Valério:

– Havia o rumor de que a Portugal Telecom estava comprando a Telemig Celular. Como a minha agência DNA tinha a conta da Telemig, fui a Portugal atrás de oportunidades de negócios. Palmieri foi comigo a passeio. É amigo e estava estressado.

Reação do Palácio do Planalto: em nota, admitiu as visitas de dois representantes da Portugal Telecom a Lula, em Brasília. Agenda do encontro: “novos investimentos no Brasil”. Da nota:

“Em nenhum momento foi tratado qualquer assunto que não se referisse aos empreendimentos da companhia portuguesa no Brasil.”

Como se vê, não é bem como Dirceu falou.

Marcos Valério depõe à Procuradoria-Geral da República. Segundo ele, há mais nomes de políticos além dos já divulgados, na lista dos beneficiários dos saques e das transferências de dinheiro das contas de suas empresas. Ele não fornece as novas identidades.

Para a oposição, a forma “pingada” com que o dinheiro foi distribuído, fora do período eleitoral, é reveladora. Diz o senador Álvaro Dias (PSDB-PR):

– Isso desmonta a versão fantasiosa de que os recursos se destinavam a cobrir despesas de campanha, porque não era período eleitoral.

Do deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS):

– A matemática dos repasses desmonta a tese petista de que os empréstimos eram para pagar dívidas de campanha do partido. O dinheiro era, na verdade, para pagar o mensalão.

No depoimento à Procuradoria-Geral, Valério afirma que se encontrou três vezes com o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), no Palácio do Planalto. Delúbio Soares revelara as reuniões de Dirceu com diretores dos bancos Rural e BMG, para tratar dos empréstimos ao PT. Foram seis operações de crédito. No total, R$ 55,2 milhões. O jogo de palavras, mais uma vez, defende a tese de que os empréstimos existiram.

Valério insiste. Menciona contratos de gaveta, fechados com Delúbio. Uma espécie de garantia para os bancos credores – eles receberiam os R$ 55,2 milhões. Valério entrega cópia de documento assinado por Delúbio, dirigido ao BMG. O tesoureiro do PT assumia “o compromisso irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e devedor solidário”, todas as operações de empréstimos firmadas com o PT e as empresas ligadas a Marcos Valério, a saber: DNA, SMPB, Graffiti e Rogério Tolentino Associados.

Os procuradores ficam intrigados. Delúbio, um homem sem grandes posses, foi aceito como avalista de empréstimos milionários. O BMG também emprestou R$ 83,4 milhões às empresas de Valério, entre fevereiro de 2003 e abril de 2004.

Um momento do depoimento de Valério que chamou atenção especial: o empresário informa que R$ 4,9 milhões foram entregues, em dinheiro vivo, nas sedes do PT em São Paulo e em Brasília. Por fim: os advogados Aristides Junqueira e Pedro Fonseca, contratados para defender o PT no caso Santo André (SP), receberam R$ 185 mil em recursos de caixa 2. O dinheiro que pagou os advogados, portanto, não tinha nada a ver com dívidas de campanha.

Cai Márcio Araújo de Lacerda, secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional. Amigo do ministro Ciro Gomes (PSB-CE), era seu assessor mais importante. Em 2002 foi coordenador financeiro da campanha de Ciro, então no PTB, a presidente da República. O nome de Lacerda apareceu na lista do valerioduto, beneficiário de R$ 457 mil. Segundo ele, o dinheiro pagou a agência que fez a campanha de Ciro a presidente:

– A campanha do Ciro terminou sem dívida e, no segundo turno, com o apoio à candidatura de Lula, houve uma junção das equipes na campanha do PT. O pessoal da agência New Trade, responsável pelo marketing de Ciro, integrou-se, a convite de Duda Mendonça, à campanha do PT e dos aliados nos Estados. O dinheiro foi depositado na conta da agência, não podia imaginar que tinha esse esquema todo.

O empresário Jacome Einhart, dono da New Trade, confirma e descreve o telefonema que deu ao publicitário Duda Mendonça, o responsável pela campanha eleitoral de Lula:

– Liguei para o Duda e dei os parabéns pela vitória, e ele me chamou para ajudar no segundo turno. O dinheiro do caixa 2 do PT repassado à New Trade saldou despesas da campanha de Lula à presidência da República. Fato grave, mas sem os desdobramentos que teriam sido necessários, nem as implicações merecidas. Ficou por aí.

Depoimento do ex-secretário de Segurança Nacional do governo Lula, Luiz Eduardo Soares, à CPI dos Bingos. Ele ouviu do empresário de jogos Sérgio Canozzi, em 2002, que o ex-presidente da Loterj do Rio, Waldomiro Diniz, levantava R$ 300 mil mensais.

Soares fala de propina. O tal Canozzi ofereceu suborno de R$ 10 milhões para a governadora do Rio, Benedita da Silva (PT), num esquema de desvio de dinheiro público. Soares garante que denunciou a “oferta” ao secretário de Coordenação de Governo de Benedita, Marcelo Sereno, o aliado de José Dirceu (PT-SP). Mais: fez três tentativas para contar o caso diretamente à governadora, mas ela desconversou. Waldomiro continuou na presidência da Loterj. Da governadora Benedita a Soares:

– Você deveria ser mais construtivo, e não ficar me trazendo mais problemas.

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