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Cronologia da Crise:

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21/08/2005

A Folha de S.Paulo noticia detalhes de documentação emitida em 2004 e apreendida na sede da empreiteira Leão Leão. Os papéis reforçam a versão de Rogério Buratti, segundo a qual houve o pagamento de R$ 50 mil mensais, na forma de propina, ao então prefeito de Ribeirão Preto (SP), Antonio Palocci (PT). Os documentos fazem parte de um arquivo de computador denominado “despesas diversas”. Foram encontrados no notebook de Wilney Barquete, ex-presidente da Leão Ambiental, o braço da Leão Leão especializado em limpeza urbana. Barquete substituiu Buratti na empresa, depois que ele foi afastado em decorrência do rumoroso caso Gtech/Caixa Econômica Federal.

A reportagem de Rogério Pagnan e Marcelo Toledo mostra que os promotores encarregados da investigação consideram a documentação um “mapa do pagamento de propina”. A referência mais bombástica do arquivo de computador estava protegida por duas senhas de oito dígitos, e traz o seguintes dizeres: “50000 – dr”. Para os promotores, o “dr” seria o prefeito Palocci, que é medico sanitarista. E “50000”, o valor do suborno mensal, de R$ 50 mil.

As “mensalidades” variam de R$ 3 mil a R$ 50 mil, e incluem pagamentos nas cidades paulistas de Ribeirão, Araraquara, Matão, Sertãozinho e Monte Alto. Há referências ao DER (Departamento de Estradas de Rodagem) e à sigla Conter, não identificada. A Folha reproduz trecho do depoimento de Buratti. Em foco, o suborno em Ribeirão, na época do prefeito Palocci:

“Posso falar em relação a Ribeirão Preto que uma parte das despesas relacionadas eram destinadas ao prefeito, além de outras despesas com imprensa e até entidades de assistência.”

Em Brasília, Palocci convoca entrevista coletiva para refutar a prática de corrupção na Prefeitura de Ribeirão, no período em que foi prefeito. Ele nega o esquema pelo qual teria recebido da empreiteira Leão Leão, durante dois anos, uma propina mensal de R$ 50 mil. E refuta irregularidades em contratos firmados na época:

– Nego em todos os aspectos. Não ocorreram com a minha pessoa, não ocorreram com ordem da minha pessoa, não ocorreram da forma como foram relatados.

O ministro acrescenta:

– Não recebi recursos da Leão Leão. Recebi contribuições legais da empresa e todas estão registradas no Tribunal Regional Eleitoral. Não posso permitir acusação desse tipo sem uma resposta cabal. Palocci ataca os promotores, por divulgaram o depoimento de Buratti, “feito em condições de completo constrangimento”. O ministro poupa o detrator, a quem se refere pelo primeiro nome.

– Não me sinto traído pelo Rogério Buratti porque não tinha relação de confiança com ele no último período. Não esperava que ele fosse utilizar uma acusação dessa natureza. Compreendo a situação dada, a pessoa depondo, com prisão, com algema, tendo sido oferecida a ela a liberdade em troca da delação de outras pessoas, que é um ambiente em que tudo pode acontecer.

O ministro diz não ser amigo de Buratti, “nem inimigo”, desde que ele deixou de ser o secretário de Governo em 1994, durante sua primeira gestão como prefeito. O afastamento ocorreu após a divulgação de uma fita em que Buratti aparecia discutindo propina com um empresário. Palocci explica que as mulheres e filhos de ambos, porém, mantêm relação de amizade. Por isso, e só por isso, esteve na casa do ex-assessor, algumas vezes, nos últimos anos. Da mesma forma, recebeu-o em sua casa:

– Não esperava por isso, que o Rogério Buratti fizesse uma coisa dessas. Agora, eu compreendo a situação em que ele foi colocado. Os motivos que o levaram a falar isso eu não conheço.

Palocci aproveita a entrevista para informar que colocou o cargo à disposição de Lula, mas este o orientou a permanecer no governo. De Lula, sobre o seu ministro:

– Palocci mostrou a segurança de uma pessoa inocente.

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo César Pinho, afirma que o Ministério Público dispõe de “fartas provas” de fraudes em licitações ocorridas na Prefeitura de Ribeirão, no período do prefeito Palocci.

De acordo com Pinho, investigação do Ministério Público sobre um “mega-esquema de fraude”, em licitações de lixo, reuniu indícios de “conluio entre os licitantes para favorecer determinada empresa. Faziam ajuste para saber qual seria o escolhido, por qual preço”. Pinho não aceita as críticas do ministro aos promotores:

– Buratti depôs livremente, não sofreu qualquer tipo de pressão ou constrangimento.

O jornal O Estado de S. Paulo traz reportagem sobre a “república de Ribeirão Preto”, um grupo de dez colaboradores de Antonio Palocci (PT-SP), da época em que ele era prefeito de Ribeirão (SP). Agora, todos ocupam altos cargos em Brasília, nomeados por influência do ministro da Fazenda:

Juscelino Dourado, secretário da Casa Civil de Ribeirão, é o atual chefe de gabinete do Ministério da Fazenda. Donizeti Rosa, secretário de Governo em Ribeirão, diretor do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). Ademirson Ariosvaldo da Silva, chefe de gabinete em Ribeirão, secretário particular de Palocci no Ministério. Ralf Barquete, secretário do prefeito em Ribeirão, foi assessor especial da Caixa Econômica Federal até falecer. Nelson Rocha Augusto, secretário de Planejamento em Ribeirão, hoje está na presidência da distribuidora de títulos Banco do Brasil Administração de Ativos. Galeno Amorim, secretário de Cultura em Ribeirão, é o coordenador de bibliotecas públicas do Ministério da Cultura. Fernando Garcia, secretário-adjunto da Saúde em Ribeirão, coordena o programa cartão-saúde. José Ivo Vannuchi, assessor em Ribeirão na época, assessor do Ministério da Fazenda hoje. Wagner Quirici, superintendente da Ceterp, é o atual diretor-presidente do Serpro. E Margareth Palocci, mulher do ministro, assessora a Funasa (Fundação Nacional de Saúde).

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