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Cronologia da Crise:

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25/08/2005

Em Brasília, mais encrenca. Rogério Buratti depõe na CPI dos Bingos e confirma: o ministro Antonio Palocci (PT-SP) recebeu propina de R$ 50 mil mensais, durante dois anos, no período em que exerceu seu segundo mandato como prefeito de Ribeirão Preto (SP). O suborno teria sido pago pela Leão Leão, contratada para diversos serviços pela Prefeitura.

Na época, Buratti era o vice-presidente da Leão Leão. Ele tenta, porém, preservar o ministro, no que for possível. Afinal, manteve com ele um bom relacionamento por 13 anos. Diz não saber se Palocci, pessoalmente, “pegou ou não no dinheiro”. Mas acrescenta: “Eu sabia de onde o dinheiro saía, e para onde ia. No caso de Ribeirão Preto, acredito que foi entregue na sede do PT”. Do depoimento de Buratti:

– Nenhuma empresa faz contribuição, nem pequena nem grande, sem que o principal, o “patrão”, seja prefeito ou o secretário, saiba. Então acredito que Palocci soubesse. Eu nunca vi ele participar de reuniões confirmando isso, mas acredito que soubesse.

– Lamentavelmente, essa é a regra do jogo em muitos lugares. O agente municipal impõe a regra.

O caminho da propina, segundo Buratti:

– No caso da Leão Leão, o dinheiro era contabilizado no caixa da empresa como prestação de serviço, ou então retirado diretamente no caixa da empresa e escamoteado com notas compradas. Era assim que os balanços eram forjados.

Buratti relata ter sido procurado pela multinacional Gtech, com uma oferta de suborno de até R$ 16 milhões. Em troca, a renovação de um contrato com a Caixa Econômica Federal. Buratti consultou Ralf Barquete, na Caixa. Diz Buratti:

– Esse dinheiro não seria para mim, eles falaram claro que era uma oferta ao governo, eles queriam que chegasse ao governo através do Ministério da Fazenda. Transmiti essa notícia ao Ralf, como me foi passada, e um dia depois o Ralf me deu a informação de que havia conversado com o ministro ou com alguém do ministro e que o ministro não iria interferir na negociação com a Caixa em nenhuma hipótese, que a negociação deveria continuar do jeito que estava, técnica, que não havia interesse na oferta de recursos para o PT.

Acredite se quiser.

Note-se que, segundo o relato de Buratti, não houve “interesse” pela propina.

Jamais “indignação”, “repulsa” ou, ainda mais correto, a imediata abertura de inquérito para apurar a tentativa de suborno. A oferta de “até R$ 16 milhões”, portanto, não significou nada de muito grave. O depoimento sugere outra explicação para a falta de “interesse” de Palocci. O ministro parece que decidiu respeitar o “interesse” de outro ministro no negócio. A tratativa já vinha sendo tocada por Waldomiro Diniz, o assessor de José Dirceu (PT-SP) no Ministério da Casa Civil. Nas palavras de Buratti:

– Tenho informações, não posso confirmar, de que havia uma negociação em curso, principalmente voltada com o que se falava que era o grupo do Rio, o que contribuiu na campanha através do Waldomiro Diniz. Tenho a impressão de que, como eles não conseguiram trilhar o caminho através de mim, eles podem ter continuado no caminho que já existia.

O contrato Caixa Econômica Federal/Gtech foi assinado, no valor de R$ 650 milhões.

Depois de dois desmentidos, o recuo. O Ministério da Fazenda reconhece que Palocci concedeu audiência ao empresário João Vaz Guedes, presidente da Somague, um grupo português da área da construção civil, associado à Leão Leão de Ribeirão. A reunião ocorreu em 13 de maio de 2003. Buratti marcou o encontro com o chefe de gabinete de Palocci, Juscelino Dourado. Palocci vinha negando a reunião, não queria admitir a influência de Buratti em sua agenda. Diz Buratti:

– Liguei para o Juscelino, pedindo a audiência. Ele mandou eu mandar um e-mail, que a Somague mandasse o e-mail, que ele iria conversar com o ministro e, com certeza, o ministro receberia.

Em editorial, a Folha de S.Paulo manifesta preocupação com a morosidade e a ineficiência das CPIs. O jornal afirma:

“Já é mais do que hora de os membros das CPIs demonstrarem à opinião pública que não estão atraídos apenas pelo brilhareco fácil dos interrogatórios, mas também empenhados em averiguar a fundo o modus operandi da corrupção. Não é aceitável que um misto de dispersão de esforços, pouca dedicação à análise documental e manobras acomodatícias venha a produzir inquéritos parciais e inconclusos.”

A Câmara dos Deputados aprova a aposentadoria de Valdemar Costa Neto (SP), o presidente do PL. Envolvido no escândalo do mensalão, ele renunciou ao mandato de deputado para fugir de um processo de cassação, que poderia deixá-lo inelegível até 2015. O ex-deputado exerceu mandatos por 14 anos e meio. Valor da aposentadoria: R$ 5.540,00 mensais.

A ONU (Organização das Nações Unidas) divulga o relatório “A Cilada da Desigualdade”. O estudo traz dados sobre distribuição de renda, acesso à educação, saúde, terra, crédito, segurança e representação política. O documento traz dados alarmantes sobre o Brasil, apontado como o país com a pior defasagem de renda do mundo. Aqui, de acordo com o relatório da ONU, a renda per capita dos 10% mais ricos supera em 32 vezes a dos 40% mais pobres.

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