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Cronologia da Crise:

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26/08/2005

Em visita ao Ceará, Lula é recebido em Quixadá pelo prefeito Ilário Marques (PT), ameaçado de perder o mandato. Ele foi flagrado cometendo um crime eleitoral. O Ministério Público denunciou o prefeito e pediu a sua cassação. Marques exerce o terceiro mandato como prefeito. Foi acusado de distribuir chuteiras aos eleitores. A prova contra ele, porém, é uma gravação feita com câmera escondida, durante a campanha eleitoral de 2004. A fita foi analisada por peritos e não há fraude. Mostra o prefeito orientando uma eleitora grávida a procurar uma assessora dele na Prefeitura, para ganhar um enxoval. A defesa de Marques: a gravação, feita sem o consentimento do prefeito, é uma prova ilícita.

Ao lado de Lula em Quixadá, Ciro Gomes (PSB-CE), ministro da Integração Nacional. Em discurso, menciona o escândalo do mensalão. Para Ciro, o presidente é vítima daqueles que “fizeram a besteira e depois pioraram tudo mentindo, mentindo para o presidente, mentindo para o povo brasileiro, e por isso merecem pagar dobrado”. Enigmático, o ministro não cita nomes ou situações:

– Gente que tinha a confiança do presidente da República trocou as mãos pelos pés e fez uma coisa muito feia, muito suja, que só tem uma solução: temos de punir quem quer que tenha feito, por mais amigo, por mais parceiro, por mais que tenha até serviços prestados ao Brasil.

O TCE (Tribunal de Contas de São Paulo) condena em caráter definitivo o Daerp (Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto), pela contratação, sem licitação, da empreiteira Leão Leão. O negócio foi firmado em 2001, quando Antonio Palocci (PT-SP) era o prefeito da cidade. Na época, a Prefeitura justificou a dispensa de licitação e autorizou a Leão Leão a operar o aterro sanitário. Alegou uma situação de emergência, em decorrência do final do contrato anterior. O anterior tinha sido firmado, aliás, com a mesma Leão Leão. A alegação foi rejeitada pelo TCE. O contrato de emergência, por um período de três meses, teve valor de R$ 769 mil. A Leão Leão, principal doadora da campanha eleitoral do prefeito Palocci em 2000, contribuiu com R$ 150 mil.

Identificado mais um nome na lista de pessoas autorizadas por Marcos Valério a sacar dinheiro do caixa 2 do PT. É o ex-deputado Lucas Buzato (PT-SP), assessor de José Dirceu (PT-SP) até o início do governo Lula. A partir de 2003, ele ganhou um emprego federal na Fundacentro, vinculada ao Ministério do Trabalho.

Junto ao nome de Buzato, na rubrica “PT nacional” da lista de Valério, há o número do telefone celular dele. Confirmado. Buzato e a irmã, Cleuza Maria, aparecem como doadores da campanha de Dirceu a deputado federal, em 2002. Contribuíram com R$ 10 mil. Buzato minimiza a participação dele na campanha de Dirceu. Diz ter trabalhado também para as eleições dos deputados José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Vicente Paulo da Silva (PT-SP):

– Trabalhei para outros candidatos também, como o José Eduardo e o Vicentinho.

Cardozo desmente. Afirma que Buzato limitou-se a participar de um encontro com aposentados. Vicentinho nega:

– Ele nunca pisou em meu escritório. Essa afirmação dele é muito estranha.

Extrato bancário do PT na CPI dos Correios. É do período de 15 de dezembro de 2003 a 31 de maio de 2004. Mostra 23 depósitos ao partido, num total de R$ 3,2 milhões. Os depósitos têm valores redondos, e variam de R$ 20 mil a R$ 300 mil, como se fossem mensalinhos, mensalões e supermensalões. Era a época de glória da relação PT/Marcos Valério, com saques e pagamentos sem fim.

Além dos valores redondos, chama a atenção que apenas dois dos 23 depósitos têm identificação. A Folha de S.Paulo localiza um dos depositantes, Carlos Alberto Timóteo. Ele é funcionário do PT, mas não confirma a operação. O repórter Fernando Rodrigues tentou obter explicações do PT e escreveu:

“O partido alegou no início da noite que não havia sido possível checar com precisão a que se referiam os depósitos em dinheiro. A sigla também não soube explicar quem seriam os dois depositantes identificados.”

O Ministério Público do Rio de Janeiro conclui o inquérito que investigou a gravação clandestina da conversa entre o empresário de jogos Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o então presidente da Loterj, a estatal fluminense de loterias, Waldomiro Diniz. A divulgação da fita, em fevereiro de 2004, provocou um escândalo. Em conseqüência, Waldomiro pediu demissão do Ministério da Casa Civil, onde era um importante assessor de José Dirceu (PT-SP). Note-se, ele não foi demitido. Na gravação, os Waldomiro e Cachoeira aparecem negociando contratos e propina, numa reunião realizada em 2002.

A Polícia Federal fez perícia na fita e não detectou montagem ou edição fraudulenta. O diálogo trata da doação de dinheiro do empresário a campanhas eleitorais, em troca de vantagens em contratos da Loterj. Waldomiro pede uma comissão de 1% sobre os negócios aprovados. O Ministério Público requer que a Justiça obrigue o ressarcimento aos cofres públicos, aplique multa e puna com a perda dos direitos políticos.

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