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Cronologia da Crise:

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31/08/2005

Entrevista de Soraya Garcia, a assessora financeira do PT na campanha de reeleição do prefeito de Londrina (PR), Nedson Micheletti (PT), em 2004. Ela fala ao repórter José Maschio, da Folha de S.Paulo. Acusa o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), de carregar dinheiro vivo para Londrina, onde circulou num automóvel blindado da marca BMW:

– O ministro José Dirceu veio a Londrina em 18 de setembro. Era um sábado e durante a semana todo mundo no comitê financeiro reclamava de dificuldades para pagar contas de campanha. Na segunda-feira o comitê tinha R$ 300 mil em caixa. Todo esse dinheiro era em notas de R$ 100 e com lacre do Banco do Brasil. O Dirceu veio em um jatinho particular, chegou às 15h30 e foi embora antes das 17 horas.

Soraya menciona o coordenador da campanha de Micheletti, Augusto Dias Júnior. Ele confirmou, na época, que Dirceu trouxera o dinheiro. Filiada ao PT, Soraya diz ter decidido denunciar o que viu em razão do desencanto com a forma como o PT fez política em Londrina.

Mais dois envolvidos por Soraya: o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, e a irmã dele, Márcia Lopes, vereadora licenciada do PT em Londrina, nomeada para um alto cargo no governo Lula – secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social:

– Eu nunca vi o Gilberto Carvalho trazer dinheiro pessoalmente a Londrina. Mas todas as vezes que existiam dificuldades de caixa, o Augusto Dias Júnior e o Jacks falavam que era preciso ligar para ele, que ele resolveria. E o dinheiro surgia.

Jacks Aparecido Dias é o presidente do PT de Londrina. Agora, sobre a irmã de Carvalho:

– Tinha também a Márcia Lopes, que era acionada para despesas em eventos. O Jacks e o Augusto me avisavam que eventos no Buffet Carvalho eram problema da Márcia Lopes. Aconteceram vários eventos desse gênero.

Soraya envolve mais dois: o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e o presidente do PT do Paraná, deputado André Vargas. Ambos participaram de uma reunião para decidir a contratação de cabos eleitorais:

– O Jacks disse que tinha reunido 2 mil pessoas que seriam contratadas por R$ 100 ao dia. O André Vargas perguntou ao Paulo Bernardo se o número de cabos eleitorais estava bom e se havia como pagá-los. O Bernardo falou que estava bom e que existia lastro para isso. Lastro era dinheiro. Além dos três, estavam na reunião o Augusto Dias Júnior, coordenador da campanha, e os candidatos a vereador Gláudio Renato Lima e Eloir Valença. Eu assisti à reunião, estava separando dinheiro para pagar despesas de campanha.

Em depoimento à CPI dos Bingos, Juscelino Dourado, chefe de gabinete do Ministério da Fazenda, refuta acusações do advogado Rogério Buratti. Segundo Buratti, o ministro Antonio Palocci (PT-SP) recebeu propina de R$ 50 mil mensais da empreiteira Leão Leão, quando foi prefeito de Ribeirão Preto (SP).

– Não acredito, conhecendo o ministro Palocci nesses 13 anos de convívio e muito trabalho, que uma situação como essa tenha acontecido. Em nenhuma ação vi o ministro Palocci tirar proveito para si ou para sua atividade política.

– Não acredito, porque em nenhuma atividade, em nenhuma campanha, em nenhuma ação de governo, vi o ministro tratando de assuntos desse nível. Ele nunca teve negócios na sua vida, ele nunca foi uma pessoa apegada a bens.

Da mesma forma que Palocci, porém, Dourado evita um ataque a Buratti, seu padrinho de casamento e amigo, “muito próximo”. Desmente Buratti, mas nega que Buratti tenha mentido:

– Compreendo a situação, foi filmado com uniforme de presidiário, depôs algemado, compreendo seu estado psicológico e moral.

O senador José Jorge (PFL-PE) não se conforma:

– Buratti mentiu?

– Eu não gostaria de fazer um juízo.

Depoimento à CPI dos Correios. É de Enivaldo Quadrado, dono da corretora Bônus-Banval. Conta que atendeu pedidos de Marcos Valério. Mandou um funcionário fazer três retiradas de dinheiro na agência do Banco Rural da avenida Paulista, em São Paulo, num total de R$ 605 mil. Dá como exemplo um dos saques, ocorrido em março de 2004, no valor de R$ 255 mil:

– Não havia saque de cheque. Era só chegar na agência do Rural, procurar o senhor Guanabara na tesouraria, e já estava tudo separadinho. O dinheiro foi entregue integralmente ao Valério.

Segundo Quadrado, Valério pediu indicações de investimentos para fundos de pensão. Na CPI, suspeita-se de que os fundos abasteceram indiretamente o caixa 2 do PT. Faziam aplicações em instituições como o Banco Rural e o BMG, e em troca os bancos autorizavam empréstimos para as empresas de Valério, cientes de que o dinheiro não seria devolvido.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) entrega relatório à CPI dos Correios. O documento classifica de “operações atípicas”, com “movimentações incompatíveis” e “sistemáticas contabilizações de prejuízos”, as operações do fundo Geap, ligado a vários Ministérios, e o Portus, o fundo de pensão vinculado a companhias portuárias.

O Geap tem faturamento bruto anual de R$ 1,1 bilhão. Movimentou R$ 55 milhões entre janeiro de 2003 e março de 2005. Teve perdas de R$ 1,3 milhão nas transações. Além disso, efetuou dois saques suspeitos, em dinheiro vivo, nos valores de R$ 201 mil e de R$ 144 mil. O Portus tem faturamento bruto anual de R$ 1 bilhão. Girou R$ 26,5 milhões e acumulou prejuízo de R$ 747 mil.

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