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Cronologia da Crise:

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4/08/2005

Mais uma história que passa raspando em Lula. O jornal O Estado de S. Paulo faz uma revelação sobre o caixa 2 do PT. A reportagem é de Christiane Samarco. Desta vez, trata-se de R$ 2,1 milhões do valerioduto que foram parar nas mãos do líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), em 2004.

De acordo com o próprio Borba, boa parte dos R$ 2,1 milhões foi repassada a Carlos Roberto Massa, o Ratinho, apresentador do Programa do Ratinho, do SBT. Bancou uma entrevista-churrasco com Lula no programa de televisão. Foram cinco horas de gravação com o presidente, na Granja do Torto, registradas por seis câmeras do SBT. O programa foi ao ar em 30 de abril de 2004.

Borba relatou a história a dois integrantes da cúpula do PMDB. Borba intermediou o pagamento. Deu a entender que poderia renunciar ao mandato. Prefere isso a contar a verdade. Afinal, Ratinho é compadre e velho amigo. Financiou a campanha de Borba a deputado, em 2002, incluindo um jatinho que percorreu o Paraná.

O Planalto e Ratinho negam o pagamento. Da reportagem:

“Foi justamente a eleição de 2002 que aproximou Ratinho, que já foi deputado, e o candidato Lula, apoiado pelo PMDB de Borba no Paraná. Os contatos entre eles se estreitaram a ponto de a grande entrevista exclusiva ter sido acertada pelos dois em um café da manhã em Brasília, um mês antes do churrasco no Torto. A entrevista teria custado caro porque incluiu a participação especial da dupla sertaneja Bruno e Marrone, que cantou para e com Lula.”

Em depoimento à CPI do Mensalão, Roberto Jefferson (PTB-RJ) conta detalhes da operação Portugal Telecom. Foi procurado por Marcos Valério em março de 2005, que tratou do negócio com o Banco Espírito Santo, acionista da Portugal Telecom. Valério queria que Jefferson conseguisse uma transferência de US$ 600 milhões para o Espírito Santo, cuja sede fica em Portugal. O dinheiro era do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) e estava aplicado na Europa.

Além disso, Jefferson teria de influenciar a Eletrobrás. A estatal precisava reestatizar linhas de transmissão de energia. O Espírito Santo providenciaria um financiamento de R$ 3 a R$ 4 bilhões. A comissão proposta, de 3%. Isso renderia uma bolada entre R$ 90 milhões e R$ 120 milhões, dinheiro para PT e PTB. Na época, o IRB e a Eletrobrás estavam na área de influência do PTB.

Havia outro negócio, proposto pelo então ministro José Dirceu (PT-SP). Renderia R$ 24 milhões por fora, para PT e PTB. Esse o motivo da viagem a Lisboa de Valério e do tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri. Rogério Tolentino, sócio de Valério, também foi.

Segundo Jefferson, Dirceu disse que a Portugal Telecom oferecera a bolada em nome de uma antecipação de recursos para futuras campanhas eleitorais. Jefferson afirma que Valério, Tolentino e Delúbio Soares viajavam com freqüência a Portugal.

Em seu depoimento, Jefferson aponta a origem da crise política: dificuldades do PT e do PTB para pagar dívidas:

– Se as operações tivessem dado certo, as crises estariam sanadas. As tensões seriam superadas.

Para ele, os problemas começaram quando decidiu contar a Lula que havia mensalões. Jefferson acusa o ministro da Justiça:

– Passaram a perseguir a mim e ao PTB. O ministro Márcio Thomaz Bastos disse que divulgaria corrupção em três órgãos administrados pelo PTB, o IRB, os Correios e a Eletronorte.

Jefferson acrescenta:

– Procurei o José Dirceu e pedi que ele não “viajasse”, mas ele não me deu ouvidos. Depois fiquei sabendo que os arapongas da Agência Brasileira de Inteligência estavam lá nos Correios, querendo me pegar.

Um acordo na CPI dos Correios impede a abertura dos sigilos bancários e fiscais de 11 fundos de pensão de empresas estatais. A alegação: a investigação iria gerar um clima de instabilidade na economia, e prejudicar investimentos no Brasil. Deputados e senadores abrem mão de apurar irregularidades num veio importante de abastecimento do caixa 2. Do deputado Maurício Rands (PT-PE):

– Os investimentos dos fundos são ativos da escala de bilhões. Temos de ter responsabilidade com a economia do país.

Agora, fica tudo restrito a um pedido de informações à Secretaria de Previdência Complementar, do Ministério da Previdência Social.

A CPI dos Correios ouve o policial David Rodrigues Alves, autorizado a sacar R$ 6,5 milhões das contas das empresas de Marcos Valério, em agências do Banco Rural em Belo Horizonte.

O policial confirma: o dinheiro ficava separado no banco, em maços lacrados. Transportava os valores para a SMPB, em caixas de sapato, camisa ou celular, dependendo da quantia. Fazia até três viagens por dia, carregando de R$ 50 mil a R$ 150 mil. Em troca, recebia de R$ 50 a R$ 100 por viagem, mais o dinheiro do táxi.

Na CPI dos Bingos, Antonio Carlos Lino da Rocha, ex-presidente da multinacional Gtech no Brasil, e Marcelo Rovai, ex-diretor de marketing da empresa. Os dois acusam o advogado Rogério Buratti e Waldomiro Diniz, o ex-subchefe do Ministério da Casa Civil. Ambos tentaram extorquir R$ 20 milhões da Gtech, em abril de 2003. A exigência caiu depois para R$ 6 milhões. Em troca, o governo facilitaria a renovação de um contrato da multinacional norte-americana com a Caixa Econômica Federal. Buratti foi secretário de Governo do ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), quando ele era prefeito de Ribeirão Preto (SP).

A história de Marcelo Rovai: ele aceitou conversar com Waldomiro Diniz, porque lhe informaram que o assessor de José Dirceu (PT-SP) era o terceiro homem mais importante do governo. Quanto a Buratti, era poderoso o suficiente para impedir a assinatura do contrato. Afinal, já assessorara três petistas de peso: Palocci, Dirceu e o deputado João Paulo Cunha (SP).

Os ex-dirigentes da Gtech negam o pagamento da propina. Senadores acreditam que, para evitar o rompimento do contrato de processamento de loterias, o dinheiro foi pago, e a prorrogação, um negócio de R$ 650 milhões, assinada. Não ficaram por aí as relações Gtech/governo Lula. Houve a criação de mais um jogo, a Loto Fácil, e o aumento de 50% no preço de outro, a Mega Sena, que também favoreceram a Gtech.

Outra indicação do suborno: as ligações telefônicas entre Rovai e Buratti. O ex-diretor da multinacional negou os telefonemas, mas a quebra de sigilo telefônico mostrou que os dois se falavam com freqüência. A Caixa Econômica Federal prorrogou contrato de US$ 100 milhões com a Gtech por mais um ano.

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