Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

anterior | próxima

84
5/08/2005

A operação Portugal Telecom. O jornal português Público informa que Ricardo Espírito Santo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, confirmou um encontro mantido com Marcos Valério em Lisboa, no final de 2004. Na audiência, o banqueiro comentou que tinha dificuldade para marcar uma reunião com altos funcionários do governo Lula.

De volta ao Brasil, Valério marcou o encontro, sem problemas. Em dois dias estava agendado. A reunião ocorreu em 11 de janeiro de 2005. Ricardo Espírito Santo, representante do banco português no Brasil, foi recebido pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP). Valério também estava na audiência. O banqueiro e Valério confirmaram, embora Dirceu não tenha conseguido se lembrar da presença de Valério.

Outro diário português, o Jornal de Negócios, publica entrevista com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Ele também se reuniu com Valério, “grande empresário de Minas Gerais”, em Lisboa. Em outubro de 2004, em audiência oficial realizada no Palácio do Planalto, foi a vez do encontro de Lula com Miguel Horta e Costa.

Em entrevista ao repórter Expedito Filho, de O Estado de S.Paulo, Valério descreve Dirceu como o “avalista político” dos empréstimos bancários do Banco Rural e do BMG ao PT:

– Por que você acha que os bancos emprestaram? Algum banqueiro deste país daria o aval para Delúbio e Valério? Os bancos só deram aval porque sabiam que por trás tinha um conforto, uma garantia.

Segundo Valério, Delúbio Soares avisava Dirceu sobre as transferências de dinheiro do valerioduto:

– Delúbio tinha fidelidade canina e não fazia nada sem conversar com Dirceu.

Mais bastidores do mensalão, na versão de Valério:

– Nos dois últimos anos, eu fui a pessoa mais íntima do Delúbio. Ele me disse que Zé Dirceu sabia das dívidas do partido, que Zé Dirceu sabia dos compromissos com os outros partidos da base. Delúbio assumiu mais compromissos do que realmente poderia. Além de Zé Dirceu, todo mundo na cúpula do PT sabia dos empréstimos de Delúbio e das transferências para diretórios do PT e para partidos aliados.

– Eu via a maneira como Silvinho Pereira respeitava o Delúbio, o Delúbio ao Genoino, e todos ao Dirceu.

Tudo começou no segundo turno da eleição para presidente, em 2002. Valério se aproximou de um velho amigo, o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), conterrâneo dele da cidade de Curvelo (MG). Conheceu Dirceu e a cúpula do PT. As operações de empréstimo e transferências começaram depois da eleição:

– No PP, os saques eram autorizados para João Cláudio Genu, chefe do gabinete da liderança, e distribuídos para os deputados pelo líder, deputado José Janene. O PL, primeiro partido a receber, tinha como distribuidor o deputado Valdemar Costa Neto, embora os saques fossem feitos pelo tesoureiro Jacinto Lamas. No PMDB, quem sacava era Maria Sebastiana, e o Borba distribuía.

Valério se lembra de conversa que ouviu na sede do PT em Brasília, no edifício Varig. Era sobre uma discussão entre o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e o tesoureiro Delúbio Soares:

– Jefferson queria grana, chantageou e ameaçou o Delúbio. Ele me disse: “Vamos ter problemas com o Roberto Jefferson”.

Cerca de mil manifestantes participam de ato de protesto contra a corrupção no centro de Fortaleza, fantasiados de palhaço e vestindo cuecas gigantes. Em São Paulo, 600 reúnem-se em protesto “contra a política econômica, as alianças espúrias e a corrupção”. A bancada do PT no Senado divulga documento:

“As denúncias de corrupção, de caixa 2 e de desrespeito à causa pública atingiram vários integrantes da estrutura do PT e do governo federal. (...) A crise abala a esperança de quem acredita na possibilidade e na necessidade de se implantar no Brasil uma administração viável politicamente, mas ao mesmo tempo amplamente democrática, popular, transparente e transformadora.”

Do senador Saturnino Braga (PT-RJ):

– Elegemos um homem que não tem competência para gerir o país.

A assessoria jurídica da Câmara dos Deputados emite parecer. Entende como cabível a abertura de processo para a perda do mandato de deputado de José Dirceu (PT-SP). O ex-ministro argumentou que não existe base jurídica para a cassação, pois as acusações de irregularidades contra ele são do período em que estava afastado da Câmara dos Deputados, exercendo o cargo de ministro da Casa Civil de Lula. Do consultor José Menck:

“O deputado investido no cargo de ministro continua deputado, não perdendo o mandato. Assim sendo, fica sujeito a todas as restrições e impedimentos decorrentes do mandato de parlamentar.”

O publicitário Duda Mendonça emite nota para repudiar, “com veemência e indignação”, o que chama de “tentativas absurdas e absolutamente improcedentes” de Marcos Valério. Duda não aceita que ele e a sócia, Zilmar Fernandes Silveira, sejam envolvidos no “inexplicável esquema de distribuição de dinheiro”. Duda foi apontado como o destinatário de R$ 15,5 milhões, por meio de cinco cheques lançados entre fevereiro e novembro de 2003.

A Polícia Federal indicia o coordenador financeiro da campanha de Fernando Pimentel (PT) a prefeito de Belo Horizonte. Chamado a depor, Rodrigo Barroso Fernandes não se manifesta sobre os R$ 274 mil que recebeu, por meio do caixa 2 do PT. Com o nome na lista dos recebedores de dinheiro do valerioduto, Fernandes já havia pedido demissão da Prefeitura de Belo Horizonte.

anterior | próxima | início