Como ler:

Abertura


Cronologia da Crise:

Setembro de 2005

1.09.2005

Em sessão conjunta, as CPIs dos Correios e do Mensalão aprovam, por unanimidade, relatório denunciando 18 deputados federais por “um amplo conjunto de crimes políticos”. O documento solicita a abertura de processos de cassação de mandatos contra todos os citados. Os parlamentares fazem parte da lista de beneficiários dos saques das contas de Marcos Valério. Entre os crimes, improbidade administrativa, corrupção ativa e passiva, prevaricação, infração à legislação eleitoral e sonegação fiscal. O relatório vai para o Conselho de Ética da Câmara. Do relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR):

continua
2.09.2005

Com a reportagem de capa “O mensalinho de Severino”, a revista Veja denuncia um esquema pelo qual o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), cobrou propina de R$ 10 mil mensais, de março a novembro de 2003, do empresário Sebastião Augusto Buani, concessionário do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar do prédio da Câmara.

continua
3.09.2005

A Folha de S.Paulo publica detalhes da reunião do Campo Majoritário do PT realizada na véspera, em São Paulo. A repórter Catia Seabra obtém informações dos bastidores do encontro. O destaque foi o discurso do deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Ele é um dos acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Fez um desabafo “repleto de ameaças veladas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma a reportagem. Reclamou de ingratidão e hipocrisia:

continua
5.09.2005

Lula sai em defesa do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Pede ajuda ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Quer evitar que Severino seja obrigado a deixar a presidência da Câmara. Afinal, o deputado pernambucano se revelou um fiel aliado do governo na crise política. O ministro Jaques Wagner (PT-BA), das Relações Institucionais, também recebe orientação do presidente para atuar ao lado de Severino, contra o afastamento pretendido pela oposição. Ao longo do dia, Wagner conversa com dirigentes petistas e integrantes da base aliada do governo. Pede a todos para que não critiquem Severino.

continua
6.09.2005

Em depoimento à Polícia Federal, Izeílton Carvalho de Souza, ex-gerente do restaurante Fiorella, confirma: o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), recebeu propina de R$ 10 mil mensais em 2003, para que as portas do restaurante ficassem abertas. O dinheiro era entregue em envelopes ou em cheques. O pagamento ficou a cargo da diretora do restaurante, Gisele Buani, filha do dono, Sebastião Buani.

continua
7.09.2005

A ONU (Organização das Nações Unidas) divulga, em Nova York, o Relatório Mundial do Desenvolvimento Humano de 2005. O Brasil, uma das 15 maiores economias do mundo, ocupa o 63° lugar entre 177 países. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é calculado por meio de medições que levam em conta expectativa de vida, taxas de alfabetização, taxas de matrículas escolares e renda per capita.

continua
8.09.2005

O governo Lula trabalha com a expectativa de reverter a situação e preservar o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE). O ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, emite nota endereçada ao Painel do Leitor do jornal Folha de S.Paulo, para negar a interferência do governo na crise do mensalinho. O texto é assinado pela assessora Sonia Carneiro:

continua
9.09.2005

Após a constatação de diversas irregularidades por parte do Ministério Público, o governador do Acre, Jorge Viana (PT), decide suspender contrato de publicidade com a empresa Asa Comunicações, de Belo Horizonte. O contrato foi reajustado desde 2001 por 15 aditivos. O valor inicial, de R$ 4 milhões, chegou aos R$ 29,4 milhões, em 2005. Viana recusou-se a mostrar à Folha de S.Paulo os aditivos dos contratos, publicados no Diário Oficial do Acre com meses de atraso, contrariando os prazos legais.

continua
10.09.2005

A revista Isto É denuncia que parte do dinheiro pago pelo PT ao publicitário Duda Mendonça veio de recursos públicos da Prefeitura de Belo Horizonte. Duda trabalhou na campanha de reeleição do prefeito Fernando Pimentel (PT), em 2004. De acordo com o repórter Amaury Ribeiro Jr., convênio no valor de R$ 14 milhões foi assinado entre a administração municipal e o CDL (Clube dos Diretores Lojistas de Belo Horizonte), para comprar e instalar cerca de 300 câmeras de segurança e filmar as ruas centrais da capital mineira.

continua
11.09.2005

O ministro Jaques Wagner (PT-BA), das Relações Institucionais, reúne-se reservadamente com o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). O encontro ocorre na casa de Severino, antes de uma entrevista concedida pelo presidente da Câmara. Durante o encontro, Wagner pede-lhe que tenha cautela nas declarações aos jornalistas. Quer evitar desmentidos posteriores. Palavras de Wagner, segundo a assessoria:

continua
12.09.2005

Renuncia o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ). Ele abre mão do mandato para evitar um processo de cassação e a eventual inelegibilidade. É acusado de ter recebido R$ 400 mil do valerioduto. Nega. Diz ter sacado R$ 250 mil, e apenas para quitar dívidas referentes ao segundo turno da campanha que elegeu Lula em 2002. Na época, Rodrigues era o presidente do PL no Rio. Do agora ex-deputado Rodrigues, referindo-se ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto (SP), que também renunciou:

continua
13.09.2005

O Conselho de Ética da Câmara formaliza pedido de abertura de processo contra o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Assinam o documento PSDB, PFL, PV, PDT e PPS. A lista das sete irregularidades cometidas por Severino: assinatura de documento sem validade em benefício do restaurante Fiorella; recebimento de mensalinhos; concussão contra o empresário Sebastião Buani; ameaças de retaliação a parlamentares que defenderam o seu afastamento; defesa de penas brandas para envolvidos no escândalo do mensalão; defesa de financiamento irregular pelo PP; e tentativa de segurar processos de cassação de deputados mensaleiros. O documento afirma:

continua
14.09.2005

A Câmara dos Deputados cassa Roberto Jefferson (PTB-RJ). A interrupção do mandato do deputado autor da denuncia do mensalão é endossada por 313 parlamentares. Outros 156 votam contra. Há ainda 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos. O petebista fica inelegível até 2015. Em discurso de 42 minutos, Jefferson acusa Lula de relapso. “Se ele não praticou o crime por ação, pelo menos por omissão”. Jefferson não aceita a acusação de que não tomou providências, assim que soube do esquema de pagamento da propina a deputados:

continua
15.09.2005

O Ministério Público divulga os depoimentos de duas testemunhas sigilosas do caso Santo André. Uma empregada doméstica que trabalhou no apartamento de Celso Daniel (PT) afirmou que, oito meses antes do assassinato do prefeito, encontrou três sacos plásticos de supermercado num canto da lavanderia, abarrotados de maços de dinheiro presos por elásticos, em notas de R$ 10, R$ 50 e R$ 100. Os sacos estavam sob um lençol branco. Alguns dias depois, tudo foi retirado de lá.

continua
16.09.2005

Depoimento em juízo. Um dos homens presos pelo assassinato de Celso Daniel (PT), prefeito de Santo André (SP), afirma que o ex-segurança e empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sérgio Sombra, prometeu R$ 1 milhão pelo crime. Relata que no dia do seqüestro, em 18 de janeiro de 2002, a quadrilha recebeu ligação de Sombra, conforme o que fora acertado, com o aviso de que ele e o prefeito haviam saído do restaurante onde tinham jantado.

continua
17.09.2005

A revista Isto É publica a história do super-mensalão de R$ 7,7 milhões do deputado José Janene (PR), líder do PP e um dos expoentes da base aliada do governo Lula. Janene teria recebido o “mensalaço” em parceria com o então prefeito de Londrina (PR), Antônio Belinati. Ele foi cassado e preso em 2002. O esquema envolveria a Companhia Municipal de Urbanização e, por meio de 11 processos e 23 cartas-convites, teriam sido desviados os R$ 7,7 milhões em obras e serviços fictícios.

continua
18.09.2005

O PT realiza eleições internas para escolher a nova direção do partido. O ex-presidente interino, Tarso Genro (RS), não aceitou ser o candidato. Ele se manifestou contrário à permanência do deputado José Dirceu (SP) na chapa do Campo Majoritário, corrente política que abriga, entre outros, Lula, o ex-presidente do PT, José Genoino (SP), e o ex-tesoureiro Delúbio Soares. O novo presidente da legenda, eleito em segundo turno, é o ex-ministro Ricardo Berzoini (SP), do Campo Majoritário. Para ele, “não há divisão, o Campo Majoritário tem uma posição unitária”.

continua
19.09.2005

Lula reúne-se a portas fechadas com o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). O encontro leva uma hora. O Palácio do Planalto não permite que a reunião seja fotografada. Severino entrou pela garagem, para evitar ser visto em público. Do que transpira do encontro, Severino recebeu garantias do presidente de que o ministro das Cidades, Márcio Fortes, será mantido no cargo. Fortes foi uma indicação de Severino.

continua
20.09.2005

Em depoimento conjunto às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, acusa um conluio entre a corretora Bônus-Banval, Marcos Valério, PT e PP. Condenado a 25 anos por lavagem de dinheiro, Toninho da Barcelona chega à sessão algemado e protegido por forte esquema de segurança. Ele levanta dúvidas sobre os empréstimos que Valério e Delúbio Soares dizem ter tomado nos bancos Rural e BMG. Diz o doleiro:

continua
21.09.2005

Renuncia o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Ao abrir mão do mandato, evita a inelegibilidade até 2015 em caso de cassação. “Voltarei. O povo me absolverá”, diz ele, ao anunciar a intenção de disputar as eleições de 2006. Em discurso, Severino trata de atacar os jornalistas:

continua
22.09.2005

Em depoimento ao juiz Paulo Alberto Sarno, da 2ª Vara Federal de São Paulo, o doleiro Vivaldo Alves, o Birigüi, acusa o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PP), de ter enviado ilegalmente US$ 161 milhões para os Estados Unidos. Birigüi admite ter aberto em 1998 a conta Chanani, no Safra National Bank, em Nova York, mas diz que a movimentação era feita por Maluf.

continua
23.09.2005

O governo Lula anuncia a liberação de R$ 500 milhões para obras e outras despesas incluídas por deputados e senadores no orçamento federal. São as chamadas emendas parlamentares individuais. O dinheiro beneficia os redutos eleitorais de deputados e senadores. O anúncio é feito por Paulo Bernardo (PT-PR), ministro do Planejamento, durante a divulgação de um relatório de rotina sobre a execução orçamentária. Tem finalidade estratégica. Lula decide abrir o cofre para assegurar a eleição de Aldo Rebelo (PC do B-SP) à presidência da Câmara dos Deputados.

continua
24.09.2005

A revista Isto É publica entrevista com Soraya Garcia, a assessora financeira do PT de Londrina (PR) durante as eleições municipais de 2004. Durante a campanha, ela trabalhou no comitê de reeleição do prefeito Nedson Micheletti (PT). A reportagem de Luiz Cláudio Cunha trata do esquema de aluguéis de automóveis para a campanha política. Soraya denuncia 17 notas em nome da Yaktur, uma empresa de turismo de São Paulo, e da Gtech, a multinacional norte-americana envolvida no escândalo da renovação de um contrato de R$ 650 milhões com a Caixa Econômica Federal. Existe suspeita de extorsão e cobrança de propina na assinatura do contrato com a Gtech, crimes dos quais teriam participado dois dos mais importantes personagens da crise política, Waldomiro Diniz e Rogério Buratti.

continua
25.09.2005

O jornal Folha de S.Paulo publica entrevista do ex-ministro e deputado José Dirceu (PT-SP), concedida à repórter Mônica Bergamo. A jornalista pergunta quem são os responsáveis pela crise política no PT. Diz Dirceu:

continua
26.09.2005

Debandada. Anunciam o afastamento do PT os militantes históricos Hélio Bicudo e Plínio de Arruda Sampaio. Deixam o partido, ainda, os deputados Orlando Fantazzini (SP), Ivan Valente (SP), Chico Alencar (RJ) e Maria José Maninha (DF). Com a exceção de Hélio Bicudo, todos vão para o PSOL. Também se desliga do PT o deputado Miro Teixeira (RJ). Vai para o PDT.

continua
27.09.2005

O governo joga pesado para eleger o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) presidente da Câmara. Promete liberar até R$ 1 bilhão para o ministro Alfredo Nascimento (PL-AM), dos Transportes, aplicar em obras. E anuncia a devolução de cargos importantes ao PTB, retirados do partido depois que Roberto Jefferson denunciou o escândalo do mensalão.

continua
28.09.2005

Em eleição apertadíssima, Aldo Rebelo (PC do B-SP) é eleito presidente da Câmara dos Deputados. Candidato de Lula, obtém 258 votos. O da oposição, deputado José Thomaz Nono (PFL-AL), recebe 243, apenas 15 votos a menos. Para garantir a vitória do governista, o Palácio do Planalto empreendeu um toma-lá-dá-cá nunca visto. No total, prometeu liberar mais de R$ 1,5 bilhão, incluindo R$ 680 milhões já autorizados para o Ministério dos Transportes, comandado pelo PL, R$ 335 milhões para o ministro Walfrido Mares Guia (PTB-MG), do Turismo, R$ 500 milhões em emendas parlamentares e R$ 18 milhões ao prefeito João Henrique (PDT), de Salvador, para obras do metrô local.

continua
29.09.2005

A base aliada abandona o plenário e o governo impede a CPI dos Correios de quebrar o sigilo bancário de 11 corretoras, todas acusadas de causar prejuízos a fundos de pensão em operações de compra e venda de títulos públicos. Sem quorum, não há meios para deliberar. Faz 15 dias que a comissão não vota por falta de parlamentares. Em boa parte desse período, o próprio presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), esteve ausente de Brasília. A justificativa da oposição para a quebra dos sigilos bancários das corretoras é o prejuízo dos fundos de pensão nessas operações, estimado em R$ 9 milhões. Suspeita-se que o dinheiro financiou o caixa 2 do PT.

continua
30.09.2005

A CGU (Controladoria-Geral da União) divulga a conclusão de um levantamento segundo o qual 75% dos municípios brasileiros fiscalizados em 2003 e 2004 apresentaram graves irregularidades administrativas. Os problemas detectados vão de fraudes em licitações até o uso de notas fiscais falsas e desvio de recursos do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental). Os auditores da CGU rastrearam R$ 4,2 bilhões em 660 das 921 cidades analisadas.

continua
1.10.2005

A revista Época traz à tona mais um jipe misterioso na história do PT. Desta vez, um Mitsubishi Pajero, modelo TR4, que custou R$ 70,5 mil. A reportagem de Matheus Machado relata que, até o estouro do escândalo do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) podia ser visto circulando com o carro em Brasília. Quando não estava com Cunha, o carro ficava guardado na garagem do apartamento funcional do deputado. Depois, o veículo sumiu.

continua