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Cronologia da Crise:

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14/09/2005

A Câmara dos Deputados cassa Roberto Jefferson (PTB-RJ). A interrupção do mandato do deputado autor da denuncia do mensalão é endossada por 313 parlamentares. Outros 156 votam contra. Há ainda 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos. O petebista fica inelegível até 2015. Em discurso de 42 minutos, Jefferson acusa Lula de relapso. “Se ele não praticou o crime por ação, pelo menos por omissão”. Jefferson não aceita a acusação de que não tomou providências, assim que soube do esquema de pagamento da propina a deputados:

– Fiz uma peregrinação. Ao José Dirceu, como ministro-chefe da Casa Civil, falei isso umas dez vezes. Falei ao Ciro. Depois nós descobrimos que o Márcio, secretário-executivo do Ministério, tinha recebido do Marcos Valério R$ 500 mil para saldar contas de campanha. Mas falei ao Ciro, com lealdade. Ele disse: “Eu não acredito nisso”. Falei ao ministro Miro Teixeira. Falei com o presidente.

Com a língua afiada, sua melhor característica, Jefferson ataca:

– Tirei a roupa do rei, mostrei ao Brasil quem são esses fariseus, mostrei ao Brasil o que é o governo Lula.

– Rufiões da pátria, proxenetas do parlamento. Este é o governo mais corrupto que testemunhei nos meus 23 anos de mandato, o mais escandaloso processo de aluguel de parlamentar.

– Meu conceito do presidente é que ele é malandro, preguiçoso. O negócio dele é passear de avião. Governar que é bom, ele não gosta.

Jefferson não perdoa o ex-ministro José Dirceu (PT-SP):

– O PT não tem projeto de governo. Eu quero dizer o PT, esse Campo Majoritário e essa cúpula que assaltou o Brasil. Rato magro, hem? Quem nunca comeu mel quando come se lambuza. Rato magro. PC Farias é aprendiz de feiticeiro ante essa gente que assaltou o Brasil. Rato magro. Mas eu nunca bati no peito para dizer que eu sou o paladino da ética e o campeão olímpico da moralidade. Todo fariseu e farsante emprega culpa ao adversário como se fosse um biombo para esconder os seus defeitos.

– O presidente escolheu o ministro José Dirceu como uma espécie de Jeany Mary Corner, o rufião do Planalto, para alugar prostitutas, algo que ele entendia poder fazer na Câmara dos Deputados. Tratou esta Casa como se fôssemos um prostíbulo.

O empresário Sebastião Buani apresenta prova contra o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Entrega à Polícia Federal cópia de um cheque de R$ 7.500,00, em nome de Gabriela Kênia Martins, secretária de Severino. O dinheiro foi sacado em 30 de julho de 2002 e é indício forte da extorsão, um crime de concussão, praticado pelo deputado. Diz Buani:

– Este cheque foi entregue ao deputado no restaurante. Ele ia quase diariamente almoçar e ali dava o aperto. “Não esquece que hoje nós temos uns compromissos, não vai me deixar na mão”. Ele sempre dava um toque. Não deixa de ser um arrocho.

Naquele mês, período de férias no Congresso, o empresário havia alegado dificuldades para repassar o combinado a Severino, em razão do baixo movimento no restaurante. Mas o deputado não quis nem saber. Falou da seguinte forma, segundo Buani:

– Você tira da sua conta na Suíça.

Na Polícia Federal, a secretária Gabriela Kênia Martins confirma o saque de R$ 7.500,00. E, como última tentativa de livrar Severino, apresenta a versão de que o dinheiro foi uma doação de Buani ao filho do deputado, Severino Cavalcanti Ferreira Júnior, morto em acidente de trânsito. Naquele ano, ele disputou uma vaga de deputado na Assembléia Legislativa de Pernambuco. Buani nega.

Na hoste do PT, o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), fala da situação de Severino:

– Houve aquecimento da temperatura política e a situação dele piorou. Quanto a ser insustentável, é preciso enfatizar que temos de seguir todos os caminhos legais.

E acrescenta:

– Severino não aceita a hipótese de não trabalhar para esclarecer a verdade.

A verdade, do mesmo dia 30 de julho de 2002: a secretária Gabriela Kênia Martins transferiu R$ 6.800,00 para a conta de Severino, após fazer a retirada dos R$ 7.500,00. Severino pegou o dinheiro de Buani.

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Nelson Jobim, concede liminar e impede o Conselho de Ética da Câmara de abrir processos contra seis deputados do PT, todos acusados de envolvimento no escândalo do mensalão. Argumenta que os parlamentares não tiveram direito a defesa prévia. Na prática, a decisão dá mais tempo para os deputados renunciarem aos mandatos, a fim de preservar os direitos políticos. Os beneficiados: Paulo Rocha (PA), Josias Gomes (BA), João Magno (MG), João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP) e José Mentor (SP).

A boa notícia se espalha e, sem perder tempo, outros deputados mensaleiros também entram com o mesmo mandado no STF. São eles: José Dirceu (PT-SP), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Vadão Gomes (PP-SP), José Borba (PMDB-PR) e Wanderval Santos (PL-SP).

Com base na liminar do STF, a Mesa Diretora da Câmara decide dar mais tempo para a defesa dos deputados acusados. Adia por cinco sessões a abertura dos processos de cassação.

Em depoimento à CPI do Mensalão, o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE), afirma que o chefe de gabinete da liderança do partido, João Cláudio Genu, só sacou R$ 700 mil das contas de Marcos Valério. Segundo Valério, Genu recebeu R$ 4,1 milhões, entre setembro de 2003 e julho de 2004. Diz Corrêa:

– Nenhum outro saque feito por Genu nas agências do Banco Rural era do conhecimento do partido, nem foi autorizado pelo partido. Se houve saque, o dinheiro foi para pessoas que eu não conheço.

O dinheiro, pelo jeito, sumiu. Agora, a explicação de Corrêa para os R$ 700 mil:

– O Genu foi duas vezes ao Banco Rural sacar dinheiro para pagar os serviços do advogado Paulo Goyaz, que defendeu o deputado Ronivon Santiago em 36 ações.

Ronivon Santiago é do PP do Acre. Corrêa informa que o dinheiro não teve registro nas contas do partido. Nem quitou dívidas de campanha eleitoral, como se vê..

– Não foi contabilizado porque o PT até hoje não esclareceu quem era o doador.

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