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Cronologia da Crise:

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2/09/2005

Com a reportagem de capa “O mensalinho de Severino”, a revista Veja denuncia um esquema pelo qual o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), cobrou propina de R$ 10 mil mensais, de março a novembro de 2003, do empresário Sebastião Augusto Buani, concessionário do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar do prédio da Câmara.

O repórter Alexandre Oltramari teve acesso ao texto no qual o empresário relata a extorsão. Sebastião Buani afirma que entregava envelopes com o dinheiro exigido pelo deputado a duas secretárias de Severino, Gabriela Kênia Martins e Rucely Paula Camacho. Algumas vezes, a propina ia diretamente às mãos de Severino. Um cheque foi descontado pelo motorista do deputado, numa agência do banco Bradesco. A gerente Jane de Albuquerque confirmou a operação bancária.

Em agosto, Buani, em dificuldade, despachou um envelope com apenas R$ 6 mil. A reação:

– Levei uma bronca do deputado por telefone.

A partir de dezembro de 2003, o empresário não conseguiu mais pagar a propina. Em dois meses, perdeu seis das oito concessões de restaurantes e lanchonetes que tinha na Câmara. Veja procurou o presidente da Câmara. Reação de Severino, dando tapas na mesa, ao lado de um advogado, três assessores de imprensa e dois funcionários:

– Isso é uma mentira. Ele é um canalha, safado! Esse homem não merece as calças que veste.

De Veja:

“A defesa de Severino tem muito adjetivo, e pouca substância. O contrato de concessão de Buani para explorar o restaurante encerrou-se em janeiro de 2003, depois da quarta e necessariamente última prorrogação. Buani, no entanto, não foi convidado a se retirar. O deputado Severino mandou que fosse feita uma licitação para escolher o novo concessionário, mas a licitação não se realizou, e ficou tudo por isso mesmo. De tal modo que Buani operou seu restaurante ao longo de todo o ano de 2003 sem nenhum amparo legal.”

O esquema teria começado no início de 2002. Buani queria prorrogar a licença de funcionamento para o restaurante. Procurou Severino, na época o primeiro-secretário da Câmara e responsável pela administração da Casa. O empresário foi obrigado a desembolsar R$ 40 mil, dinheiro que foi dividido, segundo ele, entre Severino e o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE). Obteve a prorrogação. A reportagem afirma:

“É o documento mais escandaloso e comprometedor de toda essa história. Ali, num clandestino ato de ofício, Severino prorroga a licença de Buani até 2005. Severino não tinha poderes para isso e, ao fazê-lo, produziu uma prova cabal das relações promíscuas que manteve com Buani.”

Explicação de Severino:

– Eu sou um homem experimentado. Tenho mais de 40 anos de vida pública, mas não tenho a menor lembrança de ter assinado esse documento dando a prorrogação. O que pode ter acontecido é ter juntado esse negócio, ou alguém ter botado no meio dos documentos e eu ter assinado sem ler.

Veja também conta o episódio da nomeação do deputado Augusto Nardes (PP-RS) como ministro do TCU (Tribunal de Contas da União). Aliado de Severino, Nardes é suspeito de crime eleitoral, peculato e concussão.

Quando soube da ficha do protegido do presidente da Câmara, Adylson Motta, o presidente do TCU, pediu a Lula para não sancionar a nomeação, devido à “inobservância do requisito constitucional da reputação ilibada e idoneidade moral”.

Mas Lula assinou.

Os caminhos tortos da política. Entrevista coletiva do relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). Ele procura justificar o motivo pelo qual entende que Lula vai escapar de um processo de cassação do mandato. Segundo Serraglio, a conclusão das investigações de um eventual processo contra Lula só se daria durante o período da campanha eleitoral de 2006 e, por isso, não faria sentido. Uma questão de conveniência, portanto. Não importa o grau do descalabro, nem a revelação do maior escândalo de corrupção governamental da história do Brasil. De Serraglio:

– Se o Congresso fosse partir para o julgamento político do presidente, demoraria até quase o tempo das eleições. Então, por que uma ruptura anormal, quando é possível uma alteração normal? Não atropelar o impeachment agora é uma opção política.

No raciocínio de Serraglio, não importa se o presidente cometeu crime de responsabilidade ou não. Da mesma forma, não importa se Lula sabia da farta distribuição de dinheiro feita por Delúbio Soares e Marcos Valério. Não importa tampouco se Lula foi o grande beneficiário da estratégia de pagamento dos mensalões, operada e conduzida por José Dirceu (PT-SP), a partir da Casa Civil.

Para Serraglio, parece questão menor o esquema do mensalão ter proporcionado apoio e maioria no Congresso ao governo Lula. Nada disso importa, apesar de o relator da CPI dos Correios apontar que o “descrédito do presidente” seria suficiente para o Congresso adotar uma conduta “mais drástica”, independentemente de provas:

– Ainda que ele tivesse envolvimento direto, não há clima para o impeachment na opinião pública.

O exemplo de Serraglio: se não for conveniente, não precisa punir. Ou, em outras palavras, o crime compensa.

Pobre Brasil.

Chega ao noticiário o caixa 2 do PT em Rondônia, com a divulgação do teor de uma carta registrada num cartório de Porto Velho, assinada pelos presidentes dos diretórios de São Francisco do Guaporé (RO), João Carlos Teodoro, e de Alvorada do Oeste (RO), Maria Aparecida Félix. O documento revela que a presidente do PT de Rondônia, senadora Fátima Cleide, determinou a assessores do partido que percorressem o Estado durante a campanha eleitoral de 2004, para oferecer de R$ 30 mil a R$ 40 mil por candidato. No total, teriam sido distribuídos R$ 650 mil, dinheiro providenciado pelo tesoureiro Delúbio Soares, para as campanhas de 20 prefeitos.

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