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Cronologia da Crise:

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21/09/2005

Renuncia o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). Ao abrir mão do mandato, evita a inelegibilidade até 2015 em caso de cassação. “Voltarei. O povo me absolverá”, diz ele, ao anunciar a intenção de disputar as eleições de 2006. Em discurso, Severino trata de atacar os jornalistas:

– Sempre defendi a liberdade de imprensa. Mas, em nosso país, liberdade de imprensa tem sido a porta aberta para suspeitas sem comprovação, para acusações sem provas, para a destruição de reputações. Liberdade de imprensa, sim, mas o rigor da lei para os que enxovalham sem qualquer limite a honra e a dignidade alheias.

Das galerias da Câmara, os estudantes gritam:

– Vai embora, Severino, seu corrupto!

Os seguranças entram em ação, para esvaziar o recinto. Os estudantes não perdoam:

– É mensalinho, é mensalão, queremos verbas para a educação.

E mais, em ritmo de chacota:

– Congresso do mensalão, não vai prender nenhum ladrão.

Em depoimento à CPI dos Bingos, Jorge Luiz Dias, funcionário da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, acusa o ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), que renunciou ao mandato para evitar a cassação. É o caso do “mensalinho invertido”.

Segundo ele, Rodrigues, ex-bispo e ex-coordenador político da Igreja Universal do Reino de Deus, exigia de R$ 10 mil a R$ 15 mil mensais, de 22 deputados federais e 29 estaduais, em troca de apoio. Funcionários dos deputados também eram obrigados a contribuir. Dias diz que Rodrigues faturava uma média de R$ 630 mil por mês.

Presente à sessão, Rodrigues nega as acusações, mas admite a força da Igreja Universal nas eleições:

– Um político com apoio da igreja salta do carro e tem 2 mil, 5 mil pessoas que dizem amém. O pastor diz: “Este é meu candidato, quero que vocês votem nele. Não quero só seu voto, mas os de sua família, seu pai, sua mãe, seu irmão, empregado e de seu patrão”. Todos levantam a mão.

De acordo com Dias, Waldomiro Diniz e Rodrigues montaram um esquema de corrupção na Loterj, a estatal que administra as loterias no governo do Rio. O esquema funcionava em conjunto com agências de publicidade e casas de bingo.

Uma das agências, a JOB Niterói, teria recebido R$ 134 mil por mês, durante um ano, para colar cartazes do jogo de raspadinha nas ruas. Parte do dinheiro, porém, voltava para o esquema. Dias confessa ter entregue o dinheiro a Rodrigues:

– Eu pegava os cheques, sacava e entregava o dinheiro na mão dele.

Durante o período em que Waldomiro presidiu a Loterj, os gastos da estatal fluminense com publicidade subiram de R$ 7,5 milhões para R$ 17,1 milhões, e chegaram a comprometer 34% da arrecadação da estatal. Em troca da autorização para abrir 13 casas de bingo, por sua vez, a dupla Waldomiro/Rodrigues teria recebido propina de R$ 1 milhão por mês.

Em depoimento às CPIs dos Correios e do Mensalão, o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, afirma que o governo interferiu nos assuntos dos fundos de pensão. Ele acusa o ex-ministro Luiz Gushiken. Apesar de patrocinados por estatais, os fundos são entidades privadas e pertencem aos seus associados, ou seja, pensionistas, aposentados e trabalhadores da ativa.

Dantas alega que a Brasil Telecom pagou almoços e jantares para Fábio Luiz Lula da Silva, o filho do presidente Lula. Foi em 2003, durante viagem de Lulinha ao Japão. Dantas não sabe dizer se despesas de hospedagem também foram pagas pela empresa. Admite que a Brasil Telecom tentou comprar a Gamecorp, a empresa de Lulinha, mas o negócio acabou sendo fechado com a Telemar, que comprou ações da Gamecorp por R$ 5 milhões.

Dados em poder da CPI dos Correios apontam que as empresas de telecomunicação controladas pelo Opportunity (Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular) injetaram cerca de R$ 150 milhões nas agências de publicidade de Marcos Valério. Dantas garante que o dinheiro foi usado para pagar gastos com propaganda.

A CPI dos Correios divulga relatório que aponta perdas de R$ 9 milhões em seis fundos de pensão, em decorrência de operações de compra e venda de títulos públicos. Suspeita-se que os prejuízos foram intencionais e têm relação com o dinheiro do caixa 2 do PT.

As operações com saldo negativo estão concentradas em 12 corretoras. Entre elas, a Bônus-Banval, envolvida no escândalo do mensalão. Operações com a Bônus-Banval deram prejuízos de R$ 708 mil ao Geap, o fundo dos funcionários públicos federais.

O maior prejuízo detectado é da ordem de R$ 4,4 milhões e atingiu o Serpros, o fundo dos funcionários da estatal de processamento de dados. O segundo maior é o do Geap, com perdas atualizadas de R$ 2,2 milhões. E em terceiro lugar no ranking dos maus investimentos aparece o Portus, dos funcionários portuários, com perdas estimadas agora em R$ 846 mil.

O TCU (Tribunal de Contas da União) divulga os resultados da auditoria realizada no contrato da Câmara dos Deputados com a agência de publicidade SMPB. Responsabiliza o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara, por prejuízos de R$ 252 mil aos cofres públicos. O contrato investigado rendeu R$ 21,9 milhões à agência de publicidade de Marcos Valério.

O relatório sugere que Cunha, diretores da Câmara e a SMPB devam ser obrigados a devolver os R$ 252 mil, devidamente corrigidos, pagos à empresa IFT (Idéias, Fatos e Texto), do jornalista Luís Costa Pinto. Subcontratada pela SMPB, a IFT não teria prestado os serviços para os quais foi paga.

Outro problema constatado diz respeito a pesquisas de opinião feitas pela Vox Populi, igualmente subcontratada pela SMPB, por R$ 757 mil. Foram incluídas perguntas de cunho político. Usaram dinheiro público para obter uma avaliação sobre o envolvimento do ex-ministro José Dirceu (PT-SP) no caso Waldomiro Diniz, e fizeram perguntas sobre a popularidade do próprio Cunha.

Entre as irregularidades listadas, o uso do contrato com a agência de Valério para executar obras de construção civil nos estúdios da TV Câmara. A prorrogação do contrato entre a Câmara dos Deputados e a SMPB também foi considerada indevida.

O deputado João Alfredo (PT-CE) pede a desfiliação do PT. Diz que o partido está mergulhado “numa crise insuperável”. Para ele, a “burocratização autoritária” levou a direção petista a usar métodos condenáveis na prática política. Alfredo vai para o PSOL.

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