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Cronologia da Crise:

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8/09/2005

O governo Lula trabalha com a expectativa de reverter a situação e preservar o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE). O ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, emite nota endereçada ao Painel do Leitor do jornal Folha de S.Paulo, para negar a interferência do governo na crise do mensalinho. O texto é assinado pela assessora Sonia Carneiro:

“O ministro considera que as referidas denúncias não podem ser utilizadas como elemento de prejulgamento contra o deputado até que sejam prontamente apuradas. A pedido do próprio deputado Severino Cavalcanti, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou a Polícia Federal para investigar as supostas denúncias e contribuir para a elucidação do caso.”

O empresário Sebastião Buani concede entrevista coletiva. Ao lado de 50 funcionários e da mulher, Diana, conta os detalhes do escândalo. Informa que entregou R$ 110 mil de propina a Severino Cavalcanti, em 2002 e 2003, em troca da autorização para operar restaurantes e lanchonetes na Câmara dos Deputados.

Tudo começou ao pedir ajuda ao deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), para prorrogar um contrato de funcionamento do restaurante Fiorella. Na época, Severino era o primeiro-secretário da Câmara. A conversa ocorreu nos corredores do Congresso, em 2002:

– Comentei com ele: “Estou com um pedido lá na mesa do primeiro-secretário e o senhor, que é amigo dele, poderia ver se pode dar uma decisão final, ou pode ou não pode, ou é lei ou não é”. Pouco tempo depois, recebi um telefonema para comparecer ao gabinete de apoio do primeiro-secretário. Na conversa, o primeiro-secretário me disse: “Você sabe, eu sou um homem que não tenho empresas, e neste ano de eleição a gente precisa de uma ajuda”.

Severino pediu R$ 60 mil para renovar o contrato. Buani recusou. Severino propôs R$ 50 mil. Nova recusa e o valor acabou fixado em R$ 40 mil, metade para ele e metade para Patriota. O dinheiro foi pago, o empresário recebeu em abril um termo prorrogando a concessão por cinco anos, assinado por Severino.

Em outubro de 2002, porém, surgiu um problema. Buani recebeu uma carta da direção da Câmara, perguntando se ele tinha interesse em renovar a concessão, em caráter de emergência, por mais um ano. O empresário se sentiu enganado por Severino. Concluiu que o documento assinado pelo deputado, colocado dentro de um processo administrativo, não tinha validade. Diz Buani:

– Esse documento foi colocado dentro do processo e foi me dada uma cópia do processo com essa via dentro. Não existe isso de “não vi o documento”, “não existe documento”. Mas quando a gente abriu o processo, no lugar daquele papel prorrogando o contrato, havia outro do próprio Severino, dizendo que indeferia o processo por isso e aquilo. Pensei, então, “não estou acreditando”, “fui enganado de uma forma... como eu caí numa dessa?” Dinheiro ganho suado, com tanta dificuldade por aquele documento que não valeu nada?

Inconformado, o empresário procurou Severino para reclamar. Recebeu garantias de que não havia problemas:

– Fui direto ao Severino e ele me disse: “Não se preocupe, enquanto eu estiver na Mesa Diretora você estará na Casa”.

Buani achou que estava tudo resolvido. Em janeiro de 2003, no entanto, Severino o procurou novamente para dizer que seria assinado um contrato emergencial, com a prorrogação por um ano do contrato. De fato, a prorrogação de cinco anos, assinada anteriormente pelo deputado, não valia nada. Severino disse:

– Quero que você ganhe muito dinheiro, porque você merece.

Foi aí que surgiu o acerto do mensalinho. Buani já havia recebido autorização para aumentar em quase 40% o valor das refeições. Severino pediu R$ 20 mil mensais para prorrogar o contrato. O empresário reclamou. A conversa demorou quatro horas:

– Ele bateu o pé, mas depois de muita negociação ficou por R$ 10 mil.

O mensalinho foi pago de fevereiro a agosto de 2003.

– O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o dinheiro nas mãos, eu e ele andando pelos corredores.

Buani diz que resolveu interromper o pagamento da propina atendendo pedido da filha, Gisele, diretora financeira da empresa.

– Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina e disse: “Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina”.

Suspenso o mensalinho, vieram os problemas. Buani foi perdendo, uma a uma, as concessões para operar restaurantes e lanchonetes na Câmara. Só restou o restaurante Fiorella, agora com os dias contados.

Ainda em Nova York, Severino Cavalcanti reage à entrevista de Buani:

– É mentira, é mentira, é mentira.

Anunciada a demissão de Maurício Marinho, alto funcionário dos Correios, pivô do escândalo do mensalão. Mas o homem que foi filmado ao receber propina de R$ 3 mil continuará recebendo o salário, de R$ 10 mil mensais. Isso enquanto estiver em vigor uma licença médica solicitada por ele, cuja prorrogação pode se estender por até nove meses.

O senador Cristovam Buarque (DF) formaliza sua saída do PT. Ele vai para o PDT.

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