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Cronologia da Crise:

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27/10/2005

A CPI do Mensalão promove acareação entre distribuidores e sacadores de dinheiro do caixa 2 do PT. Delúbio Soares, o ex-tesoureiro expulso do partido, mostra-se afinado com o empresário Marcos Valério. Mas não há entendimento. Os números do valerioduto, acima de R$ 55 milhões, não batem.

Delúbio diz ter autorizado R$ 12 milhões para o PL. Valério afirma que repassou R$ 10,8 milhões. Valdemar Costa Neto, o presidente do partido, garante que recebeu apenas R$ 6,5 milhões, e insiste: usou todo o dinheiro para pagar despesas de campanha do segundo turno da chapa Lula/José Alencar (PL-MG), em 2002. Mas não apresenta qualquer comprovante:

– Ainda não tenho os recibos.

Delúbio declara que autorizou R$ 8 milhões para o PP, sendo R$ 4,5 milhões para o assessor João Cláudio Genu ou pessoas diretamente autorizadas pelo líder do partido, deputado José Janene (PR). Outros R$ 3,5 milhões foram para o deputado Vadão Gomes (PP-SP). Valério afirma ter repassado R$ 4,1 milhões ao PP. Simone Vasconcelos, diretora financeira da SMPB, fala que entregou R$ 1,6 milhão a Genu. Ele, por sua vez, diz que recebeu apenas R$ 700 mil.

Emerson Palmieri, o tesoureiro informal do PTB, reafirma que Valério entregou R$ 4 milhões ao ex-presidente do partido, Roberto Jefferson, em duas remessas. E dá os detalhes de como separou o dinheiro em pacotes de R$ 150 mil e R$ 200 mil, mas não sabe qual o destino do dinheiro, a cargo de Jefferson. Valério nega. Diz que jamais entregou qualquer quantia a Jefferson. Palmieri ironiza:

Valério não entregou, Delúbio não entregou, José Dirceu não entregou, José Genoino não entregou. Roberto foi cassado por um crime que não existiu, então.

O deputado Júlio Redecker (PSDB-RS) apresenta uma tabela de pagamentos ao PL, e argumenta que está provada a existência do mensalão. Alinha quatro pagamentos de R$ 500 mil cada, de oito em oito dias, em fevereiro de 2003. E cinco pagamentos semanais de R$ 300 mil cada, em março daquele ano. Para ele, um “semanão gordo”. Ao longo de cinco meses, os repasses chegaram a R$ 6 milhões. A conta: se a quantia for repartida por 41, o número de deputados e senadores do PL na época, o resultado é R$ 29.268,29 mensais para cada um, número bem próximo da quantia de R$ 30 mil, o mensalão denunciado por Jefferson.

Os deputados Moroni Torgan (PFL-CE) e Zulaiê Cobra (PSDB-SP) anunciam que vão defender o impeachment de Lula junto a seus partidos. Para Torgan, está claro o envolvimento do presidente em crime eleitoral:

– Não é possível que somente os deputados paguem pelo caixa 2. Todo mundo que depôs aqui hoje confessou o caixa 2. É preciso tratar do impeachment.

Para o líder do PFL no Senado, José Agripino Maia (RN), o candidato é o responsável pela prestação de contas da campanha:

– Se o presidente Lula não incluiu nela os R$ 6,5 milhões gastos pelo deputado Valdemar Costa Neto, ele cometeu crime eleitoral. Tem muito deputado respondendo a processo que pode resultar em cassação por causa do caixa 2. O presidente da República não está imune à lei.

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) denuncia um “esquema de assalto ao Estado”, e defende a legitimidade do processo de impeachment contra Lula:

– O PT tentou passar a idéia de que todo roubo valia porque era caixa 2. Como mundo fazia, era perdoável. O problema é que tudo o que foi feito de errado o PT diz que é caixa 2. Mas não tinha campanha. Era corrupção pura e simples.

Em editorial, o jornal Folha de S.Paulo comenta a possibilidade de abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República. Lembra que o uso de recursos irregulares na campanha de Lula já fora admitido pelo próprio marqueteiro do presidente, Duda Mendonça. Diz o jornal:

“São de fato enfáticos os indícios de dinheiro ‘não-contabilizado’ na campanha de Lula, mas, quando das declarações de seu marqueteiro, a própria oposição e alguns porta-vozes do establishment preferiram aplicar panos quentes sobre o assunto, calculando que seria menos traumático e mais viável em termos políticos deixar que os acontecimentos se encarregassem de ‘diminuir’ o primeiro mandatário.”

A Folha acrescenta:

“Ao que parece, porém, Lula, embora tenha se tornado um candidato extremamente vulnerável, não encolheu tanto quanto se imaginou – e, além disso, vai mostrando crescente desembaraço ao atacar opositores e proteger os acusados de corrupção de seu partido e do governo, gente que no seu entender apenas ‘errou’. Ao mesmo tempo, a oposição, por conveniência ou incompetência, não tem conseguido trazer à luz fatos que elucidem o modus operandi do esquema do mensalão, em especial no que tange à origem do dinheiro.”

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