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Cronologia da Crise:

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29/10/2005

A revista Veja denuncia um novo escândalo: o PT recebeu grande quantia em dólares, proveniente de Cuba. O dinheiro norte-americano chegou acondicionado em caixas de bebida. De acordo com o repórter Policarpo Junior, o comitê eleitoral de Lula recebeu, entre agosto e setembro de 2002, US$ 3 milhões. O dinheiro foi entregue pelo cubano Sérgio Cervantes, conselheiro político da embaixada de Cuba no Brasil, e depois levado para Campinas (SP) num avião Seneca, em duas caixas de uísque e uma de rum cubano. Buscou o dinheiro Vladimir Poleto, ex-assessor do ministro Antonio Palocci (PT-SP) em Ribeirão Preto (SP).

Em Campinas, o dinheiro foi apanhado no aeroporto de Viracopos por Ralf Barquete, outro auxiliar de Palocci da época da Prefeitura de Ribeirão. De lá, foi levado num automóvel Omega blindado, conduzido pelo motorista Éder Eustáquio Macedo, para o comitê de Lula no bairro de Vila Mariana, em São Paulo. Aos cuidados de Delúbio Soares. Veja obteve detalhes da história com o advogado Rogério Buratti, ex-secretário de Governo de Palocci em Ribeirão. O relato da revista:

“Buratti não queria falar sobre o assunto, mas não se furtou a confirmar o que sabia. ‘Fui consultado por Ralf Barquete, a pedido do Palocci, sobre como fazer para trazer US$ 3 milhões de Cuba’, disse Buratti.”

Barquete morreu em 2004, vítima de câncer.

Da reportagem: “Buratti sugeriu internar o dinheiro cubano pela via que lhe parecia mais fácil. ‘Disse que poderia ser através de doleiros’. O advogado relata que, depois disso, não teve mais contato com o assunto, mas dias depois foi informado de seu desfecho. ‘Sei que o dinheiro veio, mas não sei como’. As declarações de Buratti foram gravadas com seu consentimento”.

A revista também entrevistou o economista Vladimir Poleto:

“A conversa estendeu-se das 10 da noite até as 3 da madrugada. Poleto, apesar da longa duração do contato, ficou assustado a maior parte do tempo. ‘Essa história pode derrubar o governo’, disse ele mais de uma vez, sempre passando as mãos pela cabeça, em sinal de nervosismo e preocupação. No decorrer da entrevista, no entanto, Poleto confessou que ele mesmo transportou o dinheiro de Brasília a Campinas, voando como passageiro em um aparelho Seneca em que estavam apenas o piloto e ele. Fez questão de ressalvar que, na ocasião, não sabia que levava dinheiro. Achava que era bebida. ‘Eu peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida’, disse. ‘Depois do acontecimento, fiquei sabendo que tinha dinheiro dentro de uma das caixas’, completou, acrescentando: ‘Quem me disse isso foi o Ralf Barquete. O valor era US$ 1,4 milhão’.”

Poleto contou que recebeu a orientação de embarcar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no avião emprestado por José Roberto Colnaghi, empresário amigo de Palocci. Em Brasília, foi levado numa van até o apartamento em que recebeu do cubano as três caixas de bebida, lacradas com fitas adesivas. A reportagem conta que ele deveria voar de volta para Congonhas, mas o mau tempo obrigou o piloto a descer em Viracopos.

Barquete chegou em Viracopos no Omega blindado dirigido por Éder Eustáquio Macedo, hoje funcionário do Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro. O motorista pôs as caixas no porta-malas e levou-as a Delúbio. Ele confirmou ter feito o serviço a Veja, mas recusou-se a falar novamente com a revista.

O Omega blindado pertencia à locadora de Roberto Carlos Kurzweil, empresário de Ribeirão. O comitê eleitoral do PT o alugara. O motorista Macedo era funcionário de Kurzweil e fora cedido ao PT. O repórter Policarpo Junior informa que o cubano Sérgio Cervantes, ligado diretamente a Fidel Castro, é um velho conhecido de Lula e do ex-ministro José Dirceu (PT-SP).

Poleto tentou negar a entrevista: “Ele despachou um e-mail à revista pedindo para que não se fizesse ‘uso do conteúdo’ da conversa. Ali, sugere que não autorizou a gravação do diálogo e dá a entender que, diante de ‘diversos copos de chope’, pode ter caído involuntariamente no ‘exacerbamento de posicionamentos’. Veja respondeu o e-mail, indagando as razões que o teriam levado a uma mudança tão radical de postura, mas Poleto não respondeu. Por essa razão, a revista mantém, no corpo desta reportagem, os termos do acordo selado com o entrevistado, que autorizou a publicação do conteúdo da conversa e a revelação de sua identidade. Houve, inclusive, uma gravação da entrevista, também devidamente autorizada por Poleto. A gravação, com sete minutos de duração, resume, na voz dele, os trechos mais importantes das revelações que fez em cinco horas de conversa no Plaza Inn. A tentativa de recuo de Poleto é uma expressão do peso da verdade”.

A revista Isto É publica uma lista revisada dos valores repassados pelo empresário Marcos Valério a pessoas indicadas pelo tesoureiro Delúbio Soares. Um irmão do próprio Delúbio, identificado como Carlos, aparece como o beneficiário de R$ 260 mil. E o ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), como recebedor de R$ 200 mil, e não apenas os R$ 50 mil apontados anteriormente.

Como se sabe, Cunha, num primeiro momento, negou o saque e justificou assim a presença de sua mulher no Banco Rural do Brasília Shopping: ela se deslocara até a agência a fim de resolver um problema com o pagamento da conta da sua TV a cabo. Depois, admitiu uma retirada de R$ 50 mil feita por ela, mas apenas para pagar dívidas da campanha eleitoral de 2004. Simone Vasconcelos, a diretora financeira da SMPB, já havia feito referência aos R$ 200 mil, ao mencionar o dinheiro sacado por Cunha. Agora, novamente.

A CPI dos Correios identificou 129 telefonemas entre Cunha e as empresas de Valério, num período de menos de cinco meses, em 2003. Os dados mostram que o telefone celular usado pela SMPB para contatar o tesoureiro do PL Jacinto Lamas, nas datas dos repasses de dinheiro ao PL, é o mesmo telefone usado 53 vezes em ligações para o celular de Cunha. O deputado não quis comentar.

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