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Cronologia da Crise:

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10/11/2005

Relatório parcial da CPI dos Correios pede os indiciamentos de Delúbio Soares e Marcos Valério. A dupla é apontada como operadora de um esquema “acima de leis, Estado e Justiça”. Ambos são acusados por se “dedicarem a subtrair dos cofres públicos recursos que foram destinados a integrantes da base aliada”, e cometer diversos crimes, entre os quais falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude em licitação, crime eleitoral e improbidade administrativa. Delúbio e Valério são citados por tráfico de influência, crime contra o sistema financeiro, crime contra a ordem tributária, fraude contábil e processual.

O documento nega a existência dos empréstimos acima de R$ 55 milhões para pagamentos determinados por Delúbio, o tesoureiro do PT, em benefício de parlamentares ligados ao governo. Dessa forma, as operações de crédito foram apenas simulações para encobrir a verdadeira origem do dinheiro. As fontes seriam contratos com o Banco do Brasil, repasses dos bancos Rural e BMG em troca de vantagens no governo, dinheiro guardado no exterior e internado no país e recursos de empresas privadas que contrataram agências de publicidade ligadas ao esquema.

Manobra de parlamentares governistas impede a votação do relatório parcial. Para atrasar os trabalhos, aliados do Palácio do Planalto pedem vista do relatório e ganham prazo. Alegam que o texto precisa ser analisado.

Depoimento à CPI dos Bingos. É de Vladimir Poleto, que está protegido por habeas-corpus concedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Não pode ser preso, mesmo que minta ou se recuse a responder perguntas. Nega ter transportado três caixas com dinheiro vindo de Cuba para a campanha de Lula, em 2002, num vôo entre Brasília e Amarais, no interior de São Paulo.

Ex-assessor de Antonio Palocci (PT-SP) na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), Poleto acusa a revista Veja de publicar uma entrevista não autorizada. Diz que estava alcoolizado quando relatou o episódio dos dólares cubanos ao repórter:

– Após tanto chope, sendo que eu havia começado a beber à tarde aquela cachacinha, minha capacidade de discernimento estava comprometida. Não me recordo se fiz declaração. Se fiz, foi mentirosa. O fato é que houve coação e constrangimento.

A estratégia de Poleto se mostra desastrosa. Veja reproduz a entrevista no site da revista na internet. A gravação é ouvida durante a sessão da CPI. A voz de Poleto não caracteriza estado de embriaguez. Mostra-se serena e equilibrada. Reação do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE):

– O senhor é um cara-de-pau incrível.

Eis os principais trechos da conversa entre Poleto e o repórter Policarpo Júnior, durante a madrugada de 22 de outubro de 2005:

– A única coisa que eu sei é que peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida.

– Depois que você fez esse transporte você... Foi informado do que efetivamente tinha dentro destas caixas?

– Depois de todo o acontecimento, sim.

– E o que te disseram?

– Que tinha dinheiro numa das caixas. Só isso.

– Quanto tempo depois do episódio você ficou sabendo disso, que era dinheiro ao invés de bebida?

– Depois que eu ganhei uma garrafinha de Havana Club, que me foi presenteado, me falaram. Só isso.

– Segundo a informação que eu tenho, o valor transportado teria sido de US$ 3 milhões.

– Não. O valor que me disseram era US$ 1,4 milhão.

– Vindo de Cuba?

– Não sei de onde. A origem não sei, apenas que acabei transportando num ato de minha infantilidade. Só isso.

– Você tem a consciência absolutamente limpa de que não participou de maneira efetiva desse transporte de dinheiro, sabendo o que estava fazendo?

– Lógico. Imagina... Jamais iria pegar um voozinho com US$ 1 milhão dentro de um avião e transportar. Isso não é da minha índole.

Em depoimento à CPI dos Bingos, Rogério Buratti, ao contrário de Poleto, confirma o que dissera sobre a operação Cuba:

– Fui consultado, em 2002, pelo Ralf Barquete, dizendo ser a pedido do então prefeito Palocci, se eu conhecia algum mecanismo, alguma forma de trazer recursos do exterior para o Brasil. Esses recursos, pelo que me foi informado, seriam advindos de Cuba.

A consulta teria acontecido em maio ou junho de 2002. Em setembro, Barquete informou Buratti que “aqueles recursos tinham chegado”:

– Entendi, pela informação que o Ralf me passou, que o desfecho teria sido o aporte dos recursos no Brasil, na campanha do presidente Lula. Agora, de que forma teria sido e qual o montante preciso, não tive essa informação.

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