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Cronologia da Crise:

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12/11/2005

A revista Isto É Dinheiro publica detalhes do depoimento prestado cinco dias antes ao Ministério Público pelo advogado Rogério Buratti, secretário de Governo do primeiro mandato do prefeito Antonio Palocci (PT) em Ribeirão Preto (SP). Contou detalhes de uma operação que teria culminado com a doação de R$ 1 milhão para a campanha eleitoral de Lula. De acordo com Buratti, a contribuição foi feita por dois empresários angolanos, donos de casas de bingo. O episódio teria ocorrido entre outubro e novembro de 2002. Na época, Palocci exercia o seu segundo mandato como prefeito de Ribeirão e era um dos coordenadores da campanha política de Lula.

Os angolanos são José Paulo Teixeira Figueiredo e Artur José Valente Caio. Quem intermediou o encontro deles com Palocci foi o empresário Roberto Carlos Kurzweil. Além de Palocci e dos empresários, participou do jantar, no sofisticado hotel Sofitel, em São Paulo, o então presidente da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro), Waldomiro Diniz.

Durante a reunião, Palocci teria prometido legalizar a atividade dos bingos. De fato, o programa do governo Lula previa a regulamentação das atividades das casas de bingo. Posteriormente, porém, houve recuo e a edição de uma Medida Provisória que proibia o jogo de bingo. O governo decidiu voltar atrás depois da divulgação da fita em que Waldomiro Diniz apareceu pedindo propina ao empresário de jogo Carlinhos Cachoeira.

Em seu depoimento, Buratti faz outra revelação: Jorge Yazigi, o Bill, ex-diretor da empreiteira Leão Leão, foi nomeado, por indicação de Palocci, vice-presidente da Visanet. Essa empresa de cartões de crédito teria sido usada na operação intermediada pelo Banco do Brasil para desviar R$ 10 milhões ao PT. Outra informação de Buratti: o empresário José Roberto Colnaghi, o dono do avião usado na operação Cuba, obteve contratos com o governo de Angola, graças à influência do ministro Palocci.

Em outra reportagem, Isto É Dinheiro traz entrevista com Henrique Pizzolato, o petista afastado da diretoria de marketing do Banco do Brasil, acusado de participar do esquema do mensalão. Ele nega ter sido o responsável por um repasse antecipado de R$ 58,3 milhões de verbas de publicidade da Visanet. O dinheiro foi para a DNA Propaganda, de Marcos Valério. Segundo Pizzolato, a decisão de fazer a antecipação foi do ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, e do ex-ministro da Secom, a Secretaria de Comunicação da presidência da República, Luiz Gushiken.

– Se existia algo montado para favorecer o PT, era em escalões superiores, muito acima da diretoria de marketing.

Pizzolato diz ao repórter Leonardo Attuch que foi orientado por Gushiken a assinar o repasse autorizando a antecipação:

– Ele mandou assinar.

– Não é estranho pagar antecipadamente?

– Eu nunca tinha visto isso. Eu dizia até que, ao colocar o dinheiro na frente, a gente perdia o poder de barganha com a agência. Mas me disseram que tinha de ser feito assim.

A revista Época chega às bancas de jornal com uma entrevista de Carlos Godinho, ex-superintendente do Banco Rural. Ele afirma aos repórteres David Friedlander e Leandro Loyola que os empréstimos bancários a Marcos Valério e ao PT eram uma farsa. Para Godinho, as operações de crédito foram renovadas mesmo sem quitações, porque o Banco Rural procurava obter, em troca, vantagens do governo. Godinho cita Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, e José Genoino, o ex-presidente do partido:

– Na conta da SMPB entrava dinheiro, mas o Marcos Valério não liquidava os empréstimos. É suspeito. No caso do PT, é o aval de duas pessoas que não têm patrimônio para garantir a operação.

– O senhor acha que esses empréstimos foram feitos para não ser pagos?

– Com certeza. São empréstimos para mascarar a entrada de recursos que vinham de outras formas. Você justifica qualquer recurso que entrou via empréstimo. Não era para pagar.

– Se era tudo tão esquisito, por que o senhor não avisou? Sua função era essa.

– Minha função era manter a instituição livre dos riscos operacionais, de imagem e legais. A diretoria foi alertada. Mas, como a prática do Rural era manter um relacionamento com os clientes, eles não deram importância. No caso da SMPB, alertamos também para a movimentação dela, que estava fora dos padrões e tinha indícios de lavagem de dinheiro em função dos constantes saques em espécie.

Godinho recebeu ordens para não documentar operações consideradas suspeitas da agência de publicidade de Valério, e nem emitir boletins sobre os procedimentos do PT junto ao Banco Rural:

– Mandaram não fazer nos casos da SMPB e do PT. Não deixaram colocar nos relatórios as irregularidades de movimentações acima dos padrões, de risco de crédito em função de constantes renovações. É que esses documentos ficam à disposição do Banco Central. Então mandaram tirar para o Banco Central não ter acesso.

– Quando foi isso?

– De 2003 a 2005 não se colocou nada das irregularidades. Não podia colocar. A gente colocava, mas na edição final eram deletadas. E a gente era obrigada a assinar o relatório modificado. Tinha de assinar daquela forma, já vinha da diretoria a versão final para ser assinada.

Em entrevista à repórter Thaís Oyama, de Veja, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) reconhece que as denúncias sobre a crise política foram descobertas pela imprensa. Enquanto isso, a oposição se mostra despreparada e incompetente para investigar os diversos casos levantados pelo noticiário:

– Não tínhamos articulação para enfrentar uma crise dessas proporções e digerir todos os dados na velocidade com que a imprensa os foi revelando. Talvez, por isso, muitos problemas graves tenham passado em branco. A história dos dólares na cueca, por exemplo. Nunca chamamos aquele rapaz para depor. Outra conseqüência do nosso despreparo foi dar ao governo a possibilidade de ele tentar montar, como tentou, essa grande farsa de que tudo se resumiu a um problema de caixa 2 e hoje estar em plena campanha, como se nada tivesse acontecido.

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