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Cronologia da Crise:

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24/11/2005

Em entrevista concedida no Palácio do Planalto a quatro emissoras de rádio de São Paulo e do Rio, Lula mostra-se alheio às graves denúncias contra o PT e integrantes de seu governo. As pérolas do presidente:

– No dia em que o Brasil todo acordar pensando de forma positiva, a força que essa energia vai passar será tão grande que esse país poderá, definitivamente, se transformar em grande potência.

– Uma coisa que nós aprendemos a fazer é que a vida humana é tão bonita e tão curta, que não há tempo para a gente ser pessimista.

– Não há razão para um casal brigar, porque não tem nada pior na vida do que você sair para trabalhar brigado com a esposa, ou a esposa brigada com o marido. É um dia infernal.

Além das lições de vida, o presidente parece inspirado ao fazer comentários sobre a crise política:

– Sabe, mexer no Palocci é a mesma coisa que pedir para o Barcelona tirar o Ronaldinho. Deixa ele jogando, ele está bem. De vez em quando, o Ronaldinho perde um gol, de vez em quando, o Palocci pode dizer alguma coisa que alguém não goste, mas isso faz parte da vida.

Sobre o mensalão:

– Só tem três possibilidades de um presidente saber: se ele participou da reunião, se alguém que participou contou para ele, ou se a imprensa denunciar.

Lula nega:

– Estamos vivendo um momento excepcional, do ponto de vista da intranqüilidade na política, porque se colocou na cabeça do povo, ao longo de vários meses, que tinha mensalão. Isso virou refrão de música de carnaval, está no inconsciente da sociedade e agora a CPI terminou o trabalho sem provar se houve mensalão. A própria pessoa que acusou foi cassada porque não provou.

A morte de Celso Daniel, um “acidente de percurso”:

– Não acredito em crime político. Eu acho que o assaltaram, seqüestraram, aí perceberam, como se diz, o tamanho do peixe, e resolveram matar de forma irresponsável e por medo.

– Uma parte do Ministério Público de São Paulo, toda vez que vai chegando a eleição, levanta esse caso.

Lula parece Paulo Maluf.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) admite que a mulher, Márcia Milanésio, sacou R$ 50 mil em dinheiro do Banco Rural, na agência do Brasília Shopping. Cunha afirma que a retirada foi feita por orientação do tesoureiro Delúbio Soares. Nega que soubesse a origem do dinheiro, a conta bancária da agência SMPB de Marcos Valério. Diz Cunha:

– Recurso você busca no tesouro do seu partido. Qual crime eu cometi? Eu peguei no lugar que eu sabia, que era a tesouraria nacional do PT.

Ele reconhece que não declarou o valor à Receita Federal:

– Eu admito que tenha problema contábil. Gostaria que alguém pudesse me dizer como posso corrigir.

As coisas são mais complicadas do que Cunha quer fazer crer. Num primeiro momento, ele disse que a mulher foi ao Banco Rural para resolver um problema com a conta da TV a cabo. Agora, a versão final do deputado: os R$ 50 mil foram providenciados por Delúbio em São Paulo, transferidos da conta de Valério do Banco Rural de Belo Horizonte para a agência de Brasília, sacados em espécie por Márcia Milanésio Cunha e levados, em dinheiro vivo, para São Paulo. Tudo para pagar despesas com pesquisas eleitorais em seu reduto eleitoral, quatro cidades da Grande São Paulo.

Tem mais: apesar de negar que conhecia a origem do repasse, Cunha manteve relações estreitas com Valério. A agência DNA, de propriedade do empresário, fez a campanha de Cunha para a presidência da Câmara. Em seguida, eleito presidente, a SMPB, outra agência de Valério, foi contratada por Cunha por R$ 10,7 milhões, para fazer a propaganda da Câmara. Como se não bastasse, Cunha recebeu Valério para tomar café da manhã em 3 de setembro de 2003, na residência oficial do presidente da Câmara. O saque de R$ 50 mil foi feito no dia seguinte. Sobre o café da manhã:

– Marcos Valério só foi me cumprimentar pela minha atuação na votação da reforma tributária.

Quanto aos R$ 50 mil, Cunha apresentou três notas fiscais do Instituto de Pesquisa DataVale, para justificar despesas com pesquisas ao longo de quatro meses. As notas, contudo, são seqüenciais. Fica a suspeita de que foram providenciadas às pressas, pois não há lógica de a empresa só ter prestado serviços a um cliente, num período de quatro meses.

Por fim: Cunha admite ao Conselho de Ética que recebeu de presente de aniversário de Valério uma caneta Montblanc e passagens aéreas para sua secretária e a filha dela. O valor do mimo, R$ 3.084,20, Cunha garante que doou ao programa Fome Zero.

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