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Cronologia da Crise:

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7/11/2005

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Lula nega que houve o pagamento de mensalões no Congresso. “Tenho certeza que não teve essa barbaridade”, afirma ele. Por outro lado, explica assim o pronunciamento em que se disse traído por aqueles que usaram caixa 2 nas eleições, o que chamou de “loucura” e “práticas equivocadas”:

– O dinheiro fácil nunca fez bem para ninguém na história da humanidade. Você tem meios legais para fazer finanças de campanha. Não posso admitir que companheiros, em nome da facilidade, da presunção, começassem a terceirizar campanha financeira de um partido. Por isso que eu acho que fui traído por todos os que fizeram essa prática condenada pelo PT e pela sociedade brasileira.

Lula, mais uma vez, não dá nomes. O presidente refuta que trabalhou para impedir a criação das CPIs que investigam seu governo e o PT. Diz Lula:

– O que é importante para mim e que me deixa muito de cabeça erguida é o seguinte: nós estamos com três CPIs funcionando, não há nenhuma ingerência do governo para criar nenhum problema para a CPI. Acho que o povo brasileiro deve aproveitar que eu estou na presidência da República e, se alguém tiver denúncias, tem que fazer as denúncias porque elas serão apuradas.

Em outro trecho da entrevista, Lula defende o deputado José Dirceu (PT-SP), apontado como o grande operador do esquema de pagamento a parlamentares.

– Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu. Lula diz que seria advogado de defesa de Dirceu:

– Qual é a acusação que existe contra o Zé Dirceu?

O publicitário Duda Mendonça, marqueteiro da campanha política que elegeu Lula presidente em 2002, admitiu ter recebido recursos de caixa 2 no exterior. Lula rechaça o evidente crime eleitoral. Para ele, a prática foi reconhecida apenas pelo “nosso Delúbio”, e nas eleições municipais de 2004.

O presidente também defende o filho, Fábio Luiz Lula da Silva, cuja empresa recebeu aporte de R$ 5 milhões da Telemar, uma concessionária de serviços públicos:

– Todos os contratos são regulares, todos. Nenhum é irregular.

Lula não aceita que Celso Daniel foi vítima de crime político:

– Não acredito no envolvimento do PT no caso Celso Daniel.

Ao comentar a entrevista de Lula ao Roda Viva, o deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS) compara o presidente ao personagem Pinóquio, aquele da fábula sobre o boneco de madeira mentiroso:

– Lula deveria mudar o nome para Lulóquio.

O jornal O Estado de S. Paulo publica o editorial “Um espanto de entrevista”: “A tal ponto chegou a enrolação que um dos entrevistadores não se conteve e afirmou: ‘A discussão não é se houve ou não caixa 2. É quanto foi’. Lula não se deu por achado, como não se daria, em outro bloco, quando um jornalista desmentiu, com fatos, a sua risível versão de que o governo jamais tentou impedir a criação da CPI dos Correios. Uma escapatória que o presidente buscou a todo momento foi a de declarar, magisterial, que não se pode condenar quem quer que seja sem provas – como se já não houvesse uma pilha de provas, inclusive flagrantes – contra os seus companheiros. Para ele, tudo reduzindo a ‘denuncismo vazio’.”

Em depoimento sigiloso à CPI dos Bingos, testemunha mantida sob sigilo aponta o empresário Roberto Carlos Kurzweil como o intermediário que, em nome do então prefeito de Ribeirão Preto (SP), Antonio Palocci (PT-SP), conseguiu em 2002 uma doação de R$ 1 milhão para a campanha de Lula. O dinheiro teria sido entregue por dois empresários angolanos, donos de casas de bingo em São Paulo. Kurzweil também seria o responsável pelo aluguel do Omega blindado usado para transportar os supostos dólares de Cuba, doados ao PT naquele mesmo ano.

O acerto com os dois empresários do jogo teria acontecido durante um jantar promovido por Kurzweil em Ribeirão. Segundo a testemunha, Palocci, um dos coordenadores da campanha de Lula, participou do encontro. O valor da doação é o mesmo que já fora apontado por Rogério Buratti. De acordo com a testemunha sigilosa, Ralf Barquete, ex-secretário da Fazenda de Palocci em Ribeirão, foi o encarregado de receber o dinheiro e entregá-lo ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

A CPI dos Bingos dispõe de documentos que apontam a suposta drenagem de dinheiro público da Prefeitura de Ribeirão Preto para o caixa 2 do PT. O esquema teria funcionado durante a segunda gestão do prefeito Antonio Palocci (PT-SP), em 2002. A administração municipal fazia medições de serviços de varrição e de coleta de lixo acima do efetivamente realizado, e pagava a mais à empreiteira Leão Leão. O dinheiro voltava depois ao PT, “por fora”.

Um “mapa do pagamento de propinas” da Leão Leão, acusada por Rogério Buratti de dar uma mesada de R$ 50 mil a Palocci, é apreendido pelo Ministério Público: os “acertos” em Ribeirão, no total, chegavam a R$ 226 mil.

Uma das medições suspeitas é a que atestava a varrição diária de uma extensão de 48 quilômetros, apenas no Bosque Municipal de Ribeirão. Um exagero. A coleta de lixo hospitalar também apresentou despesas suspeitas. Em janeiro de 2002, o serviço custava R$ 43 mil por mês à Prefeitura. Em março do mesmo ano, os gastos com a coleta hospitalar pularam para R$ 226 mil.

O Ministério Público investiga a saída de recursos da contabilidade da Leão Leão para três empresas que forneciam notas fiscais frias, simulando vendas à Leão Leão. A análise de 331 cheques, cujos valores foram sacados em dinheiro vivo na agência bancária que funciona dentro da Leão Leão, mostrou retiradas de R$ 2,8 milhões pelas três empresas. Os promotores acreditam que o dinheiro era usado para pagamento de propina. Apuraram que as empresas ficavam apenas com 2% sobre o valor das notas frias. O grosso do dinheiro saiu da Leão Leão em carro-forte.

Os números batem: os R$ 2,8 milhões supostamente desviados da Prefeitura de Ribeirão por meio das vendas fictícias atestadas pelas notas fiscais frias, em todo o ano de 2002, correspondem a 12 pagamentos mensais de R$ 226 mil, o suposto custo mensal da propina da Ribeirão de Palocci.

Relações umbilicais. Informações em poder da CPI dos Bingos, provenientes da quebra de sigilos telefônicos, atestam 1.434 ligações telefônicas entre dois integrantes da chamada “república de Ribeirão Preto”, em pleno governo Lula. Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular do ministro Antonio Palocci (PT-SP), fez 515 ligações para Vladimir Poleto, ex-funcionário da Prefeitura de Ribeirão Preto (SP). E Poleto, por sua vez, retribuiu com 919 telefonemas para Ademirson. As ligações ocorreram de junho de 2003 a agosto de 2005.

Ligações perigosas. Documentos em poder da CPI dos Correios atestam que a agência DNA Propaganda, de Marcos Valério, usou o contrato de publicidade com o Banco do Brasil como garantia para obter empréstimos de R$ 29 milhões junto ao Banco Rural, em benefício das empresas SMPB Comunicação e Graffiti. Posteriormente, de acordo com Valério, o dinheiro foi usado para fazer pagamentos a políticos da base aliada do governo Lula, dentro do esquema de caixa 2.

O Banco do Brasil informou desconhecer que a DNA concretizou operações financeiras dando em garantia os contratos com a estatal. Já o Banco Rural alega que o Banco do Brasil foi notificado pela DNA, inclusive para transferir ao Banco Rural pagamentos decorrentes do contrato de publicidade. A DNA recebeu R$ 150 milhões por serviços prestados por meio do contrato com o Banco do Brasil. Mais um dado: a DNA não teria repassado R$ 37,6 milhões ao Banco do Brasil, ao deixar de prestar contas sobre a chamada bonificação de volume, que é obtida com a veiculação de campanhas publicitárias. Com o escândalo do mensalão, o contrato foi rompido. O Banco Rural, por sua vez, alega nunca ter recebido pelos empréstimos.

Investigações da CPI dos Correios na Nucleos, o fundo de pensão dos funcionários das estatais de energia nuclear, suspeito de desviar dinheiro para campanhas políticas. O fundo teria tido perdas entre R$ 9,3 milhões e R$ 22,7 milhões, conforme auditoria que verificou operações feitas com títulos públicos. Em 2004, a rentabilidade média dos fundos foi de 17%. A da Nucleos, de 5,7%.

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