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Cronologia da Crise:

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9/11/2005

Lula reúne-se com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e com o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS). Quer impedir a prorrogação dos trabalhos da comissão até abril. Tenta acabar com o desgaste do governo. Depois do encontro, Calheiros derruba a sessão do Congresso na qual seria lido o requerimento que dá mais prazo à CPI. Pede para conferir as assinaturas do documento, antes de lê-lo em plenário. Sem a prorrogação, os trabalhos acabam em 15 de dezembro. Com o adiamento da leitura, Lula ganha tempo para convencer parlamentares a retirar os nomes do documento que estende o prazo das investigações.

Suposto acordo com a oposição pressupõe que não se convoque o lobista Nilton Monteiro para depor. Depoimento dele poderia implicar o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) num pagamento de dívida de campanha efetuado por Marcos Valério, em 1998. Em troca, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) determina o cancelamento do depoimento de Soraya Garcia, a assessora financeira do PT de Londrina (PR) durante a campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheletti (PT), em 2004.

Soraya envolveu em operações com caixa 2 o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), e o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho. Todos teriam participado da movimentação “por fora” de R$ 6,5 milhões na campanha de Micheletti. Em entrevista ao repórter Leonardo Souza, da Folha de S.Paulo, Soraya responde se havia se preparado para o depoimento frustrado à CPI:

– Na verdade eu não me preparei, quem me preparou foi o próprio PT. Eu passei um ano e meio assistindo a tudo de errado que eles faziam. Achei estranho o cancelamento. Só ia dizer o que vi e ouvi, que é o que eu venho dizendo há muito tempo.

Questionada sobre os R$ 300 mil que Dirceu teria trazido para a campanha de Londrina, Soraya faz menção a Augusto Ermetio Dias Júnior, o diretor-financeiro de Micheletti:

– Eu estava participando de um evento de confraternização do PT no dia 18 de setembro, do qual José Dirceu participaria. De quinta para sexta-feira, o Augusto me disse: “Soraya, temos de fazer um evento bem bonito, para agradar o prefeito e o José Dirceu, que está trazendo dinheiro”.

– Augusto disse quanto Dirceu estaria trazendo?

– Não, ele não disse. Mas na segunda-feira, dia 20 de setembro, ele chegou com R$ 300 mil, em notas de R$ 100, com lacre do Banco do Brasil.

A Câmara dos Deputados absolve o deputado Sandro Mabel (PL-GO), acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Mabel obtém 340 votos em sua defesa, contra 108 a favor da cassação. Há ainda 17 abstenções e 2 votos nulos. Não foram encontradas provas de que Mabel participou da distribuição de dinheiro do valerioduto, nem tampouco de que ele ofereceu suborno à deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO), ao tentar trazê-la para a base aliada do governo.

Pela segunda vez, o ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira, convocado para depor, não aparece na CPI dos Bingos. Da primeira vez, “fugiu” para Ilhabela (SP). Agora, alega não ter sido intimado e que integrantes da comissão teriam recomendado à Polícia Federal que o algemasse para conduzi-lo ao Congresso.

Em depoimento à CPI do Mensalão, Anderson Adauto (PL-MG), ex-ministro dos Transportes do governo Lula, admite o uso de dinheiro de caixa 2 em todas as campanhas eleitorais das quais participou. Reconhece ter pedido dinheiro a Delúbio Soares para pagar o que alega ser despesas de campanha de 2002, quando disputou uma vaga na Câmara dos Deputados.

– Eu sabia que poderia muito bem ter resolvido os meus problemas de campanha com os fornecedores do Ministério dos Transportes, mas eu preferi procurar o Delúbio. Sabia que poderia, mas não fiz.

Como se a prática não fosse um ato de extorsão.

E disse mais à CPI:

– Nas 11 campanhas que disputei sempre foi assim. Nunca vi uma campanha se fechar da forma que é declarada no Tribunal Superior Eleitoral.

A lista de Marcos Valério especifica R$ 1 milhão a Adauto. O ex-ministro, eleito prefeito de Uberaba (MG) em 2004, afirma que recebeu apenas R$ 410 mil. O dinheiro, segundo ele, foi sacado no Banco Rural pelo próprio irmão, Edson Pereira de Almeida, e pelo chefe de gabinete do Ministério dos Transportes na época, José Luiz Alves. Adauto nega ter recebido o dinheiro dentro de seu gabinete de ministro, como informou Alves à CPI:

– Posso ter recebido na rua, mas não no meu gabinete.

Reação da deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP):

– Ele vai para a cadeia.

Do deputado João Correia (PMDB-AC):

– Adauto tenta nivelar por baixo e prostituir todos os políticos do Brasil.

Da jornalista Dora Kramer, no jornal O Estado de S. Paulo:

“Se Anderson Adauto como ministro ‘sabia’ que teria perfeitas condições de usar o posto para desviar parte dos contratos de prestação de serviços em proveito próprio, estava, portanto, informando à CPI que o crime é recorrente, faz parte dos usos e costumes, é praticamente uma prerrogativa de um titular de pasta ministerial.”

A jornalista acrescenta:

“Ministrada a lição, mestre Adauto saiu dali ileso, posando de vestal por ter aberto mão de tão líquido direito de desviar dinheiro público e ter procurado o tesoureiro de um outro partido para cobrar dele recursos cuja origem, disse, pouco se lhe dava conferir. Fosse dinheiro sujo ou limpo, não era problema dele.”

No gabinete do ex-ministro Adauto, aliás, teria ocorrido, no segundo semestre de 2003, uma reunião com a presença, além do próprio ministro, do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), de outros dois deputados cujos nomes não foram divulgados, e de Delúbio Soares, o onipresente tesoureiro do PT, que levara pessoalmente uma mala de dinheiro para dividir entre os presentes.

Em outro depoimento à CPI do Mensalão, os deputados ouvem Marcelino Pies, o ex-tesoureiro do PT no Rio Grande do Sul, citado na lista de Marcos Valério como beneficiário de R$ 1,2 milhão. Ele admite ter sacado dinheiro do valerioduto, mas garante que o total não passou de R$ 1,05 milhão.

Como quase todos, aliás, diz que pôs a mão em menos dinheiro do que lhe foi atribuído. Fica a impressão de que a lógica de os agraciados refutarem os valores totais reservados a eles, uma prática recorrente, se deve ao fato de terem embolsado percentual do bolo.

No caso do senhor Pies, ele diz que parte do dinheiro do caixa 2 serviu para pagar despesas do Fórum Social Mundial. O resto segue a mesma ladainha, ou seja, a necessidade de quitar dívidas de campanha. No caso, as dívidas do ex-ministro da Educação do presidente Lula, Tarso Genro (PT-RS), que disputou e perdeu a eleição para governador do Rio Grande do Sul, em 2002.

Depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O deputado Professor Luizinho (PT-SP), um dos acusados de envolvimento no escândalo do mensalão e sujeito a ter o mandato cassado, trata de explicar por que um assessor dele, José Nilson dos Santos, recebeu R$ 20 mil do valerioduto, em 2003. Luizinho garante:

– Não tem um centavo dos R$ 20 mil no meu mandato, na minha campanha ou em benefício pessoal. Não teve meu conhecimento, meu envolvimento, minha participação. E não é caixa 2, porque foi para processo do PT.

Luizinho quer fazer crer que o repasse foi decorrente de acordo entre Santos e Delúbio Soares, e o dinheiro não poderia ter sido declarado:

– Não há como legalizar dinheiro de pré-campanha.

O petista admite ter errado ao não exonerar o assessor:

– Dei a ele um prazo para se defender e depois aviso prévio. Só o afastei no mês passado. Eu errei, mas não tem como retroagir.

Outro que garante não ter posto “nenhum centavo” no bolso é o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG), acusado de receber R$ 452 mil do caixa 2 do PT. Ele admite ter sido o beneficiário do dinheiro, mas assegura que tudo foi usado para pagar despesas de campanha das eleições municipais de 2004, no interior de Minas Gerais. Apesar do esforço de Queiroz, o Conselho de Ética da Câmara recomenda, por 12 votos a 2, a cassação de seu mandato.

O caso Visanet. O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), reage ao contra-ataque de Marcos Valério. Segundo o empresário, não procede a acusação de que ele desviou dinheiro repassado pelo Banco do Brasil para campanhas publicitárias da Visanet, a fim de emprestá-lo ao PT. Conforme Valério, ele já dispunha anteriormente de recursos aplicados na mesma conta bancária, com a finalidade de ajudar o PT.

De acordo com Serraglio, porém, não havia saldo na conta do Banco do Brasil da qual saíram os R$ 10 milhões, ao contrário das alegações de Valério. O dinheiro, portanto, teria vindo de uma transferência do Banco do Brasil, de R$ 34,8 milhões. Como se sabe, R$ 10 milhões daquela conta do Banco do Brasil foram para o BMG e, dali, houve um depósito no mesmo valor para a Rogério Lanza Tolentino Associados, empresa de um sócio de Valério. E, por fim, a mesma quantia entrou no cômputo dos empréstimos para o PT. Diz o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ):

– O único dinheiro que entrou na conta foram os R$ 34,8 milhões. E se de lá saíram R$ 10 milhões que depois foram para o PT, é dinheiro público, sim.

Análise feita pela Receita Federal em lote de 2 mil notas fiscais emitidas pela DNA de Marcos Valério chega à CPI dos Correios. As notas, parcialmente queimadas, foram apreendidas pela Polícia Federal na periferia de Belo Horizonte. Entre elas identificou-se um documento fiscal falso, no valor de R$ 6,4 milhões, emitido pela agência de publicidade para a Visanet.

A Receita Federal detectou vários problemas na contabilidade da DNA. Os livros com registros de transações da empresa são de 16 de setembro de 2005, mais de quatro meses depois da eclosão do escândalo do mensalão. Não foram encontrados livros contábeis das empresas de Valério de 1998 a 2002. Diz Osmar Serraglio:

– Eles comunicaram que houve extravio, mas desconfiamos que os papéis foram destruídos.

Na dança dos números, Valério tenta convencer a CPI dos Correios que tem ainda a receber R$ 3,8 milhões da cota do Banco do Brasil relativa ao fundo da Visanet. O Banco do Brasil, ao contrário, alega que a DNA não comprovou gastos de R$ 9,1 milhões, do total de R$ 73,8 milhões repassados antecipadamente para a agência, num período de oito meses. As divergências soam uma manobra diversionista, para confundir a comissão de investigação, as autoridades competentes e a opinião pública.

O TCU (Tribunal de Contas da União) conclui que os Correios pagaram indevidamente R$ 5,5 milhões ao consórcio contratado para prestar serviços de assistência técnica e fornecer equipamentos de informática às agências da estatal federal. O consórcio é formado pelas empresas Positivo Informática e Novadata. Mauro Dutra, o Maurinho, amigo de Lula, é o dono da Novadata.

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